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Obesidade na favela

Publicado em 19 janeiro 2006

Agência FAPESP - Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade atinge 7% da população mundial e o sobrepeso chega a 20%. No Brasil, de acordo com dados da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição (PNSN), o excesso de peso está presente em 27 milhões de indivíduos. Desses, 6,8 milhões são classificados como obesos.
O artigo Obesidade e pobreza: o aparente paradoxo. Um estudo com mulheres da Favela da Rocinha, Rio de Janeiro, publicado na edição de dezembro dos Cadernos de Saúde Pública, mostra que o perfil do problema no país apresenta comportamento pouco homogêneo: a maior prevalência ocorre em mulheres pobres na região Sudeste.
"O impacto é notório na população adulta feminina, especialmente a inserida nos menores percentuais de renda", relatam no artigo as pesquisadoras Rosana Magalhães, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, e Vanessa Ferreira, das Faculdades Federais Integradas de Diamantina (Fafeid), em Diamantina (MG). "Dos 6,8 milhões de obesos diagnosticados pela PNSN, 70% são do sexo feminino e com baixa renda."
O estudo envolveu a análise das práticas alimentares, da rotina de atividades físicas e da qualidade de vida de um grupo de mulheres pobres e obesas, moradoras da Favela da Rocinha, na zona Sul do Rio de Janeiro. O objetivo foi investigar o fenômeno da obesidade no contexto da pobreza.
Dentre as analisadas, com idades entre 34 e 60 anos e todas com baixos rendimentos mensais, 57% apresentaram obesidade classe I (Índice de Massa Corpórea — IMC entre 30 e 34,9) e 43% obesidade classe II (IMC entre 35 e 39,9) com riscos de co-morbidade (ocorrência conjunta de dois ou mais transtornos num mesmo indivíduo) moderada e grave.
Dentre os critérios para o consumo alimentar no grupo, foi verificada uma estreita relação entre alimentação e condições socioeconômicas. O critério de seleção dos alimentos pelas mulheres da Rocinha foi verificado como pautado pelo valor monetário dos alimentos.
"As estratégias de consumo alimentar estão caracterizadas pela seleção de alimentos baratos, de alta densidade calórica e baixo valor nutritivo, por meio dos quais os mais pobres conseguem as calorias de que necessitam para sobreviver", diz o artigo. Para piorar a situação, nos relatos raramente foram citadas a prática de atividades físicas e momentos de descanso ou lazer.
As autoras evidenciam a necessidade de entender a obesidade enquanto uma enfermidade não apenas física, mas também social. "Ela está articulada à dinâmica social e adquire contornos próprios em cada segmento. A pobreza de fato determina a obesidade entre as mulheres brasileiras", explicam as autoras.
A necessidade de desconstruir a idéia de obesidade enquanto uma enfermidade associada à abundância e aos excessos alimentares faz parte das conclusões do artigo. "A obesidade surge como mais uma face da desigualdade social no país. Por isso, é importante reconhecer os novos contornos da pobreza para que novas estratégias em saúde pública sejam traçadas", afirmam.