Notícia

Revista Kalunga

Ondas curtas, médias e infinitas

Publicado em 01 novembro 2018

ERA 7 DE SETEMBRO DE 1922. quando o então presidente da República, Epitácio Pessoa. Fez um pronunciamento veiculado por 80 alto-falantes, no que seria a primeira transmissão radiofônica nacional. Isso é fato. O que não se sabe exatamente até hoje é quem real mente inventou o rádio e nem a data em que se comemora o Dia do Radialista no Brasil. A exemplo do avião. em que existe uma disputa entre brasileiros e norte-americanos, no caso do rádio, o padre Ro berto Landell de Moura concorre com o italiano Guglielmo Marconi.

Autor do livro Quem inventou o ródío, César Augusto dos Santos explica que Marconi patenteou somente a transmissão-recepção eletrônica por centelhamento dos sinais telegráficos em código Morse. Já Landell de Moura patenteou no Brasil um sistema fotónico- eletrónico. "Foram dois experimentos distintos, embora tivessem semelhanças ev1dentes. O fato é que foram decisivos. cada um à sua maneira. Aliás. é válido dizer que a rádio, como conhecemos hoje, só é possível graças às contribuições de ambos: concluiu o pesquisador. em entrevista para a Agência Fapesp.

Quanto à data oficial em que se comemora o Dia do Radialista, há duas. Em 21 de setembro de 1943, o então presidente Getúlio Vargas sancionou uma lei em que fixava uma remuneração mínima para os profissionais da categoria. Conta-se que, neste dia. todas as em isso ras do Rio de Janeiro silenciaram e os radialistas foram às ruas partici· par de um churrasco com gincanas e corridas de calhambeques. Em julho de 2006, foi sancionada uma lei federal que oficializou o dia 7 de novembro como a data dessa categoria profissional. E uma homenagem ao músico e radialista Ary Barroso. que aniversariava nesse dia.

Dia a dia Controvérsias à parte, uma certeza é incontestável: o rádio sempre fascinou e ainda fascina os brasileiros. Um estudo da Federação Internacional da Indústria Fonográfica, divulgado em outubro, revelou que 89% dos brasileiros ouvem rádio. Isso significa que esse meio de comunicação ainda faz parte do dia a dia de muita gente e influencia inúmeras histórias de vida Brasil afora. Uma dessas histórias é a de Fausto Silva Neto, consultor de comunicação em Rádio e TV, crítico de arte e integrante do júri de rádio pela APCA (AssoCiação Paulista dos Críticos de Arte). conhecido como Faustinho. "Eu cresci ouvindo rádio numa época em que só havia rádio AM Existiam duas rádios AM voltadas ao público jovem, a Difusora e a Excelsior. Me lembro de sair da escola, chegar em casa e ir fazer lição ouvindo meu radinho~ A partir de todas essas vivências, Fauslinho conta que criou um carinho muito grande pelo meio. mas não tinha ideia de que um dia chegaria a fazer parte desse mundo, e trabalhar em rádio. E bota trabalhar nisso: começou em 1991, na Rádio Transamérica, onde ficou durante quatro anos. Depois disso, passou por diversas outras emissoras. como a extinta Rádio Cidade, Rádio 89, Jovem Pan FM, Rádio Nativa, Rádio Metropolitana e a Rádio Imprensa, entre outras.

De Michael Jackson a Hebe Camargo

UMA DAS CARACTERÍSTICAS MAIS MARCANTES do universo do rádio são suas histórias e personagens; entrevistados, ouvintes e fatos curiosos que acontecem nos bastidores. Pedimos para Fausto Silva Neto, consultor de comunicação em Rádio e TY. o Faustinho, contar algumas situações que viveu nas rádios: sintonizem bem suas antenas e confiram. "Em 1993. eu cobri o show do Michael Jackson, pois a rádio em que trabalhava estava em primeiro lugar na audiência e tinha exclusMdade no evento. Foi meu primeiro show dando flashes e. por mais que a rádio tivesse exclusividade, eu só tinha acesso até o palco. De tanto ficar ali, fiz amizade com o segurança, que estava acompanhando tudo e se divertindo com o meu trabalho, e ele me deixou entrar no bockscage. Conheci o pessoal que cuidava da comida do Michael e, mesmo com todo o esquema de segurança, consegui chegar à porta do camarim do Rei do Pop~ Ele coma que foi andando e narrando o trajeto e isso levou os ouvintes ao delírio, pois o rádio tem essa magia de conseguir transmitir o que o profissional está vivendo, sem precisar mostrar imagens.

Acabei conhecendo o maitre que serviria o astro, ele entrou ao vivo comigo e contou aos ouvintes que a cozinheira responsável pela alimentação do cantor e de sua equipe era brasileira e acompanhava o Michael Jackson pelo mundo afora~ relata. Para completar, ainda conseguiu descolar uma refeição cinco estrelas e narrou isso ao vivo: foi a primeira vez que comeu caviar. Outra passagem interessante foi quando Faustinho entrevistou o cantor e fcone dos anos 1980, Boy George: "Ele se mostrou muito simpático e bem-humorado, além de gentil, pois o papo foi tão longe que terminei contando algumas coisas da minha vida. Eu tinha acabado de me tornar pai e disse isso a ele. Na hora, ele perguntou o nome do meu filho, pegou um pôs ter da turnê, autografou e fez uma dedicatória cheia de afeto para ele. Isso foi muito legal, a gentileza do artista me marcou bastante.· Já imaginaram que felicidade fazer a nossa saudosa Hebe Camargo gargalhar?

Faustinho conseguiu. "Eu trabalhava na Rádio Jovem Pan, como produtor musical e de rede. Uma vez, eu estava brincando com meus colegas quando o Emrlio Surita me ouviu fazendo imitações, gostou e me convidou para fazer parte do programa Pânico: Como a área de moda estava em alra no cenário brasileiro, Surita sugeriu que ele fizesse um personagem estilista de moda, e o batizou com o infame nome de Paulo Tasca pica. "Um dia, aconteceu um fato incrível: a Hebe, que nunca ia a programas de rádio, aceitou comparecer ao Pânico. Quando me apresentaram a ela no ar, a Hebe teve um ataque de riso! Ela ria mui to, e eu t1ve que me conter para não rir também. Me abraçava e ria: 'Tasca pica?' e gargalhava. Sugeriram que ela desse um prêmio para os ouv1ntes, divertida e maravilhosa como era, autografou uma folha sul fite, tirou seus cmos postiços e os colou no papel. Foi um dia que guardo no coração: detalha o comunicador.