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Óleo de peixe ômega-3 mostra-se promissor contra diabetes tipo 2 (89 notícias)

Publicado em 31 de maio de 2026

O trabalho foi financiado pela FAPESP e teve como foco o rato Goto-Kakizaki, modelo animal consagrado para estudar diabetes tipo 2 não obeso. O diabetes tipo 2 é caracterizado por níveis elevados de açúcar no sangue que ocorrem quando a insulina, o hormônio que ajuda a transportar a glicose do sangue para as células, não funciona de maneira eficaz.

Óleo de peixe e resistência à insulina

Suplementos de ômega-3, incluindo óleo de peixe, são frequentemente usados por pessoas com doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. No entanto, os cientistas ainda sabem muito menos sobre como estes ácidos gordos afectam a resistência à insulina quando a obesidade não está envolvida.

Esta questão é importante porque a obesidade é um dos factores de risco mais fortes para a diabetes tipo 2, mas não é tudo. Estima-se que 10% a 20% das pessoas com diabetes tipo 2 em todo o mundo não sejam obesas. Para estes pacientes, as raízes biológicas da resistência à insulina podem diferir das vias bem conhecidas ligadas à obesidade.

No estudo, os pesquisadores deram óleo de peixe a ratos na dose de 2 gramas por quilograma de peso corporal (equivalente a 540 mg/g de ácido eicosapentaenóico, ou EPA, e 100 mg/g de ácido docosahexaenóico, ou DHA) três vezes por semana durante oito semanas. No final do ensaio, os animais tratados apresentaram menor resistência à insulina, melhor controle do açúcar no sangue, redução dos marcadores inflamatórios e melhorias em várias medidas lipídicas, incluindo colesterol total, LDL (“colesterol ruim”) e triglicerídeos.

Os resultados são de testes pré-clínicos, portanto não provam que o óleo de peixe terá o mesmo efeito em humanos. No entanto, os resultados apontam para a inflamação como um alvo potente na diabetes não-obesa e sugerem que os ácidos gordos ómega-3 merecem um estudo mais aprofundado neste grupo.

Uma mudança nas células imunológicas

“Nossos experimentos envolveram ratos Goto-Kakizaki (GK), um modelo animal para diabetes tipo 2 não obesos. Descobrimos que a resistência à insulina pode ser reduzida nesses animais modulando a resposta inflamatória para alterar o perfil das células imunes (linfócitos) de um estado pró-inflamatório. (UNICSUL) Professor de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências da Saúde e Coordenador de Pesquisa.

Os linfócitos são glóbulos brancos que ajudam a controlar o sistema imunológico adaptativo. Quando o seu comportamento muda, os efeitos podem espalhar-se pelo sistema imunitário e afetar outras células envolvidas na inflamação.

“Em estudos anteriores, vimos alterações tanto em linfócitos quanto em macrófagos (grandes glóbulos brancos que muitas vezes residem no tecido adiposo e fazem parte do sistema imunológico inato, englobando e destruindo patógenos) em camundongos não obesos com resistência à insulina. Nesses casos, essas células são mais comuns em obesos e em humanos obesos com inflamação central”, explicou Currie.

“Portanto, o principal objetivo do estudo foi descobrir se a suplementação com óleo de peixe (rico em ômega-3) poderia reverter alterações específicas nos linfócitos observadas em estudos anteriores. Nossos resultados aumentam nosso conhecimento sobre a ligação entre inflamação e resistência à insulina em animais não obesos, confirmando que é uma das principais causas de diabetes na obesidade”. Gorjão, último autor do artigo e codiretor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde da UNICSUL.

Inflamação sem obesidade

D valor nutricional O estudo, realizado durante o doutorado de Tiago Bartola Lobato, fez parte de um projeto maior, apoiado pela FAPESP, que explora como a resistência à insulina se desenvolve em animais não obesos.

Currie observou que a obesidade é um importante fator de risco para diabetes, mas não o único. Entre aqueles que desenvolvem diabetes sem obesidade, uma hipótese importante é que os fatores genéticos podem desempenhar um papel importante. Em Outro estudo publicado células Curi, Gorjão e colegas investigaram se o atraso no trânsito intestinal pode contribuir para a resistência à insulina em indivíduos não obesos.

“A maioria dos indivíduos obesos tem inflamação crônica de baixo nível, que afeta as vias de sinalização da insulina. O tecido adiposo, que está aumentado na obesidade, libera citocinas pró-inflamatórias que afetam as vias de sinalização da insulina, promovendo a resistência à insulina.

O grupo já havia mostrado inflamação sistêmica em camundongos GK não obesos com resistência à insulina em um estudo publicado em Revista Internacional de Ciências Moleculares.

