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Banco Hoje

Onda verde exige uso racional do solo e maior produtividade

Publicado em 01 agosto 2008

Alimentos, energia e florestas disputam espaço

 

Alimentos, energia e oxigênio, com suas exigências crescentes, vão disputar as terras rurais brasileiras na medida em que sejam mais fortes as demandas do mercado mundial. Esta é uma grande oportunidade do Brasil se tornar uma potência de importância estratégica, mas é também um grande desafio, pois as terras necessárias para saciar a fome mundial e as exigências de energia devem ser atendidas sem prejuízo o das florestas brasileiras, que já foram muito devastadas nos anos recentes.

Esta equação tem somente uma saída: A elevação da produtividade da produção vegetal, que pode usar muito menos terras do que atualmente, com substancial elevação da produção. O nome do desafio é "produtividade", e este desafio somente pode ser resolvido através de pesquisas bem feitas.

Desatar o nó deste problema é do interesse do país com um todo e, especialmente, da área econômica, que anseia aproveitar as novas avenidas que o destino colocou diante do Brasil. Os dirigentes das empresas e bancos brasileiros sabem que as oportunidades generosas do futuro dependem da boa solução deste desafio.

É o que se deduz do debate que BANCO HOJE promoveu com a participação de cientistas envolvidos  em pesquisas relativas à produtividade da cana-de-açúcar, que se tornou a chave para a produção de etanol, e sob a coordenação do Diretor Científico da FAPESP  e ex-reitor da Unicamp  Carlos Henrique de Brito Cruz.  Este debate é um projeto do professor Gabriel Marão, estudioso das alternativas que o Brasil tem para aproveitar as oportunidades no caminho do futuro.

O potencial brasileiro é enorme: Temos condições favoráveis ao plantio de um vegetal igualmente favorável, cujo rendimento pode ser máximo, desde que se saiba fazê-lo.  Devemos estudar o aproveitamento dos dois terços de celulose da cana-de-açúcar.

Mas as questões não param por aí. É fundamental que saibamos a área ideal a ser usada para o plantio, a fim de que não sejam tomados os locais de plantações destinadas ao consumo, consideradas como prioritárias.

A solução para estas questões está dividida entre as ações e regulamentos do Estado brasileiro e pesquisas científicas sobre a quebra da celulose e o nível de contribuição do biocombustível para o efeito estufa, por exemplo.

A reunião foi realizada no Hotel Cadoro.

Participantes:

1.   Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP

2.   Gabriel Marão, presidente da PERCEPTION e Coordenador do debate

3.   Luciano Tavares de Almeida, secretário Adjunto de Desenvolvimento de SP

4.   Francisco Baccaro Nigro, coordenador de projetos estratégicos da Secr.Desenv. SP

5.   Vadson Bastos do Carmo, assessor de Tecnologia e Desenvolvimento da DEDINI

6.   André Meloni Nassar, diretor Geral do Ícone - Instituto de Comercio Internac.

7.   Marcos Buckeridge, Instituto de Biociências da USP

8.   Fernando Costa, presidente da UNIESP - União das Instit. Educacionais do Est SP

9.   Glaucia Souza, Coordenadora do Projeto Genoma da Cana-de-açúcar, da USP

10. Jaime Finguerut, gerente de Desenvolvimento Estratégico do Centro de Tecnologia Canavieira

11. Carlos Américo Pacheco, professor da UNICAMP

12. Monica Teixeira, Diretora da Inovação UNICAMP

 

O etanol é hoje uma pauta mundial

Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da FAPESP

O Brasil provou ao mundo a possibilidade de produção de biocombustível em grandes quantidades num país industrializado, e agora o etanol é pauta mundial. E, com todos os olhares voltados sobre ele, como o país pode aproveitar o seu potencial de fabricação de biocombustível a partir da cana-de-açúcar, usando toda a experiência já adquirida e desenvolvendo uma tecnologia alternativa de produção de etanol? Afinal, não faz sentido limitar-se ao uso da sacarose, sabendo que ela corresponde apenas a um terço da cana-de-açúcar.

Foi justamente essa tal “tecnologia alternativa” que animou os Estados Unidos, que enxergaram a possibilidade de uso futuro da celulose como material básico na obtenção de um competidor para o petróleo. E os dois terços restantes da composição da cana-de-açúcar são exatamente celulose.

