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Obra investiga censura na Era Vargas

Publicado em 09 julho 2003

Por Silvana Arantes - Agência Folha
Na sua lua-de-mel, ainda, com Mussolini e com Hitler, o chefe do governo deposto a 29 de outubro [Vargas] fez proibir 'O Grande Ditador' [de Charles Chaplin], no qual via uma caricatura do totalitarismo em geral." "Proibido o filme, deu-se uma coisa: do território do Rio Grande do Sul, de várias cidades, correram trens especiais para o Uruguai - país livre e democrático - só para levar pessoas curiosas para admirar 'O Grande Ditador'." O relato - de um ex-redator do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de censura que caracterizou o governo de Getúlio Vargas no período do Estado Novo (1937-1945) - é reproduzido pelo pesquisador do cinema brasileiro José Inacio de Melo Souza em seu livro "O Estado contra os Meios de Comunicação (1889-1945)". Editado pela Fapesp e Annablume, o volume condensa a dissertação de mestrado defendida por Melo Souza na Escola de Comunicações e Artes da USP. O autor classifica a censura à obra de Chaplin como "o caso mais grave de desentendimento do DIP com o cinema americano". Além das implicações diplomáticas envolvidas na prática da censura a filmes estrangeiros no Brasil, a obra vasculha a relação do Estado com a imprensa e o rádio, a partir de 1889, quando o governo era outro (Deodoro da Fonseca ), o DIP ainda não existia e "o meio de comunicação mais importante era a imprensa". A principal fonte de pesquisa de Melo Souza foram os arquivos do DIP, franqueados aos pesquisadores pelo Arquivo Nacional. Neles, o autor não encontrou os famigerados boletins de censura. "Os boletins da censura podem nunca ter existido, no estilo de documento que [o pesquisador] Inimá Simões encontrou para fazer o seu trabalho sobre a censura no regime militar ["Roteiro da Intolerância", editora Senac]", diz. Melo e Souza conclui que "nos anos 30 e 40, os censores assistiam aos filmes e assinavam os certificados de liberação, somente, sem deixar um parecer por escrito". Mesmo que laterais, os documentos pesquisados no Arquivo Nacional são suficientes para dar a conhecer o ponto de vista dos censores. "O Estado contra os Meios de Comunicação" diz que a censura à produção nacional era feita com base no gosto dos censores, "área restrita da burocracia, sobre quem a sociedade não podia exercer controle". "Parece-me bem evidente que o gosto era o da elite, mesmo que esta fosse representada por um Vinicius de Moraes que, como crítico de cinema na década de 40, só via cinema estrangeiro e gostava do cinema mudo", diz o autor. Para a produção internacional, valiam outros critérios. "A situação de dominação estrangeira obrigava os censores à utilização de uma razão diferente daquela a que estavam acostumados a empregar na análise do filme brasileiro, ou seja, as razões do Estado sobrepunham-se às de gosto pessoal", afirma Melo Souza no livro. O ESTADO CONTRA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO (1889-1945) Autor: José Inacio de Melo Souza Editora: Fapesp e Annablume (0/xx/11/3031-9727) Quanto: R$ 25 (229 págs.)