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O vento dos buracos negros

Publicado em 26 junho 2017

É verdade que tudo que envolve buracos negros chama a atenção da população, seja dos mais aficionados por astronomia e física, seja pelo interesse ingênuo do público em geral. De qualquer forma, todos nós temos aquela imagem presa no fundo da cabeça quando ouvimos ou lemos alguma coisa que trate sobre buracos negros, não é? Imaginamos aquela coisa monstruosa sugando tudo que existe por perto. Pois então, não é bem assim que as coisas funcionam…

Isso é o que indica o estudo dos astrônomos brasileiros João Steiner e Daniel May, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências atmosféricas da Universidade de São Paulo. O estudo publicado na revista inglesa Monthly Notices of the Royal Astronomical Society aponta que, aquilo que acreditamos não é, de fato, como ocorre com os buracos negros. O que sucede, na realidade, condiz com a expulsão de boa parte do gás que está no centro das galáxias, ao invés da absorção por parte dos buracos negros.

O processo pelo qual este efeito é causado, até então, não era bem conhecido, entretanto já se sabia que os buracos negros que estão no centro de galáxias de grande porte, ou seja os supermassivos, emitem enormes rajadas de vento. O vento em si, até agora, permanece em estudo.

O trabalho realizado pelos cientistas contou com o apoio da Fapesp e utilizou o auxílio dos telescópios VLT e Gemini Norte para estudar a galáxia mais brilhante e a primeira com núcleo ativo – a NGC 1068.

Segundo a pesquisa, o vento se origina a partir de duas fases. Na primeira, o processo se desenvolve no disco de matéria que envolve o buraco negro – onde a radiação eletromagnética é de tamanha força que evapora a poeira de até 3 anos-luz de distância dali. Esta primeira fase cria um vento primário cuja característica é a aceleração por parte do gás. A segunda fase consiste entre a interação desse vento com um jato de partículas que são arremessadas pelo campo magnético central com uma grande nuvem de gás molecular que fica no centro da galáxia, a cem anos-luz do buraco negro. Nasce, então, o vento térmico, que é capaz de arrastar o gás até regiões mais distantes.

Os estudiosos ainda descobriram que o vento sopra seguindo o formato de uma ampulheta. Esse novo descobrimento consegue amparar a lacuna que existia no entendimento de como se processava a formação das galáxias.

Em entrevista ao jornal O Globo, João Steiner frisou: “O mecanismo e a localização exata [do vento] não era conhecida, este trabalho mostra isso pela primeira vez”. É claro que toda essa violenta expulsão gasosa traz consequências à galáxia hospedeira: conforme é arremessado para longe, o gás uma hora “acaba”, fazendo com que o buraco negro pare de brilhar e impedindo o nascimento de novas estrelas.

Após dezenas de milhões de anos, o gás pode retornar e recomeçar o ciclo. “É isso que faz com que os buracos negros e as galáxias coevoluam, um influencia a forma e o ritmo como o outro evolui”, disse Steiner. Explicar o mecanismo por trás do processo é importante para entender melhor a evolução tanto das estrelas quanto das galáxias.

Referência para o Post:

http://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Espaco/noticia/2017/06/astronomos-da-usp-decifram-como-se-forma-o-vento-dos-buracos-negros.html