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O vírus é natural; a pandemia, humana

Publicado em 18 maio 2020

Por Marcos Pivetta, revista Pesquisa Fapesp

Virologista italiana Ilaria Capua, da Universidade da Flórida, diz que o modo de vida acelerado e as fake news potencializam o impacto da Covid-19

A veterinária e virologista italiana Ilaria Capua tornou-se um nome conhecido no meio científico em meados dos anos 2000 quando desenvolveu uma forma de vacinação das aves contra a chamada gripe aviária e passou a defender o acesso aberto e universal às sequências genéticas do vírus dessa doença. A ideia era estimular a pesquisa e o preparo científico para conter futuras epidemias, seja em animais ou humanos. Em 2013, com uma reputação firmada à frente da direção do Instituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie, nos arredores de Pádova, norte da Itália, aceitou o convite do então primeiro-ministro de seu país, o economista Mario Monti, presidente desde 1994 da Universidade Bocconi, de Milão, para se candidatar ao Parlamento italiano.

Eleita deputada, passou a ser uma das vozes da ciência na política. Até que, um ano após sua eleição, foi acusada judicialmente de estar envolvida em uma suposta rede de tráfico internacional de vírus da gripe aviária, que causaria deliberadamente epidemias para as empresas farmacêuticas lucrarem com a doença. Para se defender, Capua juntou por dois anos documentos que a inocentavam e o processo penal de que era ré não foi sequer levado adiante por falta de consistências das acusações. Livre do problema judicial, Capua renunciou ao mandato e deixou a Itália.

Para Ilaria Capua, o uso de big data pode ajudar a prevenir outras epidemias, antecipando a disseminação de novos vírus Isabella Balena

Hoje, aos 54 anos, a virologista é diretora do One Health Center of Excellence, da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, que estuda as interconexões entre a saúde dos seres humanos, animais, plantas e o meio ambiente. Nesta entrevista, ela fala da pandemia de Covid-19, de fake news, da qual foi vítima em seu processo judicial na Itália, e da importância de levar o conhecimento científico a leigos.

Em janeiro deste ano, a senhora já dava entrevista para a imprensa italiana alertando sobre o risco de uma pandemia. O que a levou a expressar essa preocupação naquela época?

O fato de ter sido decretado o lockdown em Wuhan, na China, às vésperas da comemoração do ano-novo lunar [a data caiu em 25 de janeiro de 2020 e é o período em que mais as pessoas viajam no país]. A essa altura, muitas pessoas, sobretudo estudantes, já tinham deixado a cidade por conta das festividades. Estima-se que um mês antes do bloqueio 6 milhões de pessoas saíram de Wuhan. Somente em 1º de janeiro 175 mil pessoas deixaram a cidade. Essas pessoas foram para o mundo todo e devia haver infectados entre elas. O lockdown só funciona se for implementado no momento correto. Se instituído tardiamente, não funciona. Não diria que foi culpa dos chineses. Mas, quando eles se deram conta da gravidade da situação e fecharam Wuhan, era tarde. Estava claro que se tratava de um vírus altamente transmissível. Acho que já estava circulando na China sem ter sido identificado pelo menos dois meses antes. Isso também deve ter ocorrido na Itália. A primeira morte por Covid-19 na Itália foi em 21 de fevereiro. Mas é provável que o vírus já estivesse circulando no país desde o fim de dezembro. Há relatos nos jornais italianos de que a temporada de gripe foi bastante agressiva, provavelmente porque havia dois vírus em circulação, o da gripe e o Sars-CoV-2.

A rápida disseminação da pandemia decorre das conexões que existem hoje em um mundo globalizado?

Se a pandemia tivesse ocorrido dois anos atrás, seria a mesma coisa. Quase 20 anos atrás, a epidemia de Sars [uma síndrome respiratória aguda grave causada pelo vírus Sars-CoV] foi parecida com essa. Mas aquele era um vírus diferente do atual, mais fácil de ser contido. A passagem de um vírus de uma espécie animal para humanos não ocorre uma única vez. Ela se dá lentamente. O Sars-CoV-2 não foi criado pelo homem, mas sim a pandemia, ainda que não de forma deliberada. O homem introduziu uma velocidade que o sistema natural não consegue sustentar. Os vírus são criados pela natureza, que é generativa e também dá origem a coisas ruins. O Sars-CoV-2 tornou-se um problema porque o Homo sapiens estava por perto. Se ele não tivesse organizado sua vida em megalópoles, com um tráfego aéreo internacional tão intenso, e não existissem lugares no mundo em que praticamente não há sistema de saúde, talvez a pandemia não tivesse se desenvolvido. Mas esse é, simplesmente, nosso modo de vida. Qualquer coisa que entre nesse modo de vida extremamente acelerado se dissemina. Um patógeno que está na Ásia pode estar aqui na manhã do dia seguinte. Não era assim 100 anos atrás. A gripe espanhola demorou dois anos para dar a volta ao mundo porque se movia em navios. Agora o vírus viaja em aviões. Na epidemia de gripe A do vírus H1N1 de 2009 [popularmente conhecida como gripe suína], algumas pessoas tinham anticorpos residuais contra a doença. No caso atual, não há anticorpos na população contra o Sars-CoV-2. Por isso ele se espalhou tão rapidamente.

