Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

O vigor e a competência

Publicado em 18 setembro 2018

Por Sérgio A. M. Carbonell, Antonio Batista Filho, Renata Helena Branco Arnandes

Você que nos lê, hoje tomou café com leite e comeu pão ou fruta. Se ainda não se alimentou, está vestindo roupa de algodão ou usou veículo abastecido com etanol. Como em todos os dias, você está em contato com algum produto elaborado com matérias-primas que vêm das lavouras. Pela presença constante e a relevância que tem, o agronegócio é o setor que alimenta a população e sustenta a economia nacional.

O alicerce desse sólido segmento está nas instituições de pesquisa, onde são desenvolvidas tecnologias. Há mais de um século os institutos paulistas têm atuado ativamente em prol do agro paulista e brasileiro. Há dificuldades sim, como em todas as instituições brasileiras que amargam em uma crise sem precedentes. Porém, nada tem a ver com “inanição”, como o professor Ciro Rosolem, autor do artigo intitulado “Competitividade e pesquisa”, publicado neste jornal , em 12/09/2018, se refere ao Instituto Agronômico (IAC), Instituto Biológico (IB), Instituto de Economia Agrícola (IEA) e Instituto de Zootecnia (IZ). O termo “ativo” consta entre os antônimos para a palavra “inanição”. Como cientistas que somos, vamos retratar com números a real situação.

Em 2018, IAC, IB, IZ e Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) foram contemplados com R$ 49,765 milhões da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) por meio de chamada exclusiva para os 20 institutos de pesquisa paulista. A Fapesp disponibilizou R$ 120 milhões para atender as propostas. Cerca de 40% desse recurso serão empregados no IAC, IB, IZ e ITAL, que enviaram um plano de desenvolvimento avaliado com todo o rigor da Fundação. No biênio, 2016/2017, o orçamento para os institutos mencionados acima, somados ao do Instituto de Pesca (IP) e ao dos Polos Regionais, todos coordenados pela Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), foi de R$ 596 milhões.

O impacto econômico de parte das tecnologias desenvolvidas no período gerou nas cadeias de produção que as adotaram R$ 10,9 bilhões. Isso significa mais renda e emprego graças às tecnologias desses institutos que estão em pleno “vigor”, outro antônimo de “inanição”. Tudo isso, apesar das dificuldades e restrições sim, porque elas existem, mas não são impedimentos para manter a excelência científica e a credibilidade junto aos setores de produção. Em 2017, 23,4% do orçamento desses institutos vieram de recursos privados. Este índice é equiparável às universidades americanas e muito superior ao alcançado pelas brasileiras e pela Embrapa. Ninguém investe naquilo que está prestes a acabar.

Os institutos da APTA reúnem 220 normas e procedimentos acreditados pelo INMETRO e credenciados pelo MAPA. São realizadas mais de 350 mil análises laboratoriais por ano, que aliadas à venda de insumos, como as mais de um milhão de doses de sêmen de touros melhorados geneticamente pelo IZ, as 450 toneladas de sementes básicas do IAC e as 60 mil borbulhas de citros, foram responsáveis pela arrecadação de R$ 27,502 milhões no biênio 2016/2017, valor 38% superior a 2014/2015. Soma-se a esses serviços, a produção de imunobiológicos pelo IB, usados no diagnóstico de brucelose e tuberculose, que deve bater recorde de produção neste ano, distribuindo para todo o setor 3,8 milhões de doses. O IB trabalha para triplicar sua produção, já que é a única instituição brasileira autorizada a produzi-los. Sem eles não é permitida compra, venda, trânsito e exportação de bovinos. Acrescenta-se a assessoria do IB na implantação e manutenção de biofábricas, empresas que produzem organismos usados no controle biológico de pragas e doenças.

Ao todo, 14 biofábricas assinaram contrato com o Instituto em 2016/2017. Isso sem contar as informações estatísticas levantadas pelo IEA, que coleta preços médios nos 645 municípios do Estado, caso único no País. Com essa informação, a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo obtém anualmente mais de R$ 2 bilhões em Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação e o governo federal arrecada montante similar em Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR). Com relação à formação de recursos humanos, esses institutos também trazem grande contribuição com seus cursos de pós-graduação. No biênio 2016/2017, 108 mestres foram formados na Pós-Graduação do IAC, IB, ITAL, IP e IZ e outros 42 doutores se formaram no IAC e IB. Neste ano, são 218 alunos matriculados, oriundos de diversos estados e até mesmo do Exterior. Não se trata de negar a existência de necessidades de aporte material e humano. Todos nós reiteramos a expectativa de ampliar nossas equipes e modernizar cada vez mais as estruturas.

Entretanto, referir-se a esses institutos como se estivessem “deixados a morrer de inanição”, quando os fatos comprovam o contrário, constitui falta de responsabilidade – por ofender a imagem dessas instituições que circulam nos setores do agro e se comprometem com os diversos elos das cadeias de produção. Carrega ainda um desrespeito com esses institutos responsáveis pelo suporte tecnológico que faz da agricultura paulista a mais eficiente do Brasil. Reconhecemos a história e atuação do professor Rolosem e por isso deixamos o convite para que visite as unidades para ver de perto que por aqui vibra a paixão pela ciência e são fartos os frutos de instituições que não perdem o vigor. Estendemos o convite a outros profissionais, que muitas vezes fazem críticas por meio da imprensa, mas que pouco conhecem de fato ou há muito não visitam e veem de perto nosso trabalho.

Sérgio A. M. Carbonell, diretor-geral do IAC; Antonio Batista Filho, diretor-geral do IB; Renata Helena Branco Arnandes, diretora-geral do IZ