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Olhando para a casa-a-casa de vírus

Publicado em 05 maio 2020

Por Carlos Fioravanti | Revista Pesquisa FAPESP

Em pé, segurando no portão de sua casa, no bairro de Nova Gerty, em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, um homem de 60 anos contou para dois estudantes de medicina e um agente da saúde – os três com jalecos e aventais descartáveis, máscaras faciais e óculos de proteção – o mal-estar que sentira nos dias anteriores: “Tive febre”.

Giovana Ferreira Pinheiro, estudante de 27 anos no último ano do curso de medicina na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), mediu sua temperatura a distância e pediu que ele mesmo colhesse, com um cotonete, amostras de secreção do nariz e da garganta para fazer o teste de diagnóstico para o Sars-CoV-2, o vírus causador da Covid-19. O resultado foi positivo, mas, como os sintomas não eram graves, ele não precisou de internação.

Três dias depois Pinheiro voltou à mesma casa, dessa vez para atender à companheira do homem, que tivera dores no corpo e na garganta. Pinheiro, que faz de cinco a nove visitas diárias a moradores com suspeita de Covid-19, observou: “Todos estão com muito medo”. Em quatro semanas, a equipe de 213 estudantes de medicina de que Pinheiro faz parte identificou, por meio de atendimento telefônico ou visitas domiciliares, 246 moradores de São Caetano com sintomas de Covid-19 que ainda não tinham procurado os serviços de saúde da cidade.

Os números aprofundam a realidade da epidemia e complementam o acompanhamento da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo (SES-SP). Com base em testes feitos com amostras de secreção de nariz e garganta de pessoas atendidas em hospitais, a SES-SP registrou 145 casos de pessoas com Covid-19 em São Caetano do Sul, com 15 mortes, até o dia 2 de maio. Com os outros 248 casos, o alcance da epidemia mais que dobraria.

“Ao identificar em suas próprias casas os moradores com sintomas, temos noção da subnotificação dos casos e reduzimos a transmissão do vírus, já que as pessoas, por não precisarem sair, deixam de infectar outras”, observa o infectologista Fábio Leal, da Faculdade de Medicina da USCS.

Leal e o clínico João Carlos Bizario, diretor da Faculdade de Medicina da USCS e integrante do comitê de emergência sanitária do município, são os idealizadores da chamada Plataforma Corona São Caetano, que está permitindo a identificação e o acompanhamento de pessoas com Covid-19 no município. Essa estratégia, chamada busca ativa de casos, ajudou a conter a expansão do número de casos na Alemanha, diferentemente do que ocorreu na Itália, França e Espanha, que não a adotaram.

Proposta pela equipe da USCS para a Secretaria Municipal de Saúde de São Caetano em 15 de março, com o apoio da prefeitura e a participação de pesquisadores do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IMT-FM-USP), a plataforma foi montada em duas semanas pela empresa MRS – Modular Research System, formada por dois ex-alunos da USP. Em 6 de abril, começou a funcionar. Até o dia 3 de maio, 2.619 pessoas – o equivalente a 1,75% dos cerca de 150 mil moradores do município – ligaram para o 0800-774-4002 ou acessaram o site coronasaocaetano.org e solicitaram atendimento médico por acreditarem estar com sintomas da Covid-19.

Depois de acionada a plataforma, estudantes de medicina entram em contato, por telefone, com os moradores e fazem uma apreciação detalhada dos casos, com base em questionários de avaliação médica. Desse modo, 367 dos 2.619 pedidos foram descartados por não se enquadrarem nos critérios da Covid-19. “Muitos dos que ligaram estavam em uma crise de ansiedade e queriam apenas mais informações sobre a doença”, observou Leal. A falta de ar que relatavam, por exemplo, poderia ser um dos sinais de desconforto psíquico.

Dos 2.195 selecionados ainda com suspeita de Covid-19, 1.294 receberam visitas de outro grupo de estudantes, com o apoio de seus professores, agentes de saúde e de médicos do programa Saúde da Família. Os demais permanecem sob acompanhamento remoto; 1.129 moradores, com sintomas mais graves, tiveram amostras de secreções coletadas para análise, que resultaram nos 246 diagnósticos positivos para Covid-19; 16 deles, o equivalente a 0,4% do total, apresentaram sintomas graves e precisaram ser encaminhados para hospitais; os outros receberam acompanhamento remoto durante 14 dias.

Acompanhamento Bizario permanece de plantão para tirar dúvidas da equipe em campo: “Essa é uma oportunidade única de aprendizagem para os futuros médicos”. Segundo ele, o trabalho é voluntário e contará como parte da formação prática dos estudantes.

“As pessoas que atendemos precisam ser orientadas e acolhidas, principalmente quando recebem diagnóstico positivo”, diz Leal. Pinheiro comenta: “Muitas mulheres contam que os maridos vão trabalhar, mesmo com os sintomas de Covid-19. Temos que insistir que não podem nem visitar o vizinho mesmo não tendo sintomas ou resultado positivo, pois somente o isolamento diminui a transmissão do vírus”.

Em quatro semanas, o número de chamadas diárias caiu de cerca de 300, registradas no início do funcionamento da plataforma, para por volta de 91, segundo Lígia Capuani, matemática e fundadora da MRS. Ela e seu sócio, o também matemático Helves Domingues, desenvolveram o sistema de gerenciamento de informações da plataforma com base em programas similares, que usam desde 2012 em pesquisas epidemiológicas do IMT-USP e de outros grupos. “Podemos ver a situação da epidemia a qualquer momento e, se necessário, corrigir as estratégias de trabalho”, informa. Até o dia 2 de maio, adultos com 30 a 50 anos responderam por 48% e as com mais de 60 anos por 20,2% dos 113 testes positivos de homens e 133 de mulheres (ver gráfico).

“Essas informações ajudam na busca ativa de casos sintomáticos e nas ações de controle e monitoramento da epidemia”, observa o farmacêutico Danilo Sigolo, diretor do Centro Integrado de Vigilância à Saúde (Civisa) da Secretaria Municipal de Saúde de São Caetano do Sul. Segundo Leal, esse método de identificação e acompanhamento de pessoas com Covid-19 em suas próprias casas deve contribuir para manter em cerca de 50% a taxa de ocupação dos leitos dos hospitais municipais.

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