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Operação Carne Fraca e Hospitais Psiquiátricos

Publicado em 29 março 2017

Por Lêda Garcia

Lêda Garcia - Médica Psiquiatra e Diretora Clinica - ISEV (CREMESC 2475 | RQE 204)

Notícia assustadora foi amplamente divulgada pela mídia nos últimos dias acerca da comercialização de carne imprópria para o consumo. Ato contínuo, a correria para desmentidos e alegações que a notícia seria alarmista e distante da verdade. Estrago feito.

Vamos ver quanto mandarim teremos de falar para convencer chineses que nossa carne é boa. É a velha história de espalhar penas de um travesseiro na ventania e depois que-rer juntá-las.

Pois foi assim com os hospitais psiquiátricos, que sofreram (sofrem ainda) sistemático processo difamatório que começa chamando-os de manicômios, instituições que no passado recebiam doentes mentais e sociais, encaminhados sem critérios e ali deixados sem gerenciamento do Estado, em sua longa história de descaso com a saúde. Não conseguindo boa justificativa para explicar tanta omissão, o Ministério da Saúde lançou mão de discurso calcado em pura ideologia para fazer desavisados acreditarem que o hospital seria o responsável pela segregação do paciente e cronificação da doença.

Negou assim que os avanços da neurociência é que permitiram o desenvolvimento de medicamentos e outras formas de terapia capazes de permitir o tratamento ambulatorial da imensa maioria dos quadros psiquiátricos.

É verdade que lançou alguns exemplares de serviços comunitários pelo país afora mas, passou a fechar hospitais psiquiátricos em ritmo muito mais acelerado do que aquele em que construía os novos serviços. Estes, certamente bem-vindos, não conseguem substituir os hospitais nos casos graves ou momentos críticos onde há risco para a segurança do próprio paciente ou de terceiros.

O discurso falacioso da defesa da cidadania do doente mental traz consigo a dificuldade prática do acesso à internação, não raro, necessária e tem obrigado familiares desses pacientes a buscarem na Justiça as chamadas internações compulsórias.

A OMS relaciona quatro doenças psiquiátricas (depressão, esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo e alcoolismo) entre as dez que conferem maior grau de morbidade. No Brasil há elevada prevalência de depressão maior (16,9%), transtornos por uso substâncias psicoativas (11%), transtornos de ansiedade (28,1%), esquizofrenia (1 a 1,5%), crescente e precoce consumo de álcool, sendo ainda o Brasil o oitavo país em número absoluto de suicídios que, na nossa AMREC, passa dos 40 por ano.

Não podemos continuar fechando hospitais psiquiátricos para então acreditar que acabamos com a doença mental.

Referências: Suicídio: informando para prevenir: Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e Conselho Federal de Medicina (CFM), 2014.

LENAD II - Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, (UNIFESP E FAPESP) 2012.

Miguel E e col. Cl Psiquiátrica-VII, IPQ da FAMUSP, Manole,2011.