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Nexo Jornal

O seletivo grupo de privilegiados e as redes que aprofundam desigualdades

Publicado em 03 março 2020

O Carnaval passou, mas me deixou duas reflexões que gostaria de compartilhar. A primeira delas é que o Carnaval nada mais é do que um retrato de uma sociedade, e não a completa inversão da sua ordem cotidiana.

Explico do que estou falando. Não chamou atenção de muitxs de nós a apuração dos pontos dos desfiles das escolas de samba? Para além das celebridades que tomaram o posto de rainhas de bateria, desbancando as mulheres negras das comunidades, a apuração dos votos nos mostrou que até ali a supremacia do poder da Sapucaí é lugar da população branca brasileira. É impressionante perceber o quão diferente é a composição das pessoas das alas da comunidade, das torcidas das arquibancadas e de quem, literalmente, senta na mesa de decisões.

E em Salvador, minha cidade? É a mesma coisa. A cada ano que passa é menor o número de cantoras negras nos trios elétricos, é menor o investimento e apoio aos blocos afro e mais precária a condição de quem trabalha vendendo de tudo nas ruas durante a festa. Ou seja, o Carnaval não representa completamente a transgressão da ordem. As hierarquias vigentes ao longo do ano simplesmente estão mantidas nos dias de folia.

Chamou muito a atenção de parte da sociedade soteropolitana uma foto na qual o prefeito da cidade orgulhosamente exibe a equipe que trabalhou na coordenação do Carnaval de Salvador. Todas, absolutamente todas as pessoas que compuseram a equipe do Carnaval são brancas. Algumas delas são mulheres, mas a hegemonia é masculina.

Essa fotografia da equipe do Carnaval me remete a uma outra, na qual o prefeito da cidade, na sua página no Instagram, exibe uma confraternização com sua antiga turma de colégio. Novamente, todas as pessoas são brancas, sem direito àquele velho e único “amigo negro” que as pessoas mencionam quando acham que estão provando que não são racistas. Nessa última foto, três pessoas negras aparecem ao fundo da imagem, bem distantes, atrás de uma mesa. São dois homens (garçons) e uma mulher negra uniformizados, ou seja, trabalhadores cujo papel era servir o buffet.

Se compararmos essa foto com aquela da equipe no Carnaval, outra coisa é revelada. Algumas pessoas aparentemente estão nas duas fotos. Aqui chego à minha segunda constatação: privilégio racial também significa fazer parte de uma influente rede de contatos, que acaba sendo uma máquina de manter privilégios.

É no colégio, nas redes familiares, na vizinhança e entre os colegas da universidade que se estabelecem círculos muito fechados de relações, que no futuro podem significar redes de emprego, de indicações para cargos importantes, para atividades corporativas, contratos e prestações de serviços.

Não necessariamente essas indicações se baseiam em critérios puramente técnicos (eu arriscaria a dizer que isso conta pouco), mas sim em relações de afetividade, amizade, apoio familiar e confiança, laços na maioria das vezes construídos entre pessoas que compõem a mesma classe e grupo racial.

Isso se torna muito grave quando o que está em questão é a máquina estatal, sobretudo na elaboração e gestão de políticas públicas que têm como público alvo pessoas que não têm poder de decisão e estão longe de fazerem parte dessas redes.

Para refletirmos sobre o poder das redes de privilégio e relações, sobretudo no país do “você sabe com quem está falando?”, já pensou como seria resolver o problema de um parente com um telefonema? Arrumar uma vaga num hospital por meio de uma mensagem de Whatsapp? Pedir um favor a uma pessoa poderosa e que é muito, muito amiga sua sem nenhum constrangimento? Quão maravilhoso deve ser resolver o problema do desemprego de um primo, uma tia, ou de uma amiga sem nem mesmo ter que enviar um currículo ou exigência de experiência profissional? Já imaginou o prefeito da cidade ter sido seu colega de escola?

Como a máquina pública é gestada com base em critérios raciais, de classe e afetivos, pessoas negras, qualificadas ou não para determinados cargos, sempre ficam de fora. Mulheres também entram numa zona perigosa uma vez que esses espaços são majoritariamente masculinos, e são os homens que definem quais mulheres devem fazer parte das suas redes. Essas redes são altamente seletivas e discriminatórias, como podemos ver nas fotografias que citei.

