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Jornal do Commercio (PE) online

O vizinho da revolução egípcia

Publicado em 27 fevereiro 2011

O mundo árabe sempre fez parte de sua vida. Filho de imigrantes libaneses, é um brasileiro com sangue oriental. Ficou famoso por traduzir para o português a obra As mil e uma noites, clássico da literatura do Oriente Médio. Dedica sua vida a estudos sobre a literatura árabe clássica. Há pouco mais de um mês, sua ligação com a região ficou ainda mais fortalecida. O paulista Mamede Mustafa Jarouche foi vizinho da história. Ela aconteceu bem ali, do seu lado, a menos de 10 minutos a pé da casa onde está morando, na região central do Cairo. Jarouche está, desde 22 de janeiro, vivendo na capital egípcia, a poucas quadras da Praça Tahrir, símbolo da luta de um povo que derrubou o presidente Hosni Mubarak, que ficou 30 anos no poder.

Em discurso na TV estatal, o ditador renunciou, em 11 de fevereiro, após 18 dias de intensos protestos e mais de 300 mortos. Uma multidão embevecida - entre civis e militares, todos um só - foi à Tahrir festejar. Jarouche também.

"Pude acompanhar a primavera do mundo árabe de perto. Foi uma feliz coincidência estar aqui. Foi impossível não acompanhar, não participar. Estive na Praça Tahrir. O povo tomou conta da cidade toda, do país inteiro. Embora muita gente tenha achado isso surpreendente, uma hora tinha que acontecer", afirma, por telefone, do Cairo, o professor do Departamento de Letras Orientais (DLO) da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

CULTURA

O bacharel em letras acredita que as implicações pós-revolta no mundo árabe para o Ocidente serão, também, culturais. Muda, segundo ele, o olhar ocidental sobre o Oriente. "As manifestações servirão para quebrar preconceitos do Ocidente, deslocar certas ideias, como a respeito da imobilidade. Tivemos aqui no Egito uma revolução pacífica. A violência praticada foi do Estado, não dos cidadãos. As massas saíam marchando nas ruas e se concentravam na praça. O Ocidente se entusiasmou com isso", pondera.