O potencial brasileiro, portanto, é enorme: temos condições favoráveis ao plantio de um vegetal igualmente favorável, cujo rendimento pode ser máximo, desde que se saiba fazê-lo devemos estudar o aproveitamento dos dois terços de celulose da cana-de-açúcar.

Mas as questões não param por aí. É fundamental que saibamos a área ideal a ser usada para o plantio, a fim de que não sejam tomados os locais de plantações destinadas ao consumo consideradas como prioritárias.

A solução para estas questões está dividida entre as ações e regulamentos do Estado brasileiro e pesquisas científicas sobre a quebra da celulose e o nível de contribuição do biocombustível para o efeito estufa, por exemplo.

 

A competição entre energia, alimentos, e florestas

André Meloni Nassar, diretor geral do Ìcone

O Ícone é um instituto privado que faz estudos em comércio, agricultura e, cada vez mais, em meio-ambiente. É suportado, basicamente, pelos diferentes setores da agricultura brasileira e por organismos internacionais.

Sua principal preocupação é saber quanto de área a agricultura brasileira vai precisar para atender à demanda mundial: à importação crescente da China, Índia e Europa, aliada à escassez de terras e água, constitui uma oportunidade de crescimento do Brasil através do fornecimento de alimentos e bioenergia ao mundo.

Mas o que isso significa em termos de área plantada no Brasil e competição entre culturas diferentes? Nós, do Ícone, temos o objetivo de entender estas questões, numa abordagem econômica.

Algumas conclusões as quais já chegamos é que o Brasil precisaria incorporar à agricultura em torno de 10 milhões de hectares, nos próximos 10 anos, para atender à demanda mundial. Isso significaria o crescimento do nosso país no mercado mundial, tendo em vista que os Estados Unidos não conseguirão crescer muito mais, já que o crescimento norte-americano se dá em cima da produtividade, enquanto o brasileiro é uma mescla de ambos.

Não sabemos, no entanto, se os 10 milhões de hectares serão conseguidos através da incorporação de novas áreas com o desmatamento ou substituição de pastos. Mas, certamente, boa parte da área deverá ser obtida através do desmatamento.  A EMBRAPA, contudo, utilizando o monitoramento por satélite, chegou à conclusão de que, para respeitar as leis ambientais de reserva legal e área de preservação permanente, a agricultura brasileira deveria, na verdade, plantar florestas.

Ou seja, enquanto eu digo que precisamos de mais 10 milhões de hectares, o Evaristo, da EMBRAPA, diz que a agricultura está devendo área em relação à legislação ambiental brasileira.

É preciso saber ao certo o quanto de terra disponível temos no Brasil, tendo em vista o quanto de pasto pode ser convertido para a agricultura, porque não faz sentido pensarmos em um crescimento a partir do congelamento da área agricultável do país.

Obviamente, não será a cana-de-açúcar a grande responsável por isso, já que demandará apenas um entorno de 2 a 3 milhões de crescimento. Mas outros produtos, como a soja e o milho, certamente precisarão de um espaço muito maior.

O grande desafio é entender a real capacidade brasileira de expandir a cultura da cana, de alimentos e, ao mesmo tempo, não cair no dilema de que “o Brasil não é sustentável”. É necessário, então começar a flexibilizar a legislação ambiental brasileira, não deixando de pensar se tudo isto faz sentido.

Carlos Henrique Brito Cruz 

Diretor científico da FAPESP

Atualmente, 2% de toda a área agricultável do Brasil é utilizada na plantação de cana, estando a produção dividida entre o açúcar e o álcool. E mesmo com apenas 1% destinado ao combustível, nós somos o maior produtor de álcool do mundo, junto aos Estados Unidos.

Para triplicarmos a produção, poderíamos usar três, dos 43%, da área agricultável brasileira formada por pastagens degradadas. Mas, se por um lado parece que existe muito espaço disponível, pelo outro é como se não houvesse nenhum, e essa é a contradição que precisa ser resolvida.

 

Alternativas para melhorar a produtividade da cana

Glaucia Souza, coordenadora do Projeto Genoma da Cana-de-açúcar

O grupo de genômica da cana-de-açúcar, o qual coordeno desde 2004, tem o objetivo de identificar maneiras de melhorar a cana através do uso de ferramentas de biotecnologia. E, quanto ao aumento da área plantada, pesquisamos a ampliação da produtividade da cana nos locais onde ela já é plantada.

