Notícia

Jornal da Unesp

Onde está o estigma?

Publicado em 01 junho 1999

Por José Menani / Laurival de Luca Jr.
Os professores José Menani e Laurival De Luca Jr. comentam artigo do pró-reitor de Extensão Universitária e Assuntos Comunitários, Edmundo José De Lucca. Mais embaixo, a tréplica do pró-reitor. Gostaríamos de tecer alguns comentários sobre a reflexão feita pelo professor Edmundo José de Lucca, pró-reitor de Extensão Universitária e Assuntos Comunitários da UNESP, na edição de março, n-133, deste jornal, sob o titulo Recortes de cartolina. A maior parte do artigo constitui-se de afirmativas que requerem maior análise para uma reflexão frutífera. Qual a freqüência na área biológica do procedimento utilizado para se delinear pesquisas, conforme descrito no artigo? Seja qual for a freqüência, por que este proceder empobrece a "missão da universidade"? Subentende-se que o delineamento de pesquisa, tal como descrito, não está vinculado à realidade brasileira. Isto é estranho, porque sugere que os problemas básicos da Biologia existem em função de nacionalidades. Se Darwin e Wallace tivessem apenas a Inglaterra do século XIX em mente, é bem provável que eles não teriam obtido evidências para a teoria da seleção natural, que permite a compreensão da evolução dos seres vivos. A mesma coisa teria acontecido para a compreensão da transmissão do impulso nervoso se J.Z. Young não estivesse interessado em cérebros de lulas. E por que não dizer da descoberta da bradicinina, importante para reações inflamatórias e muitas outras, por Rocha e Silva e Beraldo, cientistas brasileiros? O delineamento de pesquisa, tal como ilustrado no artigo, não diminui o valor da pesquisa, mas sem dúvida não é tudo, se por uma das missões da universidade entendermos produzir ciência. Muitas pesquisas se originam da observação de fenômenos e de perguntas que surgem como conseqüência. Somente depois é que se faz um levantamento bibliográfico para nortear a pesquisa, evitando-se a duplicação do que já foi feito sobre o tema. No quinto parágrafo do artigo, diz-se que "nas universidades brasileiras, e a UNESP não foge à regra, pesquisas não estribadas em problemas colocados pela sociedade nem destinadas ao enfrentamento dos mesmos são produzidas em percentagem preocupante". Qual é a porcentagem de pesquisas da UNESP irrelevantes para a sociedade brasileira e por que é ela preocupante? Esta pergunta nos leva necessariamente a outras: o que o dr. De Lucca entende por pesquisa sobre "problemas não colocados pela sociedade"? Em outras palavras, existe algum estudo que permita classificar inequivocamente as pesquisas da UNESP segundo o grau de relevância para a sociedade? Se existe, quais são os parâmetros de relevância? À falta de uma definição a estas perguntas, fica impossível sintonizar qualquer projeto de pesquisa com a preocupação levantada. Além disso, restringir a missão da universidade aos problemas levantados pela sociedade é tomá-la apenas por uma prestadora de serviços. A universidade, por ter como uma de suas funções precípuas ampliar as fronteiras do saber, deve não apenas responder aos problemas da sociedade, mas também descobrir e indicar à sociedade quais são os problemas e quais os caminhos novos a serem seguidos. Ou seja, combinar pesquisa com ensino. É isto que coloca a universidade na vanguarda da sociedade. É isto que constitui a sua essência e a define. Este é o seu atributo e seu dever. O conteúdo do 8º e 9º parágrafos do artigo é surpreendente. Lá, diz-se que "Referentes à Extensão Universitária, são ainda incomuns as atividades desenvolvidas por universidades brasileiras com fundamento em prioridades institucionais preconcebidas e projetos de forte conteúdo acadêmico-social e de sentido de longo prazo". E mais: "Na UNESP, consoante o estabelecido no 'Plano de Gestão UNESP/ 1997-2000', vem sendo implementada uma política que tem por finalidade a institucionalização e a valorização das atividades de extensão (...)." Afinal, a UNESP já exerce há muito tempo atividades de extensão de indiscutível importância para a comunidade. Senão, como entender os projetos de apoio ao 2°grau e atividades sociais, as atividades clínicas, as consultorias nas mais diversas áreas e muitos outros? Tomando exemplos gritantes na área biológica, qual é o setor da sociedade que considera o atendimento odontológico, médico e veterinário prestados pela UNESP como serviços acadêmicos e sociais irrelevantes? Onde está o estigma? Que as atividades de extensão devam ter caráter acadêmico e de pesquisa não é novidade do Plano de Gestão UNESP/ 1997-2000. Não poderia ser de outra forma. A extensão desalijada do ensino e da pesquisa seria o passo definitivo para tornar a universidade apenas uma prestadora de serviços. Esta seria a maior ameaça à missão da universidade. Laurival A. De Luca Jr. é professor adjunto de Fisiologia da Faculdade de Odontologia do câmpus de Araraquara. José V. Menani é professor titular de Fisiologia na mesma faculdade. Qualidade e compromisso Edmundo José de Lucca 1. Nos últimos tempos, são cada vez maiores as exigências colocadas pela sociedade à universidade. Face a estas exigências, compartilho a perspectiva de que a universidade pode e deve combinar o máximo de qualidade acadêmica com o máximo de compromisso social. 2. Conforme lembra o prof. Brito Cruz, presidente da Fapesp, no Brasil 9 mil cientistas encontram-se nas indústrias, 60 mil nas universidades e 12 mil nos institutos de pesquisa. Esta particular situação reserva à universidade brasileira importante papel no desenvolvimento do País. 3. A Fapesp, que antes destinava seus recursos financeiros exclusivamente à formação de recursos humanos, atua hoje, também, para estreitar as relações do Sistema Estadual de Pesquisa com a sociedade em geral, mediante Programas e Projetos à conta dos quais, ainda que não sendo decorrentes de investigação desinteressada ou descomprometida, é feita ciência do mais alto nível, sintonizada com a realidade nacional. Exemplo desta atuação na área biológica: o Programa Genoma, que compreende o seqüenciamento da Xylella fastidiosa, os Projetos Genoma-Câncer e Genoma-Cana, além de vários Projetos Temáticos. 4. Propugno por uma maior participação da UNESP nestas iniciativas da Fapesp e outras de igual natureza, de interesse científico-tecnológico, direcionadas à solução de problemas da sociedade brasileira, como o Programa de Políticas Públicas. 5. É preciso reconhecer, vários são os entendimentos sobre o que é extensão universitária. Alguns a identificam com a prestação de serviços. Outros, consideram que fazer extensão significa ministrar cursos de reciclagem ou complementação profissional. Isto para não falar do difundido entendimento de que extensão universitária significa "estender o conhecimento da universidade para fora de seus muros". Tudo isso é extensão universitária, mas extensão universitária é mais que tudo isso. 6. Por esta concepção, a atividade de extensão universitária só tem sentido se, prioritariamente: gerar novos conhecimentos ou retroalimentar os já existentes; contribuir com novas condições formadoras para os alunos, intra e extra-muros, e com a atualização dos programas das disciplinas e/ou renovação de currículos de cursos. 7. A UNESP desenvolve inúmeras atividades de extensão de indiscutível importância para a sociedade, e o artigo Recortes de Cartolina não afirma o contrário. Edmundo José De Lucca é pró-reitor de Extensão Universitária e Assuntos Comunitários da UNESP.