Notícia

Jornal da Unesp

Onsa dá o bote. Pior para a Xylella

Publicado em 01 março 2000

A melhor forma de combater um inimigo é conhecê-lo bem. Com essa filosofia em mente, após dois anos de trabalho, foi concluído o seqüenciamento genético da bactéria Xylella fastidiosa, organismo responsável pela praga da clorose variegada dos citros (CVC), o "amarelinho", doença que causa prejuízos anuais de cerca de US$ 100 milhões à economia do Estado de São Paulo. A pesquisa, denominada projeto Genoma Xylella fastidiosa, consumiu US$ 15 milhões e torna o Brasil o décimo quinto país do mundo -o primeiro do Hemisfério Sul - a dominar a genética molecular. "'Somos os primeiros a seqüenciar um organismo causador de doença em plantas. É, portanto, a maior conquista da ciência na história do Estado", disse o governador Mário Covas, ao anunciar, no Palácio dos Bandeirantes, em fevereiro último, a criação do prêmio Mérito Científico e Tecnológico, honraria conferida aos 35 laboratórios e 192 cientistas que integraram o projeto. A UNESP participou do projeto. ao lado de universidades públicas e privadas e institutos de pesquisa, com quatro laboratórios - dois na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV). em Jaboticabal, coordenados pelos docentes Jesus Aparecido Ferro e Eliana Lemos; e dois em Botucatu, um na Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), sob liderança de Antônio Carlos Maringoni e Eiko Eurya Kuramae Izioka, e outro no Instituto de Biociências (IB), coordenado por Catalina Romero Lopes. Ao todo, 35 pesquisadores da Universidade receberam, ainda em fevereiro, medalhas e diplomas, em cerimônia realizada na sala São Paulo do Complexo Cultural Júlio Prestes, em São Paulo, que contou com a apresentação da Orquestra Sinfônica do Estado. "É um prêmio que valoriza o salto que demos em capacitação para o domínio de técnicas biomoleculares". disse José Fernando Perez. diretor científico da Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) INSTITUTO VIRTUAL Para conseguir o seqüenciamento completo da Xylella, com rapidez e eficiência, a Fapesp. em parceria com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), reuniu pesquisadores de todo o Estado de São Paulo sob a sigla Onsa (Organização para Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos). 'É um instituto virtual, sem paredes, descentralizado e com uma infra-estrutura de pesquisa leve e flexível", define o coordenador do projeto Genoma Xylella, o biólogo inglês radicado no Brasil Andrew Simpson. Secretário da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, José Aníbal destacou a organização da Onsa, que se tornou um ponto de referência para realizar seqüenciamentos semelhantes. "A interação entre laboratórios mostrou como é possível reduzir a distância entre a pesquisa básica e a aplicada, pois o conhecimento obtido com o Genoma Xylella poderá, em breve, resultar numa forma de combate à praga do amarelinho, trazendo ganho econômico para o Estado e o País." Para o Secretário da Agricultura e do Abastecimento, João Carlos de Souza Meirelles, o Estado de São Paulo está mostrando ao mundo como é possível pesquisar objetivamente uma praga que reduz empregos e atravanca o desenvolvimento econômico. "Estamos formando núcleos de investigação por todo o Estado, como Campinas. Mogi das Cruzes, Botucatu e Jaboticabal", disse. A bioquímica Eliana Lemos, do Departamento de Tecnologia da FCAV, uma das premiadas com a Medalha Mérito Científico e Tecnológico, destaca que o Brasil, com o projeto Genoma Xylella, aumenta sua auto-estima e receberá reconhecimento internacional. "Também ganharemos muito com a capacitação de jovens pesquisadores em técnicas moleculares", diz. Colega de Departamento de Eliana. o bioquímico Jesus Aparecido Ferro afirma que o seqüenciamento da Xylella possibilitará entender como esta bactéria infecta a laranjeira e causa a ÇVC. "Conhecendo esse mecanismo, é possível desenvolver estratégias ou drogas que controlem a doença", afirma. Para a fitopatologista sanitária Eiko Eurya Kuramae Izioka, da FCA, além do conhecimento científico, o projeto Genoma exigiu de todos os participantes a disposição de trabalhar em conjunto, atingindo metas num constante esforço de equipe. "Durante as pesquisas, alunos de graduação, pós-graduação, pós-doutoramento, jovens pesquisadores e professores se integraram, sendo agentes multiplicadores de conhecimento com técnicas avançadas em genética molecular", afirmou. Ferro também lembra que a rede Onsa da Fapesp já está seqüenciando o genoma de uma outra bactéria que ataca os laranjais do Estudo de São Paulo, a Xanthonomas citri, causadora do cancro cítrico. "Há ainda o genoma da cana-de-açúcar e o do câncer humano. Estamos, portanto, colhendo os frutos do aprendizado biotecnológico que adquirimos com a Xylella." Quanto ao prêmio concedido pelo Governo estadual, Eiko manifesta que se sente gratificada como cientista. "Isso nos estimula a seguir em frente", afirma. "É a primeira vez que um trabalho científico recebe um reconhecimento desse porte", completa Ferro. PEQUENAS, DURAS E QUEIMADAS Assim ficam as laranjas atacadas pela clorose variegada dos citros. A CVC (clorose variegada dos citros) é uma doença causada pela bactéria Xyllella fastidiosa, que se multiplica e obstrui o xilema, conjunto de vasos responsáveis pela distribuição de água e nutrientes pela planta, provocando deficiência nutricional e sintomas como pequenas manchas amarelas nas folhas - daí o nome "amarelinho". Nos estágios mais avançados da doença, os frutos ficam pequenos, duros e queimados pelo sol, privados que são do alimento necessário devido aos vasos entupidos. A CVC foi identificada oficialmente em pomares do Triângulo Mineiro, norte e noroeste do Estado de São Paulo. Só em 1993 foi confirmado que a doença é causada pela bactéria Xylella fastidiosa, que é transmitida por pequenas cigarras que se alimentam do xilema da planta. Ao sugarem os vasos de árvores contaminadas, elas adquirem a bactéria e passam a transmiti-la para plantas sadias.