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Gazeta Mercantil

ONG Endeavor pede ajuda para criar empregos

Publicado em 25 maio 2004

Por Tânia Nogueira Alvares - de São Paulo
Vencer o preconceito é o maior desafio da ONG Endeavor, instituto de empreendedorismo que foge do padrão das organizações não-governamentais, normalmente envolvidas com o combate direto à pobreza e às desigualdades sociais. Seu foco de atuação é ajudar a desenvolver empresas com potencial de lucro futuro tão grande que atraia investidores interessados em multiplicar o dinheiro ali aplicado. "É difícil fazer com que as pessoas entendam a ligação direta que existe entre empreendedorismo e desenvolvimento social sustentável," diz Marília Rocca, diretora geral do Instituto Empreender Endeavor. Desde o início de maio, campanha assinada pela Talent tenta trazer esse conceito mais próximo do cidadão e de empreendedores e investidores. Júlio Ribeiro, presidente da agência de propaganda, é um dos membros do conselho de administração da Endeavor. o que significa que toda a campanha, da criação à veiculação, resultou de trabalho voluntário e gratuito de todos os participantes. Desde que foi fundado no Brasil, há quatro anos, o Endeavor ajudou a atrair investimentos para 32 empresas comandadas por 52 empreendedores. Os dados mais recentes, de 2002, indicam um valor total investido de R$ 83 milhões em 25 empresas de 12 setores. Essas empresas criaram 3 mil empregos diretos e obtiveram receita líquida de R$ 135 milhões, segundo Tânia Sztamfater, diretora de operações. Com os empregos indiretos. incluindo a expansão de franquias, o número de novos postos chegaria a 12 mil. Tânia afirma que é difícil explicar o efeito cascata de geração de emprego desses novos empreendimentos. "Parece óbvio para quem acompanha a área de negócios, mas para a maioria da sociedade ajudar empreendedores que têm como finalidade o lucro é algo que não faz sentido social." O instituto luta também para separar o joio do trigo. Existe o empreendedorismo de oportunidade — aquele em que uma pessoa identifica uma boa oportunidade de negócios — e o empreendedorismo de necessidade, no qual a pessoa acaba partindo para seu próprio negócio porque perdeu o emprego formal. O Endeavor procura iniciativas com ambições maiores do que resolver problemas individuais. Tanto que, para passar pelo processo seletivo do instituto e obter capital de risco, a empresa já deve estar funcionando, com receita mínima de RS 200 mil por ano. Criar postos de trabalho de maneira artificial é praticamente inviável hoje, diz Marília. O Endeavor se compromete a criar empregos que durem, por meio de empreendimentos que vão receber aconselhamento, educação e informação, além de recursos de investidores. Mais de 400 candidatos disputam, a cada semestre, a oportunidade de contar com o apoio desse grupo de voluntários, que é composto por uma equipe de atendimento de apenas 13 pessoas, mas que também tem o amparo de empresários-voluntários que vão ajudar a impulsionar seus negócios. Fazem parte desse time de excelência Carlos Alberto Sicupira (responsável pela abertura do Endeavor no Brasil) e Jorge Paulo Lemann, sócios da GP Investimentos; Pedro Moreira Salles, presidente do Unibanco; Paulo Cezar Aragão, sócio da Barbosa, Müssnich & Aragão Advogados, Peter Graber, diretor da Graber Sistemas de Segurança, Emílio Odebrecht, presidente do conselho de administração da Odebrecht S.A., é o mais novo membro. Além dos integrantes do conselho, executivos como Luiza Helena Trajano, diretora do Magazine Luiza, João Bosco Silva, presidente da AIcan, e Fernando Reinach, do Projeto Genoma, dão sua contribuição em workshops, teleconferências e mesmo em aconselhamento direto. O Endeavor tem três frentes de atuação. Além do processo de seleção e de educação para o empreendedorismo, faz a ponte entre o empreendedor e investidores, fundos de capital de risco, agências de fomento. No próximo dia 2 de junho, o instituto realiza, em Florianópolis (SC), a Conferência Empreender Endeavor, ocasião em que deve reunir todos esses participantes. Algumas