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Folha de Londrina online

O trauma através do tempo

Publicado em 24 novembro 2016

Eugênio Canesin Dal Molin: "Muitas vítimas de abuso sexual ou de regimes repressivos, ao relatarem o que passaram, escutam que "nada aconteceu" ou que "devem estar enganadas"

 

O trauma é um tema recorrente na psicanálise e permeia nosso cotidiano quando, por exemplo, temos notícia de acidentes e violências de toda sorte que dão ideia da vulnerabilidade que vivenciamos em tempos de catástrofes coletivas e crises individuais. O psicanalista londrinense Eugênio Canesin Dal Molin fez do assunto o tema de um livro que será lançado em Londrina, no próximo sábado (26), em sessão de autógrafos das 18 às 21 horas, na Livraria da Vila, no Aurora Shopping. O livro também terá lançamento em São Paulo, no dia 30, na Livraria da Vila da Alameda Lorena.

 

"O Terceiro Tempo do Trauma: Freud, Ferenczi e o desenho de um conceito" foi publicado pela Editora Perspectiva e integra a série "Estudos". Dal Molin fez uma pesquisa rigorosa, utiliza linguagem acessível e exemplos da literatura que contemplam não só os psicanalistas como o público em geral. Entrelaçando momentos e histórias, ele parte do diálogo de Sigmund Freud e Sándor Ferenczi sobre os soldados traumatizados na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e chega aos dias de hoje considerando, inclusive, casos clínicos sob sua responsabilidade.

 

O autor tem formação psicanalítica no Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. O livro é produto de sua dissertação de mestrado defendida na USP, onde recebeu bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), atualmente ele faz doutorado na mesma universidade. Em entrevista à Folha 2, ele explica o trauma como um conceito central para nossa compreensão do mundo.

 

Qual a importância de abordar o trauma, tema caro a Freud, nos dias de hoje? Por quais caminhos ou situações do cotidiano o tema passa na atualidade sob o ponto de vista psicanalítico e social?

 

O trauma é um conceito central para a compreensão do modo como reagimos ao mundo. E o mundo nos oferece com grande frequência experiências que ou são traumáticas assim que ocorrem, ou tornam-se traumáticas mais tarde, quando damos algum significado a elas. As experiências durante a guerra podem ser traumáticas, mas também os acidentes, as violências, a humilhação, tudo aquilo que não conseguimos representar e integrar em nossa vida mental. Precisar fugir de seu país de origem deixando tudo para trás, como toda uma população tem feito, é uma experiência traumática; mas também podem ser traumáticas as experiências mais cotidianas de dor, susto e desamparo. O trauma funciona como elemento-chave para entender a relação que temos com a realidade da vida.

 

A partir do próprio título o livro aborda o trauma através do tempo em "três tempos". O que isso significa?

 

Freud propôs duas grandes teorias sobre o trauma, mas deu atenção aos aspectos intrapsíquicos da experiência traumática: como ela se monta no psiquismo e quais seus efeitos. Em sua obra encontramos o trauma decomposto em um ou dois tempos. Um de seus seguidores, talvez o mais talentoso clínico de seu meio, o húngaro Sándor Ferenczi, compreendeu que um momento fundamental na formação do trauma ocorre exatamente no período que se segue à experiência, quando tentamos elaborá-la. Para fazê-lo, voltamo-nos ao mundo externo, a uma pessoa de confiança, em busca de elementos que deem sentido ao que aconteceu. E muitas vezes não os encontramos ou, o que é pior, a própria experiência que vivemos não é reconhecida pelos outros como válida ou real. Aqui ocorre um novo traumatismo, que aprofunda o anterior e amplifica seus efeitos. É este tempo, o terceiro a ser descoberto pela psicanálise, que procuro explicitar, porque também é nele que estão as mais amplas possibilidades terapêuticas.

 

Tornam-se cada vez mais comuns os relatos sobre a violência. O abuso sexual na infância tem vindo à tona até mesmo em depoimentos de pessoas famosas como Rita Lee, que acaba de lançar uma autobiografia em que relata um abuso sofrido aos 6 anos de idade. Este tipo de denúncia, em nível público, além de alertar sobre os riscos, também ajuda na superação do trauma sob o ponto de vista individual?

 

Sim, desde que forneça, ao indivíduo, um reconhecimento da situação de violência. A sociedade aqui funciona como a pessoa de confiança que valida a experiência e pode fornecer elementos para a elaboração individual. Noutro extremo, por exemplo, encontramos pessoas que sofreram violências e não têm suas experiências reconhecidas pela sociedade, e permanecem fixadas ao trauma, sem poder elaborá-lo. É o caso de muitas vítimas de abuso sexual, e também é o caso das vítimas e familiares de vítimas de regimes repressivos, que ao relatarem o que passaram, escutam que "nada aconteceu" ou que "devem estar enganadas".

 

Que tipo de experiência clínica você tem com estes casos de violência doméstica e abusos de toda ordem? Fale um pouco do seu trabalho.

 

Ainda na faculdade, em Londrina, comecei um estágio no então programa Sentinela (hoje CREAS), coordenado por Télcia Lamônica e sob a supervisão de Cristina Fukumori e Sheila Prado. Precisavam de um psicólogo para atender um grupo de adolescentes que haviam abusado sexualmente de crianças. Comecei com o grupo e pouco tempo depois atendia, individualmente, os agressores e as vítimas. Minha experiência com casos de violência começou assim, e depois continuou em outras instituições. Ainda hoje no consultório, vez ou outra, tanto em Londrina como em São Paulo, recebo pacientes que viveram essas situações. Mas cabe lembrar que o trauma, como a miséria da vida, tem outras caras que não a do abuso e a da violência, e que a psicanálise é indicada para elas também.

Reprodução

SERVIÇO

Lançamento: "O Terceiro Tempo do Trauma: Freud, Ferenczi e o desenho de um conceito"

(Editora Perspectiva), de Eugenio Canesin Dal Molin

Local: Livraria da Vila - Aurora Shopping (Av.Ayrton Senna da Silva, 400 - 2º piso)

Data: sábado (26)

Horário: das 18 às 21 horas

Preço médio: 58,00