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O tempo e o clima no extremo

Publicado em 19 maio 2009

O doutor em meteorologia Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, afirma que os extremos de tempo e clima serão cada vez mais extremos. Os anos chuvosos terão dias com enxurradas agora sempre mais comuns e as secas serão ainda mais agressivas. A explicação mais plausível, segundo ele, é mesmo o aquecimento do planeta

Por que tanta chuva tão intensa no Nordeste? E tanta seca na região Sul? Rajadas de vento de enseada em pleno Centro de São Paulo? O que é tudo isso que está acontecendo com o tempo e o clima no Brasil? No cenário nordestino, o fenômeno assusta, desabriga, encobre de água as ruas e a caatinga, transborda reservatórios e mata. O sertanejo usa sua lógica, diz que é coisa de Deus mesmo. A ciência prefere a ciência, vai buscando explicações. Para o doutor em meteorologia Carlos Nobre, pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a situação de agora não será única. Acontecerão outras e maiores, mas ainda não é possível prever quando. Segundo ele, chuvas assim vão se repetir cada vez mais e poderão ser mais fortes ainda.

A melhor explicação para essa temporada de enchentes, explica Nobre, tem sido o aquecimento global. Os extremos serão agora sempre mais extremos. A aferição disso tem sido dias de chuva cada vez mais torrenciais, mesmo que sejam num menor número de dias no ano. Ou mesmo que o volume total não passe nem das médias históricas de chuvas. O pesquisador garante que a causa disso é, sim, a temperatura do planeta. “O planeta mais quente terá chuvas muito intensas. Pode até ser que num local não chova muito, mas a chuva virá sempre de uma forma mais intensa”.

Outras duas variáveis foram determinantes para as chuvas nordestinas de 2009. A do esfriamento das águas do Pacífico (La Niña) e o aquecimento do Atlântico (El Niño) bem em frente à costa leste e norte do Nordeste do Brasil. Os dois fenômenos vieram quase ao mesmo tempo e sustentam, desde então, uma formação de nuvens pesadas (Zona de Convergência Intertropical - ZCIT) principalmente sobre os Estados do Ceará, Piauí, Maranhão e parte da Amazônia.

Carlos Nobre alerta que as prefeituras podem prestar um pouco de atenção nas previsões meteorológicas e usá-las para planejar as cidades ou antecipar ações anticalamidade através das Defesas Civis. “A informação existe, precisa ser utilizada”, dá a bronca. Porque chuva intensa é sinal quase sempre de muito problema. No Inpe, Nobre coordena as pesquisas do novo Centro de Ciência do Sistema Terrestre, em São José dos Campos (SP). Também preside o Comitê Científico do Internacional Geosphere-Biosphere Programme (IGBP) e estuda mudanças climáticas do Brasil e do planeta por diversas instituições e entidades. A seguir, os principais trechos da entrevista:

O POVO - Por que as chuvas foram tão intensas no Nordeste este ano?

Carlos Nobre - Este ano, as condições que trazem as chuvas principais de inverno no norte do Nordeste estiveram presentes favoravelmente. Tanto a influência do oceano Pacífico como do Atlântico. Quando isso acontece, temos como comparar com alguns eventos do passado, como 1974, 1985, 1989, 2004. Os dois oceanos estão em condições que favorecem o estacionamento das chuvas de inverno durante um período prolongado, normalmente até começo de junho. Estas condições estão colocadas este ano novamente.

OP - É o aquecimento das águas aqui no Atlântico e o resfriamento no Pacífico.

Nobre - É. O Oceano Atlântico ao Sul do Equador, exatamente na costa Leste e Norte do Nordeste, está mais quente (fenômeno El Niño). E também há uma parte do meio para o fim do fenômeno La Niña no Pacífico associado a mais chuva no norte do Nordeste, apesar de que ele sozinho não explicaria essa intensidade. Se fosse só o La Niña, poderia ter chuvas acima da média, mas não explicaria esse máximo, então o Atlântico nesse caso é muito importante. Eu diria até que é o fator mais importante e determinante. Mas recordes (de volume de chuva) como esses que estão acontecendo não podem só ser explicados por essas ocorrências dos oceanos. Estamos falando de chuvas que estão entre as cinco de maior volume dos últimos anos registrados. Há outros fatores que ainda não temos o entendimento perfeito, apurado cientificamente, de por que em alguns anos que esses dois fatores possam estar presentes e as chuvas serem acima da média, mas em outros anos elas são excepcionalmente muito acima da média também com esses fatores presentes. Há outros elementos que ainda não conseguimos identificar.

OP - Então essa intensidade está sendo uma incógnita até para vocês?

Nobre - Que as chuvas seriam acima da média, isso foi dito em janeiro. Que estariam entre as mais notáveis enchentes dos últimos anos, isso não. A gente consegue prever chuvas acima da média, tendência de chuvas acima ou abaixo, mas temos muito mais dificuldade de prever extremos.

OP - O aquecimento global também é uma explicação neste momento?

Nobre - O que o aquecimento global indica é que conforme o planeta for ficando mais quente, os fenômenos extremos vão se tornando mais extremos. Tanto as secas quanto as inundações. Que o aquecimento global já está começou, não há dúvida. O planeta está quase um grau centígrado mais quente do que 100 anos atrás. Mas que alguns desses extremos que observamos já são efeito do aquecimento global, a intensidade, acho que para isso ainda não temos condições de afirmar que, se o planeta não estivesse aquecendo, as chuvas do norte do Nordeste de 2009 seriam tantos por cento menores. Que elas seriam ainda acima da média, mas não tão acima da média, isso não podemos dizer ainda. Porque precisamos ver a repetição de vários desses episódios. Se eles se repetirem nos próximos anos ou décadas, aí falaremos que mudou a característica. Que isso não acontecia 50 anos atrás, está acontecendo e provavelmente tem a ver com o aquecimento global. E o que já podemos dizer? O planeta mais quente terá chuvas muito intensas. Pode até ser que num local não chova muito, mas a chuva virá sempre de uma forma mais intensa.

