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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Oceanógrafo estuda placas de gelo na Galiléia

Publicado em 03 agosto 2006

Por Agência FAPESP

Uma passagem no Novo Testamento (Mateus 14, 22-27) narra um dos mais conhecidos milagres de Jesus, que teria andado sobre as águas do mar da Galiléia ao encontro dos discípulos que o esperavam na outra margem. Um estudo que acaba de ser divulgado sugere que o mais provável é que Jesus tenha caminhado não sobre a água na forma líquida, mas sobre placas de gelo.
O estudo, liderado por Doron Nof, do Departamento de Oceanografia da Universidade do Estado da Flórida, nos Estados Unidos, sugere que teria ocorrido uma inusitada combinação entre temperatura da água e condições atmosféricas para a formação de um fenômeno de congelamento localizado.
Os pesquisadores utilizaram dados da variação da temperatura no Mediterrâneo e modelos estatísticos para concluir que entre 2,5 mil e 1,5 mil anos atrás a região, no norte da atual Israel, experimentou períodos de quedas bruscas de temperatura.
O antigo mar da Galiléia, conhecido atualmente pelos israelenses como Yam Kinneret, é na realidade um lago de água doce, com largura máxima de 13 quilômetros. Segundo os cientistas, partes congeladas na superfície do lago teriam sido muito difíceis de ser vistas por observadores, uma vez que o episódio teria ocorrido à noite e os discípulos estariam a distância.
"Como cientistas, apenas explicamos que processos únicos de congelamento provavelmente ocorreram algumas vezes na região. Se nossa pesquisa explica ou não a passagem bíblica é algo que deixamos para outros discutirem", disse Nof, em comunicado da Universidade do Estado da Flórida.
O estudo, que contou com a participação de Ian McKeague, da Universidade de Colúmbia, e de Nathan Paldor, da Universidade Hebraica de Jerusalém, está publicado na edição de abril do Journal of Paleolimnology.
Não é a primeira vez que Nof tenta explicar episódios conhecidos da Bíblia. Em 1992, o pesquisador provocou polêmica ao descrever, em outro estudo, que ventos de mais de 60 km/h teriam levado à abertura do mar Vermelho, acontecimento comumente atribuído a Moisés.
No novo estudo, os autores também reconhecem que as circunstâncias que descreveram para o congelamento de parte do lago são difíceis de atingir. Segundo cálculos de Nof e colegas, o evento poderia ter ocorrido uma vez a cada mil anos. Com as condições climáticas atuais, a chance seria praticamente inexistente.
O artigo Is there a paleolimnological explanation for 'walking on water' in the Sea of Galilee? pode ser lido no Journal of Paleolimnology ou no site do professor Nof, em http://www.doronnof.net.