Essa barreira, portanto, é fundamental para que privilégios se mantenham há séculos nos mesmos grupos raciais, entre as mesmas famílias, pertencentes à mesma classe social, em que o patriarcado é o modelo de organização social.

Mesmo quando acreditam que conseguiram fazer parte desse grupo seleto, pessoas negras e pobres pagam o preço de um eterna subalternidade travestida na forma de “gratidão”. O medo de não desagradar alguém ou dizer algo que gere desconforto é uma constante. Isso gera um outro tipo de rede, que é a de dependência e subalternidade, fundamental à existência da rede de poder.

Num país que cada vez mais desvaloriza e invisibiliza as contribuições geniais de pessoas negras, indígenas, das mulheres, de pessoas pobres e LGBTI, é fundamental que essas histórias sejam contadas por pessoas que reconhecem sua importância

Felizmente, a cultura popular caminha e às vezes cria suas referências em outras bases.

Como bem disse minha colega Tainá Aparecida dos Santos em artigo publicado na semana passada, é possível pensar a escrita da história do Brasil a partir da trajetória das mulheres negras. Ao dizer isso, Tainá Aparecida, que é historiadora, lança mão do que é objeto principal das pesquisas desenvolvidas no campo da história social, que é a história de pessoas comuns, daquelas que não estão frequentemente nos livros de história, mas cujas trajetórias, quando não contadas, deixam uma lacuna grave nas narrativas que contam a história do Brasil.

No seu artigo, Tainá Aparecida dos Santos fala especificamente das mulheres mercadoras, cujas vidas foram historicizadas e contadas no enredo da Viradouro neste Carnaval. A escola carioca, que levou o título de campeã, trouxe para a avenida a história das baianas lavadeiras que com seu ofício movimentaram a economia baiana do século 19. Conhecidas como as Ganhadeiras de Itapuã, essas mulheres constituem um exemplo da agência e engenhosidade de pessoas anônimas que foram minando e enfraquecendo o sistema escravista aos poucos, enquanto ao mesmo tempo resistiam cultural-politicamente ao domínio patriarcal/escravista nos anos finais do cativeiro.

Essa é uma outra lição deixada pelo Carnaval, que é a força da cultura popular. Mesmo antes da Lei 10.639/03, que instituiu a obrigatoriedade do ensino da história africana e afro-brasileira nas escolas e, em 2008, incluiu a história indígena nessa obrigatoriedade, escolas de samba, associações carnavalescas, grupos culturais e blocos afro traziam e ainda trazem para as ruas uma forma de contar a história que coloca negros e indígenas num lugar de protagonismo, com ou sem apoio — e muitas vezes a contragosto — do Estado e das elites.

Este ano, por exemplo, a Mangueira optou por questionar imagens e representações de Cristo, que poderia ser mulher ou um jovem negro, o que contrariou muita gente. Vila Isabel e Portela falaram dos povos indígenas, enquanto a Mocidade contou a história da nossa maravilhosa Elza Soares. Já a Grande Rio contou a história do babalorixá Joãozinho da Goméia.

Aqui em Salvador, dentre os vários exemplos, citarei somente o Olodum, que este ano homenageou a trajetória das mulheres negras ao longo da história, desde a antiguidade até os dias atuais.

Assim, associações carnavalescas negras trouxeram para as ruas a história de outras mulheres e homens que, no entender dos seus, são paradigmas de heroísmo, de importância política e de trajetórias de pessoas que devem ser lembradas.

Mesmo assim, sem romantizar, podemos chegar à conclusão de que, mesmo quando é a história do “povão” que é contada, de alguma maneira os ganhos saem às custas dos nossos dados. São lucros, favorecimentos e trocas das quais não participamos. A nós, nos cabe o lucro da festa e da alegria, para outros, além disso, algo mais.

