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Obras de arquiteto francês ajudam a recontar história de São Paulo

Publicado em 24 fevereiro 2013

Um diploma de arquiteto da renomada École des Beaux-Arts, de Paris, algum "pecúlio" e uma agenda repleta de contatos da nata da elite paulistana da época. Com esses atributos, o arquiteto francês Jacques Pilon (1905-1962) aportou com a família no Brasil em 1932. Um ano depois, estava com escritório aberto em São Paulo, onde por quase três décadas iria atuar no mercado imobiliário como arquiteto, construtor e investidor , participando ativamente da construção da metrópole.

Responsável por centenas de projetos com destaque para os edifícios verticais na região central , Pilon não foi muito prestigiado pela historiografia da arquitetura. Mas a pesquisadora Joana Mello de Carvalho e Silva, professora de História da Arquitetura na Escola da Cidade, descobriu que a trajetória dele seria perfeita para estudar o processo de metropolização de São Paulo no século passado, a formação do campo arquitetônico brasileiro que só começa a se constituir de fato a partir dos anos 1940 e a contribuição dos arquitetos estrangeiros nesses dois processos.

Em uma época em que a metrópole buscava se firmar como o principal polo industrial, terciário e financeiro do país, o centro zona privilegiada dos negócios, da riqueza e do poder era pensado como o núcleo de representação do progresso técnico e da modernidade metropolitana. E a imagem do arranha-céu sintetizava esse processo, explica a pesquisadora.

"Os edifícios verticais idealizados por Pilon e tantos outros arquitetos vão construir a noção do que é a cidade moderna, nesses anos 30 até os anos 60. Por isso, a ideia [da pesquisa] foi vincular urbanização, arquitetura, os tipos de edifícios construídos e como eles vão dando e criando imagens para essa cidade", afirmou Mello, que agora lança com o apoio da Fapesp o livro O arquiteto e a produção da cidade: Jacques Pilon 1930-1960, pela editora Annablume, em um desdobramento de sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

O doutorado, por sua vez, integrou um Projeto Temático ("São Paulo, os estrangeiros e a construção da cidade"), encerrado em dezembro de 2011, coordenado pela professora Ana Lúcia Duarte Lanna. O temático agregou ainda outras unidades da USP, como o Departamento de Arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos (que hoje é o Instituto de Arquitetura e Urbanismo), o Museu Paulista e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e parte de seus resultados foi publicado no site homônimo. Tanto o doutorado como o Temático contaram com apoio da FAPESP.

Entre os entrevistados pela autora estão o filho de Pilon, que mora em São Paulo, Gasperini, que ainda atua na cidade, e o arquiteto brasileiro Jerônimo Bonilha Esteves (1933), o último chefe de seu escritório. Além das entrevistas, ela também investigou projetos de arquitetura, projetos complementares de estrutura, hidráulica e elétrica, as obras, os contratos sociais, a legislação profissional e civil da época, entre outras fontes documentais.

"Eu quis me aproximar da história das ideias, da história da cultura e de uma determinada sociologia da cultura", afirmou Mello sobre o seu trabalho. "Tentei mesclar vários tipos de conhecimento, em um esforço de criar um diálogo com outros campos disciplinares, de maneira a tentar tirar o debate arquitetônico de um certo isolamento."

SERVIÇO

O arquiteto e a produção da cidade: Jacques Pilon 1930-1960

Autora: Joana Mello de Carvalho e Silva

Lançamento: dezembro de 2012

Preço: R$ 40,50

Páginas: 260