Em São Paulo, por exemplo, onde acrescer a área utilizada para o plantio não é uma opção, uma das alternativas é aumentar o teor de sacarose da planta.

Há dois séculos, programas de melhoramento modificam a cana e, apesar desta melhora ser crucial, é também demorada, embora feita por programas como o CTC, CanaVialis e Ridesa. E, com a biotecnologia e ferramentas da genômica, nosso grupo seqüenciou o genoma expresso da cana e identificou genes capazes de apressar o processo.

A expansão da cultura da cana vem acontecendo para áreas de pouca disponibilidade de água, como o Centro-Oeste, o que nos faz precisar de variedades da planta tolerantes à seca, e imaginando que se tenha, no futuro, etanol-celulose economicamente viável, desejamos aumentar o teor de fibras da planta, juntamente a uma parede melhorada, visto o seu uso para a produção do etanol a partir do bagaço.

Essa necessidade aparente de aumentar a área plantada é reflexo da limitação das tecnologias existentes, cujo objetivo é o crescimento do plantio.

A alternativa são as pesquisas com fins de acelerar o melhoramento da cana, seja por transgenia ou desenvolvimento de marcadores moleculares para a melhora clássica. Deve ser levada em consideração, também, a possibilidade de avaliar a planta nutricionalmente, o que viabilizaria a adequação da quantidade de minerais providos em cada região a que a cana está se expandindo, aumentando a produtividade em até 50%.

 

Produtividade da cana pode chegar ao dobro da atual

André Meloni Nassar

A produtividade é, realmente, muito importante. E, infelizmente, os dois séculos de história de melhoramento da cana não significam que ele tenha atingido o seu auge. Enquanto aquela plantada no Nordeste tem a produtividade de 60 toneladas por hectare, a de São Paulo pode chegar ao dobro desse valor. Portanto, encontrar uma maneira de incrementar a eficiência da planta certamente tornará o uso da área também mais eficiente.

A dificuldade é que tudo isto requer que a planta faça coisas que não são da sua natureza. Para extrair a celulose de forma mais fácil, por exemplo, modifica-se a célula da planta para que esta seja mais fácil de ser “quebrada”, e esquece-se de que toda a complexidade desta célula é um mecanismo de defesa contra possíveis danos externos. Tudo isto deve ser equilibrado.

Glaucia Souza

coordenadora do Projeto Genoma da Cana-de-açúcar

Claro que existem todos esse complicadores, mas é uma ambição que tem potencial. Na Bahia, onde a temperatura é adequada, existem plantas que medem 12 metros e, portanto, não se mantêm eretas. E por mais que a colheita fique complicada e seja necessário que os engenheiros entrem em cena para adequá-la, existe, sim, a possibilidade de torná-la mais produtiva.

 

Melhorar produtividade da cana é sustentabilidade pura

André Meloni Nassar

Tanto o mercado de comida quanto o de combustível são gigantes. Sem dúvida, se conseguíssemos mostrar que o ganho de produção do Brasil se dá, sobretudo, em cima da produtividade, e não do aumento de área, faríamos um bem tremendo ao etanol brasileiro. Seria sustentabilidade pura. Não haveria a temida competição com os alimentos, o que é um ponto fundamental.

 

Mais pesquisa, em vez de aumentar a área plantada

Marcos Silveira Buckeridge, Instituto de Biociências da USP

Desde 1999, trabalho com as respostas de plantas às mudanças climáticas globais, e somos os pioneiros a fazer isto no Brasil, em fisiologia vegetal, para entender como a flora brasileira vai responder à diminuição ou excesso de água no ambiente.

Quanto ao etanol-celulose, participo do Bioem, cujo um dos feitos foi expor a cana-de-açúcar, durante um ano, a uma atmosfera com o dobro do gás carbônico condição avaliada para 2050. Através da pesquisa, constatamos que, submetida a uma alta concentração de gás carbônico, a “massa seca” da cana aumenta em cerca de 60%.

