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"O uso do .br é uma marca de identificadora da comunidade brasileira na rede e é de modelo a seguir", Demi Getschko

Publicado em 01 julho 2008

Por Rafael Abraham

Na linha de frente da internet no Brasil desde os princípios acadêmicos, o diretor do Núcleo de Informação e Coordenação (NIC.Br) faz um balanço da rede no Brasil e aponta rumos para o crescimento

Se, no Brasil, a internet tivesse um botão de liga/desliga, Demi Getschko seria quem poderia acioná-lo. Ou, pelo menos, é o que se diz deste carismático engenheiro eletricista formado pela Escola Politécnica da USP e que, atualmente, é o diretor do NIC.Br (Núcleo de Informação e Coordenação .Br), entidade executora do Comitê Gestor da Internet no Brasil e que cuida dos domínios com.br e da distribuição de endereços IP para o País.

Exageros à parte, a brincadeira ilustra a importância que este italiano de nascença que chegou ao Brasil em 1953, com apenas um ano de idade, teve — e continua tendo — na evolução da Internet brasileira. Demi fez parte do grupo da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo — Fapesp que, a partir de 1985, desenvolveu os primeiros núcleos de conexão a redes do Brasil, inicialmente voltadas para meios acadêmicos. É também membro do Internet Corporation for Assigned Nomes and Numbers — ICANN, organização multilateral que gerencia a atribuição de endereços IP no mundo.

E, talvez por isso, seja também considerado um dos pais da internet no Brasil. “Não é nada disso!”, protesta, veemente. “Apenas estive presente nas primeiras conexões junto com colegas da área acadêmica. Sou o administrador do .br desde quase a origem e isso me leva a ter ligações fortes com a rede, mas ela é uma criação coletiva.” Para Demi, o mais interessante sobre a rede é a capacidade que ela tem de assimilar novas ondas de usuários e, ao mesmo tempo, manter suas características originais de abertura, liberdade e inclusão — “e até de software livre”. Em 1991, os primeiros pacotes TCP/IP, as bases da Internet, começaram a circular pelo País. E, a partir de 1993, os protocolos de html e http revolucionaram ao possibilitar a existência da World Wide Web. “Essa foi a grande guinada. Daí pra frente esses conceitos originais da rede foram reforçados e, de alguma forma, revistas quando se criam blogs, wikis e expõem-se idéias. É a manutenção do seu rumo original.”

Evolução gradual

Para Demi, um dos pontos-chave da Internet no Brasil foi a política de registros de domínio. “O com.br sempre tentou se equilibrar entre quem é extremamente ‘comercial’, que quer vender domínios para angariar fundos, e quem é protecionista em excesso, que só quer deixar registrar quem tenha uma marca equivalente ou coisa assim. O .br sempre tentou ser mais fechado e contido que os domínios genéricos, mas também não tão fechado a ponto de assustar os registrantes brasileiros”, justifica.

“Inicialmente, vimos que haveria grande risco de roubo de nomes, então abrimos o .br só para um domínio por pessoa jurídica, em 1996. Durante muito tempo ouvimos criticas por isso. Depois, abrimos para dez domínios por CNPJ, depois para infinitos por CNPJ, e agora para CPF. O porquê dessa gradação? Para garantir que, hoje, alguém que tenha um nome importante estando no Brasil já o tenha registrado. Demi diz que é interessante, tanto para o Comitê Gestor quanto para a internet brasileira, que se continue fazendo forte uso do .com.br. “I sso identifica uma comunidade brasileira na rede que, modéstia à parte, funciona bastante bem e é um modelo para diversos países.”

Um IP para cada célula do corpo

Muito se fala da “transição” da atual versão do protocolo IP, a IPv4, para a nova, a IPv6. “A primeira coisa é que não se deve falar em transição. Ninguém vai abandonar a v4. As novas alocações serão feitas em v6. Se tudo ocorrer bem, as aplicações do IPv4 também funcionarão no IPv6”, explica Demi. Com a nova versão 6, cerca de 1 setilhão (1 seguido de 24 zeros) poderão ser atribuídos a cada metro quadrado do planeta.

