Notícia

Além da Mídia

O Trabalho Associado diante da crise do desemprego

Publicado em 27 novembro 2015

Por Henrique Tahan Novaes

A Folha de São Paulo anunciou neste sábado que o Brasil teve o maior desemprego desde 1999, cerca de 1 milhão de postos de trabalho queimados em 12 meses. A questão a ser colocada é se haverá uma nova oportunidade para o crescimento do Trabalho Associado num contexto de forte desemprego e se repetiremos os mesmos erros dos últimos 20 anos.

Nos anos 1980, no contexto das lutas pela democratização do país e dentro de um cenário de aumento do desemprego e da pobreza no país, surgiram muitas cooperativas e associações estimuladas pelas Comunidades Eclesiais de Base, Pastorais, pelo Movimento Sem-Terra, mutirões habitacionais, dentre outros.

Nos anos 1990, surgiram as Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores principalmente no Brasil, Argentina e Uruguai. Em função da abertura comercial e valorização do câmbio, muitos trabalhadores ocuparam as antigas fábricas, reivindicaram os meios de produção e novas formas de trabalho, de decisão coletiva, além de outras formas de remuneração em alguma medida distintas da forma salarial.

É também nos anos 1990 que há um crescimento das cooperativas e associações populares urbanas nos ramos da alimentação, têxtil, etc. além das cooperativas e associações de catadores. É nos anos 1990 que Fernando Henrique Cardoso criou uma espécie de “cooperativismo salve-se quem puder”, para tentar amenizar as taxas de desemprego e a explosão social. Nos anos 2000, com o surgimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a entrada da Economia Solidária no Projeto Brasil “Sem Miséria” (Governo Dilma), há um forte atrelamento das políticas de cooperativismo e associativismo com a política de geração de renda e trabalho.

No plano municipal, um bom exemplo disso são as políticas de geração de trabalho e renda acopladas a políticas de qualificação nas cidades de São Paulo e Osasco. Evidentemente que estas políticas fracassaram, pois não é possível montar uma cooperativa a toque de caixa e muito menos na fila dos desempregados que saem em busca de uma qualificação ou de uma oportunidade de emprego.

No campo, se por um lado o PAA dinamizou muitos assentamentos através da compra direta da produção, por outro lado criou uma visão utilitarista e economicista do cooperativismo e associativismo. Em alguns assentamentos é possível encontrar mais de 10 associações de produtores!

Com o crescimento da economia, leve recomposição do salário mínimo e geração de mais de 15 milhões de empregos nos últimos 10 anos, felizmente o Trabalho Associado deixou de ser a solução imediatista do “salve-se quem puder” que muitos políticos esperavam.

Ao contrário do que muitos previam, não é verdade que o crescimento da economia fez desaparecer o Trabalho Associado. Também não é verdade dizer que haverá uma total migração dos desempregados para o Mundo do Trabalho Associado. No entanto, como estamos vivendo no mundo todo uma crise estrutural do capital, que não é mais capaz de gerar emprego para todos e que traz inúmeros problemas ambientais, o Mundo do Trabalho Associado veio para ficar. Ele cresce a taxas lentas em função da enorme ofensiva do capital que praticamente dá as rédeas do capitalismo mundializado. Agora, fica a pergunta, com o nítido aumento do desemprego, será que o Mundo do Trabalho Associado será chamado novamente como tábua de salvação?

A construção de uma economia comunal, totalmente desmercantilizada, voltada para a satisfação das necessidades humanas é urgente. Ela já está na agenda de alguns movimentos sociais anticapital na América Latina, e certamente ultrapassa as fronteiras do debate do crescimento versus ajuste da última década.

*Henrique Tahan Novaes – Docente da UNESP Marília. Autor dos livros “O Retorno do caracol à sua concha – alienação e desalienação em cooperativas e associações de trabalhadores” (Expressão Popular, 2010) e “O Fetiche da tecnologia –a experiência das fábricas recuperadas” (Expressão Popular/Fapesp, 2010, 2ª Edição)