A cana-de-açúcar é uma planta C4, ou seja, sua fotossíntese é mais eficiente que a das demais. Ela tem uma espécie de bomba bioquímica que aumenta, em cerca de mil vezes, a concentração de gás carbônico da folha, fazendo com que o carbono flua pela planta com uma competência maior. E não pára por aí: Sua eficiência aumenta ainda mais se atrelada às condições previstas para 2050. Isso, porque uma das características das plantas C4 é a constância de sua fotossíntese, independente da temperatura a qual estão submetidas.

Isto deve ser considerado nas ponderações quanto à produtividade. Se os custos para o deslocamento da produção não forem evitados, a produtividade crescerá. Portanto, basta aproveitarmos as mudanças climáticas, que são irreversíveis  já não se fala mais em mitigação (evitar a emissão de gases), mas em adaptação. Isso, porque, dentro do modelo de vida em que vivemos, já não é possível deixar de emitir gases. E, aumentar a produtividade ao seu limite, faz parte dessa adaptação.

Se fizermos os cálculos secos, ou seja, sem pensar em outras coisas, é capaz de conseguirmos um aumento de produtividade de 4 a 5 vezes maior que a atual.

Em vez de aumentar a área plantada, devemos diminuí-la, reintroduzindo florestas. E a FAPESP, nos últimos 10 anos, desenvolveu ótimos projetos de regeneração de florestas. Existe uma série de espécies nativas capazes de servirem para a produção de etanol. O Brasil deve mostrar ao mundo que pode passar do estágio de Homo-sapiens para o de “Homo-abientalis”, e fazer uma bioenergia baseada no ambiente ao qual se insere o homem, sem deixar de pensar nas gerações futuras.

 

Jaime Finguerut, gerente de Desenvolvimento Estratégico do Centro de Tecnologia Canavieira

Minha contribuição para o debate talvez seja a capacidade de nos inserir em um contexto: Um Brasil bicampeão mundial em álcool, bancos, exportação de carne, frango, café, tabaco e laranja, dentre tantos outros. Tudo isso não é por acaso. Temos um contexto que nos faz estar nessa colocação.

A cana-de-açúcar sempre foi muito pequena, quase não-competidora com outras culturas. Um bom exemplo disto é a criação de idéias como a de “usineiros”, mais conhecidos até que a própria planta. Nossa agricultura de cana é baseada no conhecimento, em usinas existentes há mais de 60 anos. Essa “agricultura do conhecimento” é, basicamente, a sobrevivência das pessoas que trabalham com ela.

Desde a sua fundação, o Brasil sempre foi um grande exportador de açúcar, o que faz da cultura da cana como produto de exportação um negócio de longo prazo ao contrário da soja, a qual o país começou a produzir de forma não-sustentável.

Talvez a nossa maior oportunidade, nos últimos tempos, seja a de mostrar que o álcool, ou seja, a energia da biomassa é perfeitamente viável. Nem mesmo os Estados Unidos, que aplicam milhões de dólares em pesquisa, não têm o nosso modelo de funcionamento, que é virtuoso não pro acaso ou somente graças ao Pró-Álcool, mas pelo sistema agro-industrial que realmente funciona. Esse é o nosso contexto.

 

Carlos Pacheco, professor da UNICAMP

Uma das coisas mais interessantes feitas pelo o Ícone foi o mapeamento do que é o mercado mundial para o etanol proveniente da cana-de-açúcar que, na verdade, ninguém sabe qual é. O mercado de combustíveis não é livre, depende das políticas nacionais compulsórias de mistura.

É claro que há a capacidade de fazer um bom trabalho identificando a área, mas existem uns trabalhos antigos da EMBRAPA bastante sensacionalistas. Ela, como um todo, tem feito um macro-zoneamento para cana-de-açúcar no Brasil.

É evidente que nem toda área é apta ao cultivo de cana, mas o cenário brasileiro é certamente mais positivo que o mostrado pela EMBRAPA. Temos 180 milhões de hectares utilizados para pastagens, e um pouco mais 60 para a agricultura, dos quais sete milhões são ocupados pelo cultivo da cana.

Além disso, o rendimento do álcool, de 1975 a 2005, triplicou. Portanto, é muito complicada a utilização da idéia de que devemos flexibilizar a legislação ambiental brasileira. Existe um problema complicado na implantação da política sobre reserva legal, mas a regulamentação do dia-a-dia, sobretudo da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo, progrediu bastante nos últimos anos. Nós temos um conjunto de normas, regras, práticas e manejos bastante razoáveis, visto o que o resto do mundo faz na área ambiental.