Outro artigo do mesmo projeto relatou que as defesas antiinflamatórias são inicialmente quebradas em camundongos GK não obesos com resistência à insulina. Os gânglios linfáticos (parte do sistema imunitário) de bebés GK recém-desmamados com 21 dias de idade já apresentam marcadores reduzidos de células T reguladoras (Tregs, células com propriedades anti-inflamatórias). Os pesquisadores também identificaram outras alterações inflamatórias precoces. Esse foi o trabalho publicado em Correspondência FEBS Um Jornal da Federação das Sociedades Bioquímicas Europeias.

Como o ômega-3 pode ajudar

Estudos nutricionais sugerem que o óleo de peixe pode atuar protegendo ainda mais o sistema imunológico, desviando-o de padrões inflamatórios prejudiciais.

“A suplementação com óleo de peixe reverte esse perfil pró-inflamatório, apresentando efeito antiinflamatório significativo e reduzindo a polarização das células Th1 e Th17 (subtipos de linfócitos que desempenham papel importante na inflamação), seguido de aumento no percentual de Tregs, que pode inibir a ativação das ações pró-inflamatórias da tromptase 3. Os ácidos graxos nos linfócitos, alterando-os do estado antiinflamatório, podem desencadear diminuição da resistência à insulina nos animais”, disse Lobato.

Essa mudança imunológica é importante porque a resistência à insulina não é apenas um problema do metabolismo do açúcar. Também está profundamente ligado à inflamação. Quando os sinais inflamatórios estão elevados, eles podem interferir na sinalização da insulina e dificultar a resposta das células ao hormônio.

A pesquisa contribui para uma visão crescente do diabetes tipo 2 como uma doença moldada tanto pelo metabolismo quanto pelo sistema imunológico. A este respeito, foi demonstrado que o óleo de peixe melhora o controlo do açúcar no sangue, não só alterando os níveis de gordura, mas também alterando o ambiente inflamatório que ajuda a impulsionar a resistência à insulina.

Desde valor nutricional À medida que o artigo foi publicado, estudos humanos relacionados continuam a examinar como os ácidos graxos ômega-3 podem afetar o risco precoce de diabetes e a saúde metabólica.

Um 2025 Ensaio duplo-cego randomizado controlado em Dieta e função Suplementação de óleo de peixe testada em adultos saudáveis de meia-idade e idosos. Ao longo de 12 semanas, houve um aumento relacionado à dose nos níveis séricos de EPA e DHA no grupo do óleo de peixe. Os pesquisadores também relataram reduções na insulina em jejum e no índice HOMA-IR, um marcador comum de resistência à insulina. A glicemia em jejum apresentou tendência de queda entre os grupos, e várias medidas relacionadas aos lipídios também melhoraram.

Outro 2024 Análise em Nutrição e diabetes O estudo explorou a relação entre os níveis de ômega-3 e a HbA1c, um marcador de longo prazo do controle do açúcar no sangue, utilizando dados de modelagem de 161 pacientes com diabetes tipo 2. Os autores relatam uma associação relacionada à dose e sugerem que a ingestão de ômega-3 poderia ser estudada de forma mais individualizada, ao mesmo tempo em que observam que o papel do ômega-3 no diabetes tipo 2 é controverso.

Juntos, estes estudos não resolvem a questão de saber se o óleo de peixe deve ser usado para controlar a diabetes. As evidências em humanos permanecem confusas, e o estudo brasileiro foi conduzido em animais, não em humanos. No entanto, as novas descobertas são consistentes com a ideia de que os ácidos graxos ômega-3 podem afetar a resistência à insulina e a inflamação de maneiras que precisam ser examinadas com mais cuidado.

Mais pesquisas ainda são necessárias

Apesar dos resultados promissores, os investigadores sublinharam que os resultados devem ser interpretados com cautela. Os estudos em animais são úteis para descobrir mecanismos biológicos, mas são necessários ensaios clínicos antes que os cientistas saibam se a mesma estratégia funciona em pessoas com diabetes tipo 2 não obesas.

“Esses estudos envolvem modelos experimentais bem estabelecidos que imitam a resistência à insulina em indivíduos não obesos. São necessários ensaios em humanos para estimar as doses ideais e as formas mais prescritas de ácidos graxos ômega-3”, disse Currie.

Por enquanto, o estudo oferece uma pista convincente: na diabetes, o peso corporal pode não ser o único factor de resistência à insulina. Mesmo sem obesidade, a inflamação pode desempenhar um papel central, e o óleo de peixe pode ajudar a revelar como esse processo oculto pode ser alterado.

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