É possível dizer que o Sars-CoV-2 tem alguma característica que o torna mais perigoso?

Ele é muito transmissível, mas não é mais do que o vírus do sarampo e do que algumas variedades de gripe. Os outros dois coronavírus, Sars e Mers, são mais letais, mas não tão transmissíveis como o Sars-CoV-2. Como regra geral, patógenos muitos transmissíveis não são altamente letais. Um patógeno muito letal mata todos os seus hospedeiros, o que não é bom para ele mesmo. Mas o problema não é apenas o vírus, que representa, para mim, apenas 20% da questão. O vírus é muito agressivo em pessoas fragilizadas. Por exemplo, no sul da Itália, onde os padrões de atendimento não são tão altos como no norte da Itália, há menos mortes por Covid-19. Por quê? Porque o problema não é apenas o vírus. Há uma série de outros fatores que pesam, como mobilidade humana, comportamento social, exposição, idade da população. Há muitas variáveis. Acho que as fake news são um dos maiores problemas dessa pandemia por enganar pessoas que precisam de informações para se prevenir contra o vírus. O maior problema ocorre quando as instituições científicas perdem credibilidade.

Por falar em fake news, qual a razão de ter sido acusada, sem provas, de ter praticado tráfico internacional do vírus da gripe aviária?

Prefiro não comentar o assunto. Há um documentário sobre essa questão [L’antiscienza: Il caso Ilaria Capua] e eu escrevi em 2018 o artigo “Discovering invisible truths”, no Journal of Virology, em que resumo a história. Está tudo lá. Precisaria de duas horas para explicar. O importante é que já passou. Realmente não sei o que ocorreu. A política é um jogo sujo.

Depois de sua experiência no Parlamento italiano, a senhora passou a se definir como um “organismo politicamente modificado”. Em que sentido?

Como cientista, fiquei três anos e meio no Parlamento, tentei aprender a linguagem dos políticos e fazer a defesa da ciência. Naquela época, havia a epidemia de Ebola e outras questões. Infelizmente, os cientistas nunca são ouvidos. Fui vítima de um escândalo de fake news. Tive de juntar provas por dois anos, para me defender na Justiça. Fui absolvida. Mas essa situação me levou a renunciar ao mandato e a mudar para os Estados Unidos. É sempre muito difícil lidar com a política. Acho que muitas empresas e governos deveriam ter um chief scientific officer [cientista-chefe que oferece aconselhamento especializado aos governantes ou executivos]. A ciência não pode ser um problema dos outros. Tem de envolver a todos. Com a pandemia, os leigos estão mais interessados na ciência. Temos de usar isso para torná-los parte da solução e não do problema. Em nosso centro, fizemos um vídeo chamado Beautiful science, com a participação de Andrea Bocelli, para inspirar o interesse pela ciência.

Seu grupo está trabalhando com o novo coronavírus?

Tem uma iniciativa denominada Convergência Covid que conta com um grande grupo de colaboradores multidisciplinares que está estudando como usar big data contra a pandemia. Estamos trabalhando mais com os números do que com o vírus.

Como a área de big data pode ser uma aliada no controle de pandemias?

A big data tem uma capacidade computacional extraordinária, que pode nos ajudar a produzir diagnósticos e vacinas. Temos de usar esses recursos, ainda que as pessoas reclamem da invasão de privacidade de grandes empresas como Google ou Amazon. Precisamos lutar para que haja uma plataforma aberta com todos esses dados para que os cientistas possam olhá-los de forma coletiva. Isso não será para essa pandemia, mas para a próxima. Certamente há formas de rastrear epidemias. Na atual pandemia, estamos perseguindo o vírus. O ideal é antecipar seus movimentos. Não é um sistema que pode ser gerenciado de forma separada por cada país. Não precisamos de competição nessa área, mas de mais colaboração para alocar todos os recursos necessários. Por maior que seja, um país não significa nada e ele se beneficiará da informação gerada por outros países em situação similar. É uma tarefa para uma organização supranacional, como a Organização Mundial da Saúde [OMS].