 

André Meloni Nassar

A flexibilização não é para diminuir a área de reserva ambiental, mas para não termos que compensar unicamente na propriedade. Precisamos encontrar formas mais engenhosas de fazer essa ação em outros lugares. E é claro que áreas de preservação permanente, como matas ciliares e regiões de declive, são indiscutíveis.

 

Francisco Emilio Baccaro Nigro

coordenador de projetos estratégicos da Secretaria de Desenvolvimento de SP

Se convencermos os europeus e norte-americanos a importarem nosso etanol, a demanda pelo biocombustível será infinitamente elástica. A indústria automotiva é global e, em 98% do que faz, utiliza diesel e petróleo. Com a adoção do etanol pelos Estados Unidos como um provável substituto para a gasolina, talvez consigamos fazer com que o biocombustível atinja o status de combustível renovável substituto em escala global.

Devemos ficar atentos à existência de esforços parecidos voltados a outros derivados de biomassa mais semelhantes à gasolina, como o isobutanol. Um fabricante de veículos, por exemplo, cuja tecnologia atual funciona à base de gasolina, será mais atraído por este tipo, o que pode ser um grande desafio para o etanol.

Quanto ao biodiesel, no entanto, a competitividade de preço e a produtividade agrícola o colocam numa situação muito mais crítica que a do etanol. Mas, além disto, substitutos do biodiesel, como o Hbio, da Petrobrás, utiliza o óleo vegetal na produção de diesel, perfeitamente compatível com os motores. Logo, a possibilidade de o combustível de segunda geração prejudicar o biodiesel é muito maior que prejudicar o etanol.

Enquanto o Brasil não achar uma variedade agrícola produtora de óleo que não compita com as culturas anuais, ou seja, que não requerem terras com regime hídrico mais adequado, por exemplo, não teremos competitividade. E, por mais que tenhamos o dendê, o seu uso provocaria o intenso desmatamento da Amazônia, devido às suas exigências climáticas e hídricas.

 

O que temos hoje é um fato não mais uma oportunidade

Luciano Santos Tavares de Almeida, secretário adjunto da Secretaria de Desenvolvimento de SP

O que temos, atualmente, já deixou de ser uma oportunidade; hoje, é um fato. Mas ainda podemos perder esse momento e, por isso, devemos ficar atentos. O mundo não quer ter a mesma relação com o Brasil como teve com a OPEP, por tantos anos, nessa questão energética. Por isso, todos estão buscando alternativas, com o combustível de segunda geração.

E talvez essa oportunidade não seja infinita. No máximo em vinte anos, a evolução dos carros elétricos talvez faça com que a demanda diminua pela metade. Quando há o interesse principalmente das empresas montadoras, o processo evolui rapidamente.

O nosso verdadeiro desafio é nos manter à frente desse desenvolvimento, sobretudo nas pesquisas, e aproveitar todos os produtos que a cana-de-açúcar é capaz de gerar.

Um trabalho recente muito importante é o da Comissão de Energia, capitaneado pelo professor Goldenberg, se encerrou com seis ações fundamentais, definidas como ações do Governo do Estado: A primeira é o zoneamento agrícola, que visa identificar a expansão da cana-de-açúcar em São Paulo, sem que o Estado perca sua posição de maior produtor.

A segunda é a questão da pesquisa, quanto a como fazê-la e aproveitá-la. A terceira é a questão logística do etanol: Para mantermos a nossa competitividade, foi criado um grupo de trabalho para o estudo de uma rede paulista de dutos e de todo um sistema logístico que integre hidrovias. Até Outubro, o grupo vai lançar um projeto referente a esta questão.

A questão da qualificação é outro ponto a ser citado. IPT e Inmetro, juntos, cuidam da parte de certificação e material de referência. Outro tipo também importantíssimo de qualificação é a profissional, já que todo sistema tecnológico, como o Paula e Souza e até mesmo as universidades, estão criando cursos específicos de bioenergia.

Um fator também bastante citado é a cogeração. Existe uma discussão muito séria quanto à importância dos combustíveis comparada à energia elétrica. “A energia elétrica é mais importante que aquela gerada por combustíveis? A cana vai deixar de ser uma geradora de combustível e passar a gerar energia?” Essas são apenas duas das várias perguntas que podem ser feitas sobre o assunto.

