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Diário do Povo

ONDE O LEITOR ESTÁ

Publicado em 20 agosto 2000

Por ROSE GUGLIELMINETTI
"Ao ler um livro você viaja pelo mundo encantado das letras". Embora a frase seja conhecida pela maioria da população brasileira, nem sempre as pessoas têm o hábito ou a oportunidade de ler livros, revistas e jornais. A constatação foi feita em uma pesquisa realizada no primeiro semestre deste ano, em dois bairros periféricos de Campinas (jardins Ipaussurama e Capivari). O levantamento apontou que muitas pessoas querem ler, mas não o fazem por falta de condições financeiras. Algumas sequer têm dinheiro para pagar a passagem do ônibus para ir até uma das quatro bibliotecas públicas da cidade. Para tentar resolver esse problema, os responsáveis pela pesquisa remeteram os resultados do trabalho para a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O objetivo é levantar cerca de R$ 170 mil, que serão utilizados para estender a investigação a outros 80 bairros o comprar dois ônibus que serão transformados em bibliotecas itinerantes. Juntos, os veículos terão um acervo de 3 mil títulos, que será formado conforme a preferência dos leitores. Todos os dias, os veículos circularão pelos bairros, emprestando gratuitamente os livros, jornais e revistas. A pesquisadora Else Benetti Marques Valio, que também é professora do Instituto de Letras e da Faculdade de Biblioteconomia da PUC-Campinas, explicou que o levantamento foi feito junto a 32 pessoas (crianças, adolescentes, adultos e idosos). Os bairros foram escolhidos após uma pesquisa realizada junto às quatro bibliotecas públicas. O trabalho identificou quais eram os locais que tinham os menores índices de freqüência. Foram analisadas 400 fichas, que apontaram que moradores de diversos bairros jamais recorreram ao serviço. Desses, dois (Ipaussurama e Capivari) foram escolhidos para a aplicação dos questionários. Foram entrevistadas 32 pessoas. Para a pesquisadora, o dado mais impressionante é que 73% das pessoas declararam que querem ler, mas não o fazem porque não têm bibliotecas próximas de suas residências. "Elas têm vontade de ler, mas o acesso é muito difícil", afirmou Else. Além disso, a investigação apontou que pelo menos 59% dos entrevistados afirmaram que nunca foram até uma biblioteca. "Isso reforça a importância de instalar bibliotecas nos bairros periféricos com acervos adequados", disse. Ainda segundo a pesquisa, 88% das pessoas ouvidas mostraram um forte interesse em ter uma biblioteca no bairro onde moram. A aposentada Maria de Lourdes Moreno Viscoli, residente no Jardim Ipaussurama, disse que nunca foi a uma biblioteca por causa da distância. "Muitas vezes quero levar meu neto, mas fica muito caro para os dois irem", afirmou. A pesquisadora acredita a adoção dos ônibus-bibliotecas facilitarão o acesso dessas pessoas à leitura. "Iremos desenvolver um trabalho pedagógico. Se a pessoa gosta de culinária, que leia sobre isso. Não queremos que comece com Machado de Assis e outros clássicos. Queremos que ela aprenda a gostar de ler", disse. INÍCIO EM 2001 Inicialmente, as bibliotecas itinerantes devem funcionar por apenas dois anos, período em que a Fepesp deverá financiar o projeto. Os ônibus começam a circular no começo do ano que vem, nos 80 bairros que serão objeto da segunda fase da pesquisa. A contrapartida para que o projeto tenha continuidade deverá ser feita pela Prefeitura de Campinas. O Poder Público terá que colocar funcionários para trabalhar nos ônibus e instalar bibliotecas fixas nos bairros. "Sempre quis implantar um projeto como este na cidade. Nós já estamos trabalhando em parceira com as pesquisadoras e iremos disponibilizar um bibliotecário da Prefeitura para trabalhar nos ônibus" afirmou Gláucia Pécora Mollo, coordenada das Bibliotecas Públicas de Campinas.