Notícia

Jornal do Brasil

O sobe-e-desce do sudeste brasileiro

Publicado em 26 novembro 2000

Por DANIELLE NOGUEIRA
O sudeste brasileiro não está parado. Dança para cima e para baixo ao som de imperceptíveis tremores de terra, pouco menos intensos que o registrado em Brasília, na última segunda-feira. Enquanto o interior de São Paulo desce, a Serra da Mantiqueira e o sul de Minas sobem num balanço que começou a 130 milhões de anos, quando o bloco continental Pangéia se rompeu, originando os atuais continentes. Entre as prováveis conseqüências desse baile, está a mudança de curso do Rio Grande, que nasce em território mineiro. Em vez de seguir para leste, suas águas deverão rumar para o norte, podendo comprometer o abastecimento das populações ribeirinhas. Nada de muito preocupante. Caso as previsões dos pesquisadores do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da USP, que estão analisando o sobe-e-desce da região, tornem-se realidade, isso não acontecerá antes de 15 milhões de anos. Aplicação - Se as alterações naturais não assustam, pelo menos a curto prazo, os resultados do trabalho do geólogo Yociteru Hasui, da USP, têm algumas aplicações imediatas: as previsões orientam engenheiras nas obras de rodovias e hidrelétricas e ajudam a antever catástrofes, como deslizamentos de terra, além de fornecer pistas para a descoberta de jazidas minerais. "Nosso objetivo é identificar os pontos instáveis da região", disse Hasui, que contou com financiamento de R$395 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A equipe de Hasui analisou dados históricos colhidos por sismógrafos de uma área de 400 mil quilômetros quadrados do Sudeste brasileiro. Identificou crescentes elevações na região da Serra da Mantiqueira, o que lhes fez imaginar que o rio Grande mudaria de curso. "Quanto mais alta a montanha, mais erosão ela sofre. O Rio Aiuruoca, que nasce na Mantiqueira, está erodindo a serra. Como a tendência natural dos rios é procurar locais mais baixos, o rio Grande, cuja nascente também está na Mantiqueira, acabará sendo capturado pelo Aiuruoca", explicou. Já o rio Paraná está numa região que não pára de afundar. O resultado será o maior acumulo de sedimentos na área, podendo causar assoreamentos em alguns pontos do rio e alagamento em outros. O mesmo acontecerá com a Baía de Guanabara. Por que algumas regiões do Sudeste sobem e outras descem ainda é um mistério para os pesquisadores. "Há uma espécie de compensação das camadas geológicas, que estão sofrendo uma constante compressão, mas não sabemos o que faz determinadas áreas erguerem e outras afundarem", disse Hasui. Cogumelo - Quanto ao fenômeno que originou a dança, o geólogo não tem dúvidas. Movimentos no interior da Terra, onde a temperatura é superior a 1.000°C, fazem com que as placas sobre as quais estão os continentes se movam e se comprimam. "O calor concentrado sobe como se fosse um cogumelo e, ao atingir a litosfera (camada mais externa e dura do planeta), provoca uma espécie de estufamento. São as chamadas plumas do manto", explicou o professor. Isso acontece porque, como a superfície é mais fria, a própria natureza se encarrega de proporcionar um equilíbrio da temperatura, como quando abrimos a geladeira: o ar frio sai e o ar quente entra", disse. "Foi este fenômeno que causou a ruptura à antiga massa continental. Apesar de tudo ter acontecido há milhões de anos, ainda sofremos influência daquela época". BAÍA DE GUANABARA AFUNDA Uma das surpresas constatadas pela equipe do geólogo Yociteru Hasui foram os movimentos verificados no Rio de Janeiro, sempre Considerada uma área geologicamente estável. Enquanto as serras das Araras e da Bocaina, na divisa com São Paulo, estão subindo, a Baía de Guanabara mergulha mais fundo, criando condições propícias para o acúmulo de sedimentos resultantes do processo de erosão das camadas mais altas das montanhas que a cercam. A primeira conseqüência da elevação das serras é a maior probabilidade de deslizamentos. "Num primeiro momento, as rochas são erodidas pelos rios, pelo sol e pelo vento. Aos poucos, os sedimentos resultantes desse processo se decompõem e, como o relevo é muito acidentado, o risco de o solo vir abaixo aumenta", explicou Hasui Segundo a geóloga Ambrosina Gotijo, do Instituto de Geociências da UFRJ, responsável pela análise do Rio de Janeiro no projeto paulista, uma das razões para que isso esteja acontecendo é a subducção da placa Nazca, sobre a qual está o Oceano Pacífico. "Essa placa está entrando embaixo da placa sul-americana, fazendo-a subir em alguns pontos e descer em outros", disse Ambrosina. Embora as conseqüências desse processo só serão sentidas daqui a milhares de anos, a geóloga detende a implantação de mais sismógrafos na região paia fazer um monitoramento mais amplo dos abalos sísmicos. Já a Baía de Guanabara, em contrapartida, está afundando. "É uma espécie de compensação", contou Ambrosina. Segundo ela, o risco de assoreamento existe, mas isso só aconteceria se atividades antrópicas também contribuíssem para o processo. Mais pessimista, Hasui lembra do caso da cidade de Pizza, na Itália. "Essa cidade foi construída na beira da praia e, hoje, está a 40km do mar. O assoreamento pode acontecer, mas vai demorar", disse o geólogo. TREMORES SÃO FREQÜENTES Tremores de terra, como o que assustou os brasilienses segunda-feira passada, são mais comuns do que se imagina. Embora o Brasil esteja fora da área de convergência das placas tectônicas, afastando a probabilidade de ocorrência de grandes terremotos, os abalos sísmicos de até 5 pontos na escala Ritcher (a escala vai até 9,5) são freqüentes. A maioria das vezes, no entanto, não passam de pontos em mapas de professores de Geologia, pois raramente são percebidos por quem está com os pés sobre eles. No sudeste brasileiro, a área do Rio Paraibuna, em São Paulo, é uma das que mais concentra tremores. "Há uma barragem represando as águas do rio. A água acaba se infiltrando no solo e funciona como um lubrificante, facilitando o deslocamento dos blocos de rocha. E é isso que causa os abalos sísmicos", explicou Yociteru Hasui, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas da USP. A litosfera, camada mais externa e dura da crosta terrestre, é também a mais fina. Com apenas 200km de espessura - a Terra tem um raio de 6,3 mil km -, ela se encontra toda fragmentada em placas, que, por sua vez, são formadas de blocos de rochas. Essas rochas se encontram fissuradas e, quando os movimentos do interior do planeta levam as placas a se comprimirem, as rochas se deslocam. "São deslocamentos instantâneos e abruptos, gerando vibrações que se propagam por dezenas de quilômetros. Dependendo da intensidade dessas vibrações, temos maiores ou menores reflexos na superfície terrestre", disse Hasui.