Notícia

O Imparcial (Presidente Prudente, SP)

O Sistema monetário internacional e a crise do dólar

Publicado em 05 agosto 2011

Na economia capitalista, o ato fundamental da atividade econômica - a produção - depende quase que exclusivamente da resposta a uma única questão: "isso vai dar dinheiro?" Tal pergunta, porém, só é possível quando o dinheiro de fato existe, i.e., quando a economia possui uma moeda única, algo que sirva, ao mesmo tempo, como unidade de conta em que se expressam os preços mais importantes, como meio de pagamento com o qual se cumprem todas as dívidas, impostos e compras, e como reserva de valor. Ora, a existência de tal coisa nada tem de trivial, e em geral pressupõe um Estado soberano capaz de a emitir, impor - pela força da lei - sua circulação e garantir seu valor.

Mas a atividade econômica não se restringe ao espaço nacional, e as relações comerciais e financeiras internacionais exigem uma moeda aceita por todos no mercado mundial. Como porém inexiste um governo mundial capaz de emitir, impor e garantir uma moeda verdadeiramente mundial, coube ao ouro cumprir nessa arena, durante a maior parte da história, as funções normalmente atribuídas à moeda. Mesmo após a Segunda Guerra Mundial, quando a maioria das transações internacionais e das reservas dos países eram feitas em dólar, uma taxa de conversão fixa entre o dólar e o ouro indicava que, em última instância, o ouro mantinha seu papel. Mas quando, na década de 1970, os EUA abandonaram a conversibilidade, os demais países se viram diante de uma difícil escolha: ou voltar a lastrear seus negócios diretamente no ouro, ou admitir o dólar como lastro universal.

No primeiro caso, estariam sujeitos a um padrão monetário que enrijece as relações econômicas e acentua os ciclos econômicos (como ficara claro na depressão da década de 1930); no segundo, às decisões soberanas de um país que, abandonando a conversibilidade, tinha se desvencilhado de qualquer compromisso internacional em relação a sua política monetária.

Como se sabe, tomou-se o segundo caminho. A partir de então coube aos EUA, se não impor o curso da moeda internacional, ao menos emiti-la e garantir-lhe o valor. Consequentemente, quando os EUA ameaçam não pagar integralmente os títulos emitidos em dólar, o que está em jogo é não apenas a saúde fiscal do país, mas a possibilidade da perda, pelo dólar, da capacidade de cumprir suas funções como moeda mundial - o que poria em risco todas as relações econômicas internacionais e recolocaria no horizonte a ameaça do isolacionismo econômico que, na década de 1930, impulsionou o fascismo.

Assim, enquanto o dólar for o lastro último da maioria das transações internacionais e das reservas dos países, a economia mundial será refém da política econômica de um país soberano - o qual, com toda a razão, preocupa-se antes com os efeitos dessa política na sua própria atividade econômica do que com a estabilidade da economia mundial.

Bruno Hofig é graduado em Economia e mestrando em História Econômica pela Universidade de São Paulo, bolsista FAPESP e consultor econômico da TOR Investimentos.

Contato: bhofig@torinvestimentos.com.br.