OP - Vocês estão prevendo muito mais repetição dessa intensidade?

Nobre - As chuvas fortes acontecerão mais vezes. Isso não significa que o total do volume de chuva anual possa ser maior. A chuva acontecerá de forma mais intensa. Isso já está acontecendo onde temos bons dados, que é no Sul e parte do Sudeste do Brasil. Infelizmente, não temos ainda observações muito boas por todo o País. Em parte do Nordeste, sim. Há alguma evidência de que as chuvas mais intensas já estão acontecendo em parte do Nordeste, por exemplo aí no Ceará.

OP - Vocês do Inpe têm dados do Ceará?

Nobre - Temos algumas análises. A Funceme tem alguns dados que podem indicar que o número de dias com chuvas muito intensas, que registram mais de 50mm ou 100mm, está crescendo. É só comparar nos anos 1950, 1960, quantos dias chovia acima de 50mm em vários lugares do Estado, e quantos dias na última década. Em geral no Brasil, ou pelo Sul-Sudeste que já temos esses números, o total de dias com chuvas intensas tem aumentado. Se isso acontece, aí sim, é uma resposta do aquecimento global. Ele faz com que os episódios de chuva sejam mais intensos, até mesmo onde o volume de chuva anual não mudou. A chuva vem diferente, em menor número de episódios, mas mais intensa. E chuva mais intensa está relacionada com inundação, deslizamento de encostas, coisas não tão comuns no Nordeste. Na Amazônia e no Nordeste não temos ainda estudos que nos permitam dizer que os dias com chuvas acima de 50mm hoje acontecem mais do que 50 anos atrás.

OP - Então, onde há estudos feitos e as chuvas acima de 50mm acontecem cada vez mais, a causa é o aquecimento?

Nobre - A melhor explicação é o aquecimento global.

OP - A meteorologia é uma área de pesquisa considerada por prefeituras de cidades pequenas, no próprio planejamento urbano e na orientação para os riscos de calamidade?

Nobre - A projeção climática do Inpe feita em janeiro e fevereiro, também a da Funceme, as duas indicaram chuvas acima da média. A previsão ainda não consegue indicar se, por exemplo, o ano será o mais chuvoso dos últimos 30 anos. Não conseguimos isso ainda. É bom informar à população que a ciência não avançou para poder fazer assim. Mas a informação que as chuvas seriam acima da média já é muito importante. Por várias razões e principalmente no Interior. Por exemplo, com chuvas acima da média a gente já sabe que os pastos vão estar muito visçosos e isso implica na produção leiteira e na pecuária. Em geral, em lugares que não são inundados nas margens dos rios, a chuva está associada com o aumento da produção agrícola. Ela enche os açudes. As inundações prejudicando dezenas de milhares de pessoas no Nordeste são um desastre natural, mas há o outro lado da moeda, que é a produção pecuária e leiteira acentuada este ano no Nordeste. Havendo a informação de que as chuvas pode estar acima da média, a Defesa Civil deve se prevenir. Porque em região semiárida, chuvas intensas logo se convertem em invasões dos rios intermitentes, que não correm o ano todo. Mas quando a chuva vem, a água vai rapidamente para os rios. Não é incomum chuvas intensas se transformarem em inundações graves. Quando a previsão é de chuvas acima da média, a Defesa Civil tem que se precaver porque pode acontecer inundações localizadas ou até mesmo generalizadas, como este ano. A melhor maneira da Defesa Civil atuar é, em função de uma boa previsão climática, ela estar sempre muito alerta. Não pode desconsiderar a possibilidade de um extremo vir a acontecer, como agora. A previsão de tempo no Brasil, com três, quatro, cinco dias de antecedência, é muito boa. A Defesa Civil e os municípios, pequenos, grandes ou médios, têm que utilizar.

OP - As cidades devem ser planejadas para o risco desses momentos extremos de tempo e clima, que cada vez mais vão se repetir?

Nobre - O aquecimento global mostra que esses fenômenos vão se repetir mais vezes e com mais intensidade no futuro. Todas as Defesas Civis, estaduais e municipais, as prefeituras, os órgãos de planejamento ou agrícolas, de assistência social, usam essa informação diariamente. Tem que ser uma coisa natural, buscar esse dado. A informação existe, precisa ser utilizada.

 

QUEM É

Carlos Afonso Nobre Graduado em Engenharia Eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA-1974), doutor em Meteorologia pelo Massachussets Institute of Technology (1983). É pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e já coordenou no órgão o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), de 1991 a 2003. Atualmente preside o Comitê Científico do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP) e coordena o Centro de Ciência do Sistema Terrestre, também no Inpe. É ainda secretário executivo da Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas (Rede Clima) e coordenador executivo do Programa Fapesp de Pesquisas em Mudanças Climáticas Globais. Entre suas principais áreas de estudo (Geociências, com ênfase em meteorologia) estão: ciências atmosféricas, clima, meteorologia, Amazônia e modelagem climática, interação biosfera-atmosfera e desastres naturais. Foi um dos autores do Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) que, em 2007, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, juntamente com o ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore.