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Oceanos são importantes para entender as mudanças climáticas, mas ainda ganham pouca atenção

Publicado em 05 novembro 2007

Um dos componentes mais importantes para tentar entender as mudanças climáticas ainda ganha pouca atenção no debate científico internacional: os oceanos. O alerta foi feito por Edmo Campos, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), que abriu nessa segunda-feira (5) a 3ª Conferência Regional sobre Mudanças Globais: América do Sul.

De acordo com o pesquisador, as variações climáticas em curso afetam diversos processos químicos, físicos e biológicos dos oceanos, que, por sua vez, terão impactos ainda pouco estudados sobre o clima. "Os oceanos recebem a maior parte da radiação solar que atinge a Terra. O planeta ganha calor nos trópicos e perde nas altas latitudes. A distribuição desse calor cabe fundamentalmente aos oceanos, especialmente nos trópicos", disse à Agência FAPESP.

Campos explicou que, ao aquecer a atmosfera, o oceano gera diferentes gradientes de temperatura, criando um movimento que produz ventos, redistribuindo calor e interferindo em correntes oceânicas, alterando a temperatura em todo o planeta.

"É um sistema intrincado de correntes, que interage com as mudanças climáticas e afeta toda a dinâmica global. Para fazer previsões sobre como isso vai acontecer é preciso fazer muita observação. E observar o oceano não é algo simples ou barato", disse.

A inércia térmica dos oceanos é muito grande, ou seja, demora tanto para esquentar como para esfriar. Isso diminui a precisão dos modelos climáticos, criando dificuldades para os cientistas. "Em qualquer modelo climático é preciso conhecer as condições iniciais para poder fazer previsões. O grande problema é conhecer o estado inicial dos processos oceânicos", afirmou.

Segundo Campos, há cerca de 200 anos os mares procuram se acomodar às mudanças causadas pelo homem. "A molécula de água é muito polarizada, por isso a inércia térmica do mar é mil vezes maior que a da atmosfera. Se o sistema é aquecido por muito tempo, é preciso um tempo igual para resfriá-lo depois."

O professor afirmou que o aquecimento global pode afetar o processo de absorção do carbono, alterando todo o balanço climático. "O oceano está perdendo lentamente a capacidade de absorção de CO2, o que pode, a longo prazo, aumentar o efeito estufa", disse.

Por outro lado, à medida que absorve carbono, o oceano fica mais ácido. "Os estudos mais recentes mostraram que desde a revolução industrial houve uma diminuição de 0,1% no pH oceânico, que historicamente se mantém em torno de 8,16. Se o pH descer abaixo de 7, o oceano perderá a capacidade de absorver o carbono."

Resfriamento global

Segundo Edmo Campos, o clima global é especialmente sensível a variações no oceano Pacífico, que tem uma característica especial, descoberta há apenas dez anos e que pode trazer surpresas para o clima global: a Oscilação Dacadal do Pacífico (PDO, na sigla em inglês).

"Essa oscilação é caracterizada por fases frias e quentes alternadas a cada 20 ou 30 anos. Estamos no fim de uma fase quente e recentemente vários pesquisadores têm apontado para uma possível redução da temperatura média do planeta em função da fase fria que se aproxima", explicou.

O possível "resfriamento global" causado pelo Pacífico, no entanto, preocupa o pesquisador. "O fato de ter uma fase fria acontecendo, com redução da temperatura, não significa que a mudança climática será interrompida. Ela pode ser maquiada", disse.

Segundo Campos, o clima não varia de forma contínua e, mesmo com um resfriamento temporário, as mudanças climáticas não podem ser desprezadas. "Talvez a fase fria seja mais quente do que a última. E a próxima fase quente poderá ser mais quente do que a anterior."

A mudança de salinidade também altera os padrões climáticos, ao criar correntes profundas resultantes da diferenças de densidade da água: as correntes termohalinas. "São movimentos de água produzidos quando a densidade se altera por variações de temperatura ou salinidade em alguma região oceânica superficial", explicou.

Uma das conseqüências da interferência no padrão de circulação termohalina é um eventual aumento do nível do mar. "Há uma maior elevação na superfície da água, onde há uma anomalia positiva de sal. A diferença entre elevação da superficie em diferentes localidades produz gradientes de pressão anômalos que vão gerar correntes anômalas. Tudo isso ainda precisa ser estudado", disse Campos.

O professor conta que o Instituto Oceanográfico da USP montou uma comissão para viabilizar a aquisição de um novo navio de pesquisa. Segundo ele, o navio Professor Besnard está obsoleto. "A USP tem o único navio brasileiro integralmente dedicado à pesquisa. Mas ele cumpriu seu papel e hoje precisa de muitos recursos para se manter operacional. Necessitamos de um novo navio. A USP tem toda a estrutura, experiência de manutenção e recursos para a tripulação", afirmou.