empresas apoiadas pelo Endeavor e que se transformaram em cases de sucesso também irão expor seus cases. Como a nTime, fundada em 2000 por três universitários recém-graduados e que oferece soluções inovadoras para o mercado de celulares de infotainment (informação e entretenimento), entre outros softwares. Hoje a nTime tem 25 funcionários. Dos 52 empreendedores apoiados pelo Endeavor, apenas três são mulheres e há uma forte concentração na faixa etária de 30 a 45 anos. O perfil dos negócios vai desde nanotecnologia à agricultura orgânica. Há uma forte presença de iniciativas no setor de serviços. "Temos uma diversidade de perfis capaz de inspirar qualquer tipo de brasileiro a tomar a decisão de empreender," diz Mania. O Brasil é reconhecido como um país empreendedor. Segundo pesquisa realizada pela Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que mede o empreendedorismo em 31 países de todos os continentes, o Brasil ficou com a sexta colocação em 2003. A boa noticia é que está aumentando o percentual de abertura de negócios pela percepção de novas oportunidades em relação aos negócios abertos por necessidade. Em 2002, o País ficou em primeiro lugar em empreendedorismo por necessidade. Em 2003, o Brasil apresentou a terceira maior população empreendedora por oportunidade. Em 2002, o número de empreendedores foi estimado em 14 milhões. Em 2003, manteve-se estável, mas os empreendedores por necessidade caíram de 56% para 43% do total, enquanto os de oportunidade cresceram de 43% para 53%. Nos Estados Unidos, o empreendedorismo de oportunidade é responsável por 87% dos novos negócios. O estudo revela ainda que a maior dinâmica no Brasil está em pessoas com mais de onze anos de estudo, o que mostra que a taxa de oportunidade aumenta em função do número de anos de estudo. No Brasil, 70% dos empreendimentos são conduzidos por pessoas que têm renda mensal inferior a seis salários mínimos. "Só isso já evidencia que temos um empreendedorismo de necessidade", diz Tânia. Expansão da rede O Endeavor prepara sua estréia no mercado editorial, lança livro com a Editora Campus sobre sua experiência junto a empreendedores nos últimos quatro anos. "O livro vai discutir as boas e más práticas quando você empreende," diz Marília. A partir de 2005, novos títulos próprios vão engrossar o que classifica como a maior biblioteca sobre empreendedorismo do Brasil. São 900 títulos, que serão ampliados para 4 mil livros até o fim deste ano com a colaboração do Sebrae. Outro projeto de fôlego é a abertura de uma rede física em todo o País. A modelagem do processo de expansão está sendo desenvolvida pelo consultor Marcelo Cherto, especializado em redes de franquias e canais de distribuição. Este ano, a intenção é abrir uma unidade em um estado do Nordeste e outra no Sul. O instituto pretende atrair empresários locais que contribuam para o escritório regional. O orçamento anual da entidade, incluídas as doações em serviços e produtos, é superior a R$ 3,5 milhões, diz Tânia. Além da doação inicial de Sicupira, suficiente para garantir a sustentabilidade nos primeiros anos, cada conselheiro participa como pessoa física e doa US$ 33 mil por ano. Novo centro de formação O Sindicato da Micro e Pequena Indústria no Estado de São Paulo (Simpi) anunciou ontem, em São Bernardo do Campo, o lançamento da Universidade do Empreendedor, um centro de capacitação e formação de empresários e empreendedores nos setores da indústria, do comércio e de serviços. O projeto conta com o apoio de outras instituições fundadoras como a Universidade Metodista de São Paulo; UniFEI - Centro Universitário da Fundação Educacional Inaciana; Uniban - Universidade Bandeirante; Sindicato dos Metalúrgicos, do ABC; Agência de Desenvolvimento do Grande ABC; as unidades da Fiesp/Ciesp de São Bernardo do Campo e Associação Comercial local. Segundo Manila Rocca, diretora geral do Instituto Empreender Endeavor, nos últimos anos foram criados 350 cursos de empreendedorismo no Brasil. Nos Estados Unidos, mais de mil faculdades ministram cursos para a formação de empreendedores.