 

Francisco Emilio Baccaro Nigro, coordenador de projetos estratégicos da Secretaria de Desenvolvimento de SP

O petróleo e todo combustível líquido vale de duas a quadro vezes mais que o sólido. Portanto, o álcool vale o quádruplo do que o bagaço vale. No caso do carro elétrico, a competitividade é baseada no fato de que a energia utilizada é gerada com carvão, o que custo muito menos.

Logo, fazendo a análise pela lógica de preço de acordo com a demanda, o combustível líquido ainda vai ser, sem dúvida, muito requisitado.

O Estado está trabalhando com leis de incentivo à cadeia produtiva e setores de pesquisa. Outro projeto é a consolidação dos parques tecnológicos de biocombustível, no intuito de convergir pesquisas.

Já que não temos a mesma quantidade de recursos disponíveis que os norte-americanos e europeus, devemos nos unir a fim de obter resultados mais rapidamente. O Estado, portanto, deve ser o agente indutor dessas iniciativas de convergência.

 

Investimento em pesquisas é prioritário para o Brasil

Vadson Bastos do Carmo, assessor da Vice-Presidência de Tecnologia e Desenvolvimento da Dedini

Nos últimos anos, houve uma verdadeira injeção de capital estrangeiro no setor. Muitos fundos de investimento, com pessoas renomadas no mercado financeiro, têm apostado nesse setor, o que é um sinal de que o potencial é enorme.

A Dedini, em termos de pesquisa e desenvolvimento, tem tradição em função do pioneirismo de seu grande fundador que, há vinte anos, já previa a questão do etanol de segunda geração.

Se o Brasil não acompanhar o desenvolvimento dessa nova geração do álcool, pode perder a liderança conquistada nos últimos 30 anos em pesquisa de desenvolvimento. A liderança é mantida, basicamente, pelo custo baixo de obtenção do etanol e, se outros desenvolverem uma maneira economicamente viável de produzi-lo, poderá haver uma revolução geopolítica econômica.

Países da África, por exemplo, que hoje não tem praticamente nada a oferecer, poderão fornecer matéria-prima de fonte renovável e diversas regiões vão poder criar florestas energéticas e aproveitar resíduos florestais. O investimento em pesquisa e tecnologia, portanto, deve ser extremamente prioritário, porque ainda existem muitas perguntas sem respostas.

Foi anunciada, recentemente, a parceria entre uma empresa de tecnologia dos Estados Unidos e uma usina, para criar uma planta-piloto em Campinas e produzir biodiesel a partir da cana-de-açúcar. Essa é a alternativa: Produzir o biodiesel diretamente a partir da cana. No momento, estamos tentando ampliar a oferta de produtos de uma usina, integrando a produção de açúcar, álcool, energia e biodiesel.

Sobre o temor quanto à substituição do álcool por outra tecnologia, o etano é visto como a oportunidade de gerar matéria-prima para uma alcoolquímica capaz de substituir a petroquímica. Polímeros, plásticos, e uma série de produtos que são produzidos a partir da NAFTA poderão ser produzidos com eteno, variante do etanol. Essa é a aposta feita por grandes players mundiais, como Braskem, Dow Química e Oxiteno.

Como a obtenção do etanol de segunda geração se trata de uma inovação de ruptura, não temos ainda a precisão de quando vamos conseguir viabilizá-la. Mas, mesmo assim, não podemos parar de investir em pesquisas.

 

O fato novo do brasil é a difusão do conhecimento

Fernando Costa, presidente e professor da UNIESP

O conhecimento, que antes era restrito a uma elite privilegiada, atualmente atinge as camadas que, por várias questões, até pouco tempo não tinham acesso. Obviamente, essa mudança reflete no crescimento do Brasil. De fato, os jovens estão sendo mais bem preparados, por mais que os números ainda não sejam favoráveis.

É por isso que podemos agora tomar decisões vitais como a que estamos tratando, com fundamentos científicos. Os especialistas vão nos permitir aproveitar a grande oportunidade que se abre agora ao Brasil, no plano internacional, de obter condições de resgatar a dívida social.

É com este mesmo propósito que em nossa universidade, estamos transmitindo conhecimento a jovens do interior de São Paulo, e agora também na Capital.