Notícia

Correio Popular

O silêncio palavroso de Marilena Chaui (1)

Publicado em 30 agosto 2005

Por Roberto Romano (romanor@uol.com.br)

Farsa Política

Quando uma instituição autoritária deseja impor regras e atitudes aos seus integrantes, ela inicia os procedimentos para obrigá-los com o uso da censura. Caso os rebeldes não se curvem e desobedeçam as ordens superiores, eles recebem punições diversas, das mais leves às severas. A excomunhão é o ato final da tragédia ética, porque nela os dirigentes perdem algum poder (corpos e mentes saem do seu controle) e os expulsos ficam sem as antigas referências intelectuais ou emotivas. A Igreja Católica sabe que a excomunhão é traumática e acarreta resultados deletérios. O caso Lutero é por demais ilustrativo. É por esse fato que os cardeais e bispos, sob autorização papal, inventaram o "silêncio obsequioso". Quem o aceita mostra boa vontade e promete tacitamente retornar à plena obediência. Em vez de romper com as autoridades ou crenças criticadas, o silencioso por conveniência proclama, com o próprio mutismo, sua adesão ao poder imperante na igreja ou partido político. Ele permite que sua consciência seja estuprada pela metade, para manter a farsa desempenhada pelos seus carcereiros espirituais. Intelectual que aceita silenciar "em obséquio" nem é fiel nem infiel, é uma farsa. O mundo político ocidental, fruto de uma ruptura com o mando sagrado (consulte-se o livro de Ernst Kantorowicks, Os Dois Corpos do Rei), conserva a liturgia e os procedimentos religiosos, sem conexões com a transcendência. Trata-se de uma religião farsesca com os seus fiéis militantes (muitos deles fanáticos), uma Inquisição onde pontificam bruxos e perseguidores. O comunismo teve seus "obsequiosos" fantasiados de Galileu. G. Lukács foi um deles. O petismo, na derrocada axiológica que o leva, literalmente, ao lixo (Leão Leão… e outras "empresas" do ramo) hoje apresenta os seus "intelectuais críticos" farsescos. Dentre eles, a professora Chauí, bem afeita ao verbo fluente quando se tratava de afastar os adversários do petismo, agora apoia o seu partido com a tática do silêncio falso. Após usar e abusar o quanto pôde da imprensa para os fins de sua propaganda, ela finge "não ler jornais". E fornece um subterfúgio aos seus colegas que, sem coragem ou honestidade intelectual para romper com o PT, encontram na imprensa o Judas para esquecer os Delúbios e Silvios Pereiras de quem ainda ontem obedeciam ordens. Diante de últimas marilenadas, em comícios disfarçados de seminário filosófico, a memória me traz fragmentos de um convívio desagradável com a professora da USP.
Nos barracões onde se abriga a filosofia uspiana, o calor ameaça qualquer atenção. A professora arenga numa sala repleta de jovens boquiabertos. Cita enorme trecho de Kierkegaard. Pergunto: ela teria esquecido pedaços do texto ou se enganado? Algo era muito estranho. Em casa, corro ao livro em questão, sem acesso ao texto original, redigido em língua estranha à humanidade. Mas o disponível estava na língua francesa. Confiro as notas de aula e fico perplexo: cada linha, cada vírgula da tradução correspondem às palavras da professora. "A senhora tem razão, pois cita o texto sem erro." Resposta: "Eu sempre tenho razão!". Surge em mim o espanto e a repugnância. Quem fala daquele modo pratica apenas a retórica ou a ideologia. Memorizar um texto, ensina Platão, está muito longe de colher os objetos nele indicados. Papagaios repetem perfeitamente muitas palavras.
A segunda vez em que me espantei com atitudes de Marilena Chauí: na visita inaugural de João Paulo II ao Brasil. A esquerda do catolicismo vulgar, liderada por pessoas pouco afeitas à cultura, afirmam que a Igreja seria socialista. Sem atenção aos fatos e às idéias, elas repetiam palavras de ordem que mais expressavam seu desejo do que alguma coisa efetiva. Eu defendera uma tese de doutorado na França e mostrara que os laços entre o mundo político e a Igreja eram mais sutis do que imaginavam os afeitos aos psitacismos de Marta Harnecker. Os donos da verdade "revolucionária" elaboraram suas falas como líderes de rebanhos humanos. Para ilustrar o clima do tempo, basta dizer que recebi certo projeto de tese a ser dirigido à Fapesp. A "tese" era simples: ao mudar o modo de produção, mudam as super estruturas. Ora, o modo de produção deixava o capitalismo pelo socialismo. Logo, a Igreja se transformava em socialista… No "projeto de tese" vinha uma bibliografia sublime: textos de Engels e Marx unidos "ao" documento do Vaticano 2. Quando encontrei a candidata (na presença de estudantes e docentes) falei sobre o trabalho que ele era "digno de Max Weber e de Karl Marx".

Roberto Romano, professor de Ética e Filosofia Política da Unicamp, escreve às terças-feiras