A história do primeiro palhaço negro brasileiro, Benjamin de Oliveira, foi o tema do desfile da Salgueiro, e esse enredo me tocou de forma particular. Primeiro porque, mesmo tendo formação de historiadora, eu desconhecia Benjamin de Oliveira, de quem nunca ouvi falar nem na escola e nem na universidade. Em segundo lugar, sua história nos toca porque é a história de mais um brasileiro invisível, mas que, a despeito do silêncio sobre sua trajetória, foi fundamental para as artes deste país. Muito além de uma narrativa de que Benjamin foi um menino pobre que “subiu” na vida e “venceu” preconceitos, ao modo como as elites gostam de contar histórias das pessoas negras, a desse artista é também a história da escravidão, do pós-abolição e de como pessoas negras, a despeito da sua excelência, foram aprisionadas pela marca da cor, numa sociedade altamente racializada.

Nascido um ano antes da Lei do Ventre Livre de 1871, a liberdade de Benjamin foi fruto de um ato de gratidão do senhor da sua mãe pelos seus “bons serviços”. Contudo, a condição escrava da mãe fazia com que seus filhxs vivessem numa realidade muito próxima àquela do cativeiro. Benjamin por exemplo, teve acesso ao circo enquanto vendia alimentos nas ruas, fugiu porque era explorado e sofria violência. Além disso, foi vendido como escravo porque, mesmo sendo livre, numa sociedade escravista, todas as pessoas negras carregavam o estigma da escravidão.

Depois de uma infância de fugas, violências e escravização, que acontecia ao mesmo tempo que Benjamin se apaixonava pelas artes circenses, foi que já adulto o artista por acidente atraiu a simpatia do então presidente Floriano Peixoto — algo que poderia não ter acontecido. Foi com a entrada dessa rede de apadrinhamento, que Benjamin recebeu apoio financeiro e proteção que lhe permitiram atuar em teatros, criar sua companhia, contratar outros artistas negros e escrever peças teatrais.

A essa altura, Benjamin vivia no Brasil pós-abolição, nos primeiros anos do século 20, quando os imigrantes europeus chegavam para concretizar o projeto de branqueamento da população brasileira e a ciência elaborava teses que afirmavam que homens negros como Benjamin de Oliveira eram mais propensos ao crime. Li que, a despeito da sua contribuição para as artes brasileiras, assim como Cartola e Carolina de Jesus, Benjamin morreu pobre, aos 84 anos. Assim, num país que cada vez mais desvaloriza e invisibiliza as contribuições geniais de pessoas negras, indígenas, das mulheres, de pessoas pobres e LGBTI, tão geniais quanto palhaço, ator e dramaturgo, é fundamental que essas histórias sejam contadas por pessoas que reconhecem sua importância.

Todos os dias o Brasil perde Cartolas, Benjamins, Conceições e Carolinas que desistem pela falta de investimento e de oportunidade. Num outro extremo, todos os dias, pessoas despreparadas ocupam lugares onde não deveriam estar, porque fazem parte daquela poderosa rede que citei.

Por fim, enquanto muita gente “mediana e ruim” tem lugar garantido na foto, nos palcos, nas passarelas, no trio elétrico e na política, quero parabenizar a equipe de cientistas brasileirxs que integra o grupo de pesquisa que conseguiu sequenciar o genoma do coronavírus, o que permitirá conhecermos em breve a origem da epidemia. Com a descoberta, é possível inclusive entender o processo de transmissão da doença e as mutações do vírus. Parabenizo especialmente a pesquisadora Dra. Jaqueline Goes de Jesus.

Jaqueline é uma jovem pesquisadora negra, tenho notícias de que é baiana (aí fico mais orgulhosa ainda) e pós-doutoranda na faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (olha aí o papel da universidade pública). Ela também é bolsista da agência de fomento à pesquisa do Estado de São Paulo, a Fapesp. Uma vez que Jaqueline não está lá porque “tem parentes importantes” é nosso papel repetir seu nome, sua história e a importância do seu trabalho para a saúde brasileira e mundial. É fundamental que façamos isso não somente para divulgarmos a qualidade das pesquisas produzidas no Brasil, obviamente. A doutora Jaqueline Goes de Jesus representa o Brasil inteligente, elegante e comprometido, completamente diferente das mediocridades que nos envergonham.