Notícia

Jornal da Unicamp

O sucesso está no relacionamento

Publicado em 30 novembro 2015

Por Manuel Alves Filho

O sucesso dos projetos colaborativos no âmbito da inovação depende mais da capacidade dos envolvidos (empresas e instituições públicas e privadas) de gerenciar problemas que da competência técnica para gerar novos produtos e processos. A conclusão faz parte da pesquisa de pós-doutorado do pesquisador Bruno Brandão Fischer, desenvolvida junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp. “As questões tecnológicas são necessárias, mas insuficientes para o êxito das redes de pesquisa e desenvolvimento”, afirma o autor do trabalho.

A pesquisa realizada por Fischer contemplou Redes de P&D europeias, mais especificamente da Espanha, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Estas, de acordo com ele, são constituídas tanto por empresas quanto por diferentes instituições, com o objetivo de impulsionar a inovação. “Trata-se de um movimento que vem ganhando força expressiva desde a década de 1980. Ao contrário do que se imagina intuitivamente, essas empresas e instituições ‘abrem’ frequentemente sua base de conhecimento para interagir umas com as outras, com a finalidade de gerar conhecimento e inovação. Ainda que isto represente certo nível de risco, é uma abordagem estratégica importante para expandir as capacidades dos participantes”, explica.

A experiência tem sido tão profícua, entende o pesquisador, que não é raro que algumas redes abriguem empresas concorrentes. Um exemplo citado por ele foi a criação, por parte das indústrias automobilísticas, de uma plataforma de software compartilhado, com a finalidade de desenvolver novos protótipos de automóveis. Participam da experiência empresas como a Daimler, Volvo, Volkswagen, Nissan-Renault, Fiat e GM.  “Embora cada empresa se coloque numa situação de grande exposição diante de suas concorrentes, ganhos importantes podem surgir dessa colaboração, desde que o relacionamento entre os participantes seja gerenciado de forma eficiente”, pondera.

E é justamente a questão do relacionamento entre os membros de uma Rede de P&D que tem se revelado o ponto mais nevrálgico para o êxito desse modelo de desenvolvimento do conhecimento e da inovação, segundo o autor da pesquisa. Conforme Fischer, as relações entre empresas e organizações não estão livres de fricções. Esses atritos definem, em boa medida, como se dará a interação entre as partes envolvidas. “Assim, é indispensável que, diante da impossibilidade de evitar problemas dessa ordem, os parceiros estejam preparados para lidar com eles”, pontua.

Os tipos mais comuns de ruído no relacionamento entre os integrantes de uma Rede de P&D, aponta a pesquisa, são a desistência de um dos parceiros durante a realização do projeto, as dificuldades de comunicação por causa das diferenças de idiomas e culturas e as divergências de ordem gerencial. “As principais questões levantadas pelo estudo indicam que a capacidade de gestão de problemas ocorridos durante a realização de um projeto de P&D em rede é um fator fundamental para o alcance dos objetivos tecnológicos e comerciais das empresas. Mais que isso, os resultados demonstram que esta capacidade gerencial é mais relevante que a própria capacidade técnica de geração de novos produtos e processos em uma estrutura de rede”, atesta o autor do trabalho.

A pesquisa identificou, ainda, que o papel de intermediador de conflitos desempenhado pelo Programa Eureka, iniciativa que busca fomentar a inovação e a integração entre empresas, universidades e institutos de pesquisas no contexto europeu, é de extrema importância para a qualidade gerencial das redes de P&D. “Outro aspecto de interesse central diz respeito aos problemas ocasionados pela imprevisibilidade de comportamento dos membros de uma rede de P&D. Neste caso, quando ocorrem mudanças nos objetivos ou interesses de uma determinada parte, os resultados obtidos pelos parceiros podem ser negativamente afetados. Essa fonte de conflito tende a ser mais significativa que as barreiras culturais e de idioma e das eventuais instabilidades causadas por divergências de interesses no campo concorrencial”, informa o pesquisador.

Fischer observa que não existe uma receita pronta para evitar os conflitos, dado que não é possível prever quais deles surgirão e em que fase do projeto ocorrerão. “O que se pode concluir, com bom grau de precisão, é que estes problemas são inevitáveis. Inevitáveis, mas solucionáveis. A conclusão por trás disso é que as empresas devem dedicar recursos financeiros e humanos para monitorar e gerenciar eventuais conflitos advindos dos processos interativos envolvidos em redes de P&D com objetivo de gerar inovações”, reforça.

O fomento às atividades de P&D em redes, segundo Fischer, é uma estratégia de suma importância para o desenvolvimento das capacidades de inovação das empresas, setores e países. “É uma forma de fazer com que o conhecimento flua através de diferentes organizações e possa gerar ganhos conjuntos. A União Europeia adota uma série de medidas para apoiar essa forma de cooperação. Infelizmente, o marco institucional no Brasil quanto a este tipo de projeto ainda é muito carente de propostas concretas e de recursos financeiros, tanto no âmbito público quanto no privado”, diz.

A metodologia aplicada na pesquisa, de acordo com o seu autor, envolveu principalmente a aplicação de modelos de regressão ordinal. Em outros termos, foram utilizadas equações que permitem entender os efeitos de um determinado grupo de indicadores sobre alguns quesitos de interesse. No caso em questão, o foco foi direcionado principalmente para o entendimento sobre quais são os fatores que afetam o desempenho tecnológico e comercial de redes internacionais de P&D. As fontes dos dados foram questionários de pesquisa aplicados e coletados pelo Programa Eureka junto a empresas que participaram de redes internacionais de P&D no ambiente europeu.

Para desenvolver a pesquisa, Fischer contou com apoio financeiro do Centro de Desenvolvimento Tecnológico e Industrial, vinculado ao Ministério de Economia e Competitividade do Governo Espanhol; da Agência Espanhola Extenda e do Fórum Europeu para Estudos em Políticas de Pesquisa e Inovação. Atualmente, ele atua como pesquisador em estágio de pós-doutorado no DPCT-IG, em projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que analisa o empreendedorismo de alto conteúdo tecnológico.