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Revista Amazônia

O zelo pela saúde na Amazônia em um Centro

Publicado em 02 janeiro 2019

As chuvas intensas e contínuas de fevereiro deste ano, um dos meses de maior pluviosidade na Amazônia, fizeram transbordar um imenso tanque de rejeitos da Alunorte, mineradora de alumínio do grupo norueguês Norsk Hydro instalada no município de Barcarena, no Pará. Com quase 1 quilômetro (km) de diâmetro, o reservatório armazena uma terra avermelhada rica em soda cáustica e metais pesados, liberados no beneficiamento da bauxita. A precipitação incessante inundou o grande tanque a céu aberto e espalhou uma lama cor de telha por duas comunidades vizinhas, Vila Nova e Bom Futuro, atingindo igarapés e a água de poços usada para o consumo humano. A enxurrada de rejeitos atingiu também o rio Pará, que drena a região e banha a cidade de Belém, a 40 km a leste dali, antes de chegar ao Atlântico. Alertados pela população, o Ministério Público do Estado e o Ministério Público Federal acionaram pesquisadores do Instituto Evandro Chagas (IEC) para avaliarem o impacto ambiental e os potenciais riscos do extravasamento à saúde humana.

A água coletada de ruas, igarapés, poços e do pátio da empresa continha níveis de alumínio e outros metais bem superiores aos aceitáveis e era altamente alcalina, indicaram as análises feitas pela equipe do químico Marcelo de Oliveira Lima, da Seção de Meio Ambiente (Samam) do IEC. No relatório, os pesquisadores recomendaram a distribuição de água potável para a população da área afetada e o monitoramento da água da região enquanto durassem as chuvas. A Alunorte contratou uma empresa independente e questionou os resultados do IEC, embora tenha reconhecido mais tarde, em entrevista à imprensa, o uso de dutos clandestinos para eliminar rejeitos e efluentes sem tratamento no ambiente.

O acidente ambiental do início do ano é apenas o mais recente investigado pela Samam. Criada em 1992 por iniciativa da virologista Elisabeth de Oliveira Santos, essa é a área científica mais jovem das oito que integram o instituto, o mais importante centro de pesquisa e tratamento de doenças tropicais e de saúde ambiental da Amazônia.

Em duas décadas e meia, as equipes da Samam estudaram os efeitos da exposição ao mercúrio usado na mineração e ao encontrado naturalmente no ambiente sobre a saúde de ribeirinhos e indígenas, além de agentes infecciosos transmitidos pela água. Seus pesquisadores atuam no programa de monitoramento de agrotóxicos do Ministério da Saúde e analisam a água das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Em 2008, eles avaliaram um acidente em Barcarena e descobriram que a empresa francesa Imerys, produtora de caulim, minério rico em alumínio usado no branqueamento do papel, lançava efluentes sem tratamento nos igarapés da região, tornando as águas ácidas e sem vida. “A água de alguns igarapés, de tão limpa, parecia a de uma piscina, diferente das águas ricas em sedimentos dessa parte da Amazônia”, lembra o engenheiro químico Bruno Carneiro, vice-chefe da Samam.

Essa seção foi uma das primeiras a se instalar nos prédios do IEC em Ananindeua, município vizinho a Belém. É nesse campus de 70 hectares que hoje funcionam quase 30 laboratórios de sete das oito seções de pesquisa do instituto, além dos setores de atendimento médico, onde são realizadas quase 25 mil análises clínicas e 4,7 mil diagnósticos de doenças tropicais por ano. À margem da rodovia BR-316, que liga Belém a Maceió, capital alagoana, esse complexo também abriga as atividades de ensino: um curso técnico em análises clínicas e os três cursos de pós-graduação – o mestrado em epidemiologia e vigilância em saúde e o mestrado e o doutorado em virologia. Apenas a Seção de Hepatites fica na sede original do IEC, o casarão do número 492 da avenida Almirante Barroso, em Belém, a 15 km de Ananindeua.

Foi nesse casarão que o médico e pesquisador carioca Evandro Chagas (1905-1940), então com 31 anos, instalou em 1936 o primeiro centro brasileiro de pesquisa em saúde da Amazônia: o Instituto de Patologia Experimental do Norte (Ipen). Dois anos antes, outro médico carioca, Henrique de Azevedo Penna, havia identificado os primeiros casos de leishmaniose visceral originários do Brasil. Com apoio da Fundação Rockefeller, dos Estados Unidos, Penna trabalhava na Bahia investigando casos de febre amarela e analisou 47 mil lâminas contendo amostras de fígado. Em 41 delas, negativas para o vírus da febre amarela, encontrou o parasita causador da leishmaniose visceral, ou calazar, à época com transmissão restrita à Índia e ao Mediterrâneo. Os casos se concentravam nas regiões Nordeste e Norte, relatou Penna em novembro de 1934 na revista científica Brasil Médico. Então diretor do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, o médico Carlos Chagas (1879-1934), descobridor da doença que leva seu nome, organizou uma comissão para investigar os casos de leishmaniose no país. O trabalho ficou a cargo de seu filho mais velho, Evandro (ver Pesquisa FAPESP nº 120).