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O SUS pode adotar um novo tratamento para o câncer de pele | EXAME

Publicado em 05 abril 2019

Por Elton Alisson, de São Carlos, da Agência FAPESP

Pacientes com câncer de pele não-melanoma pode contar, em breve, com uma nova tecnologia para não-invasiva de tratamento deste tipo de tumor de pele, o mais frequente no Brasil e no mundo.

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos, Universidade de São Paulo (IFSC-USP) desenvolveu, nos últimos anos, um dispositivo para o diagnóstico e tratamento óptico de câncer de pele não-melanoma, com resultados promissores, principalmente na eliminação de tumores iniciais. O procedimento está em processo de avaliação a ser implementado no Sistema único de Saúde (SUS).

A técnica, criada no Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CEPOF) , um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP, foi apresentado na Escola São Paulo de Ciência Avançada Tópicos Modernos Biofotônica.

Apoiados pela FAPESP, na modalidade Escola São Paulo de Ciência Avançada, o evento foi realizado entre 20 e 29 de março no IFSC-USP. O encontro reuniu estudantes de pós-graduação e jovens pesquisadores do Brasil e do exterior, com o objetivo de discutir tópicos avançados na área de biofotônica, que usa as tecnologias baseadas na manipulação de fótons, ou a luz, para aplicações biológicas.

“O dispositivo foi desenvolvido no Brasil, com tecnologia nacional”, disse Cristina Kurachi, professor do IFSC-USP e um dos autores da técnica, da Agência FAPESP.

O equipamento, fabricado pela empresa, a MM Optics, São Carlos, é composto de um dispositivo capaz de reconhecer e verificar a extensão das lesões tumorais de fluorescência óptica em minutos. Após a identificação da lesão, é aplicada uma pomada à base de metilaminolevulinato (MAL) – um derivado do ácido 5-aminolevulínico (ALA) – desenvolvido pela empresa em PDF-Pharma, em Cravinhos. Depois de duas horas de contato com a pele, o composto é absorvido e dá origem, no interior das mitocôndrias das células tumorais, a protoporfirina – pigmento fotossensibilizante “primo” da clorofila.

Depois de retirar a pomada da lesão, a região é banhada por 20 minutos com um dispositivo contendo uma fonte de luz vermelha de LED 630 nm integrada ao equipamento.

A luz ativa a protoporfirina e desencadeia uma série de reações nas células tumorais, através da geração de espécies reativas de oxigênio capaz de eliminar as lesões. Já o tecido saudável são preservados.

Após o procedimento, são geradas imagens de fluorescência também por meio dos equipamentos para assegurar a irradiação total das lesões.

O tratamento ocorre em duas sessões, com intervalo de uma semana entre eles. Após 30 dias, as lesões são re-avaliado e submetido a uma biópsia para confirmar se os tumores foram eliminados.

Através de um projeto apoiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Financiamento de Pesquisa e Inovação (Finep), foram feitos ensaios clínicos para a validação da técnica em 72 centros de saúde em todo o país. O estudo multicêntrico, coordenado por Vanderlei Salvador Bagnato, professor do IFSC-USP e coordenador do CEPOF.

No Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, no interior de São Paulo, por exemplo, foram tratados com o novo método, mais de 2 mil lesões de pacientes atendidos pela instituição e treinados 40 grupos de médicos para utilizar a técnica. Além de hospitais, ambulatórios e clínicas no Brasil, foram realizados estudos de ensaios clínicos em outros nove países da América latina.

Os resultados dos ensaios clínicos mostraram que o tratamento foi capaz de eliminar 95% dos tumores, sem efeitos colaterais, fazendo com que apenas uma leve vermelhidão no local e sem a formação de cicatriz.

“Apesar de estar em um Instituto de Física, temos feito medicina e de translação, que é, conseguiu transferir os resultados da pesquisa básica para aplicações clínicas, que beneficiam a população, especialmente os mais necessitados”, disse Kurachi, um dos membros da coordenação da ESPCA em Biofotônica.

Investigação translacional

O caráter da translação da pesquisa feita pelo grupo de IFSC-USP tem sido um dos fatores que despertou o interesse do pesquisador Fleury Augustin Nsole Biteghe vir ao Brasil para participar do evento.

Pós-doutorando em biologia química na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, onde estuda a aplicação da terapia fotodinâmica para tratar o câncer de pele, Biteghe soube do evento enquanto participava de uma conferência sobre a terapia fotodinâmica no ano passado, na Alemanha, em que foram apresentados alguns resultados do trabalho feito por pesquisadores do IFSC-USP.

“Eu fiquei impressionado e muito interessado em fazer parte da pesquisa do grupo no Brasil, que tem sido mostrado para ser possível fazer pesquisa translacional, que resulta em novos tratamentos para o câncer de pele. Eu pretendo aplicar para uma bolsa de pós-doutorado no grupo de pesquisa para aprender e levar essa experiência para a África do Sul, onde temos enfrentado obstáculos para o desenvolvimento de tecnologias que tornam possível o uso da terapia fotodinâmica na prática clínica”, disse Biteghe.

A Escola reuniu 138 alunos de pós-graduação e pesquisadores em início de carreira, dos quais 48 eram do exterior, de países como os Estados Unidos, a Finlândia, a Noruega, a Rússia, a Polónia, Canadá e Argentina, entre outros – e 90 de brasileiros de diferentes regiões do país.

A programação do evento foi composta para a apresentação de posters científicos, palestras e cursos ministrados por alguns dos maiores especialistas em áreas como a óptica do tecido, neurofotônica e biossensores.

Um dos pesquisadores participantes de quadrilhas Zhen, professor da Universidade de Toronto e cientista sênior do Princess Margaret Cancer Centre, no Canadá. Em 2011, o pesquisador e seus colegas em seu laboratório, descobriu a primeira partícula nanométrica (da bilionésima parte do metro) totalmente orgânicos, com propriedades biofotônicas sem precedentes, obtidos a partir da porfirina.

Mais recentemente, pesquisadores têm desenvolvido de micro-bolhas maiores de porfirina que, quando expostos ao ultra-som de baixa freqüência, falhas no formulário e nanopartículas com as mesmas propriedades ópticas que o microbolha original.

“Estas nanopartículas podem ser usados simultaneamente para obter imagens de tumores e fazer a entrega da droga [deslocamento de drogas] para o tratamento de câncer”, explicou Zhen durante sua palestra.

O evento também contou com a participação de pesquisadores do Brasil, Portugal, Israel, Inglaterra, Espanha, Estados Unidos e Rússia.

“Nós convidamos pesquisadores de diferentes países para que os estudantes pudessem ter uma visão geral da pesquisa em biofotônica que tem sido feito em várias partes do mundo”, disse Kurachi.