“É por aí. O que a v6 garante é que o espaço de numeração não será esgotado. Você pode ter um endereço IP para cada célula do seu corpo. É como se os números de telefone passassem de 8 para 16 dígitos”, compara. “Mas isso não quer dizer que o sistema de telefonia vá funcionar bem, ele depende de infra-estrutura. O IPv6 é a sobrevida do ponto de vista numérico, enquanto a banda passante é sobrevida do ponto de vista de infra- estrutura. As duas coisas devem acontecer para que a internet continue a crescer.”

Sobre a infra-estrutura, o vice-presidente de assuntos regulatórios da AT&T, um Cicconi, disse recentemente, no Westminster E-forum de Londres, que a internet poderia entrar em colapso em 2010 por causa de sua atual estrutura. Demi discorda. “Os riscos foram maiores quando a www começou a funcionar. De repente, uma rede pensada para texto e correio eletrônico passou a ter imagem. Por sorte, ou melhor, por avaliação errada, as estruturas não falharam e acabaram funcionando bem”, observa. “Agora estamos indo da imagem para o vídeo, talvez seja uma nova transição de algumas ordens de grandeza a mais de banda - mas o que temos visto é, primeiro, que os protocolos TCP/IP são extremamente robustos, agüentam velocidades numa faixa extremamente ampla e têm se comportado bem em velocidades muito altas; segundo, a oferta de banda tem crescido de tal forma que acho que teremos a quantidade necessária antes mesmo das aplicações que necessitem dela. Mas é só um chute”, arrisca.

Mais do que nomes e números Demi acredita que é fundamental e de extrema importância que os países colaborem entre si para que haja mais segurança no ambiente online. “Quando se fala em governança de rede, sempre pensamos em nomes e números, em estruturas básicas. É muito mais do que isso. Combate ao ‘cibercrime’ e a coisas como spam, fraudes ou vírus é fundamental. Se você tem 80% de países impedindo certa coisa e 20% permitindo, é para lá que irão todos os servidores daquela coisa que os países não querem, e não há muito o que fazer. Ou se organiza um esquema em que todos os países entrem em acordo e se coordenem para as coisas que são definitivamente inadequadas, ou teremos para sempre essa possibilidade de elisão das fronteiras geográficas.” No entanto, há um lado positivo. “Teremos uma nova realidade e sociedade com novos serviços, em que talvez o fator regional seja menos importante. Por outro lado, poderemos ter problemas e ameaças ao cidadão comum, que poderão ser combatidos quando houver um acordo onde serão tratados uniformemente do ponto de vista mundial”, prevê. “O que alerto sempre é que se evite onerar a rede com isso, a rede não tem culpa de nada e não é imputável pelos crimes que ocorrem nela. A rede é um ambiente como o ar, o mar e a terra, ela não é culpada pelos crimes que acontecem sobre a sua superfície. Os verdadeiros culpados é que devem ser penalizados, não a rede”, avalia.

Inclusão digital

Em dezembro de 2007, num plano ambicioso de inclusão digital, a Anatel determinou que todos os municípios brasileiros deverão ter acesso à banda larga até 2010. “O Comitê Gestor discute isso nesse instante. Em si é uma coisa positiva, mas que pode ter alguns efeitos colaterais indesejáveis”, adverte. “Precisa ver se isso gera ou não competição no mercado. A inclusão digital depende muito do mercado. A internet no Brasil prosperou até porque ela foi considerada uma atividade de valor adicionado e não regulada pelo mercado de comunicações.

“A Anatel nunca regulou a internet, e isso permitiu que provedores se estabelecessem em qualquer buraco do País e fizessem um serviço de inclusão digital importante”, analisa. “Quando a Anatel fala em prover banda, eu acho ótimo. Quando fala em promover IP em diversas cidades, acho que mistura conceitos. IP é um valor adicionado, e a Anatel não deveria se preocupar com IP, mas sim com banda e com acesso de telecomunicações. Mas é algo positivo. Há muito dinheiro do FUST (Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações) que, se aplicado, pode melhorar muito a inclusão dos brasileiros”. Pelo cronograma, 20% das cidades deveriam ser atendidas até o mês passado. Segundo a Anatel, a marca atingiu os 38%, ou 2.125 do total de 5.564 municípios.

O único alerta é para que não se estabeleçam monopólios que tirem a riqueza do cenário de competição. “A internet deve permanecer como atividade não regulada. A medida vem no sentido correto desde que não afete esses conceitos de competitividade e não regulação que a internet tem e deve preservar.”