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O Povo online

´O segredo é cuidar, dar amor e atenção´

Publicado em 22 novembro 2011

Música calma no início e fim do turno das aulas para tranquilizar mais os alunos. Paredes que exibem zelo na pintura, assim também como na conservação das carteiras. O intervalo acontece na companhia de mães voluntárias, que buscam mediar brincadeiras e possíveis conflitos no recreio dos mais novos.

O fim de semana é recebido com alegria pela comunidade do entorno da escola. Sábado e domingo trazem lazer e formação. Nas salas de aula, monitores voluntários ensinam atividades artesanais. Na quadra coberta e bem cuidada, pais, estudantes, professores e outros moradores do bairro praticam esportes, como vôlei, futebol e muay thai. Periodicamente, o espaço abriga também as reuniões "lotadas" de pais e mestres.

Tem horta para praticar maior consciência ecológica, tem projeto pedagógico bem definido seguido com esmero pelos professores, tem palestras constantes sobre assuntos que trazem dúvidas a pais e estudantes, tem direção preocupada em cuidar.

O bom clima de aprendizado que vem apresentando a Escola Municipal Professor Francisco de Melo Jaborandi, no bairro São Cristóvão, há cerca de cinco anos, nem sempre foi assim. "O bairro aqui é perigoso. A escola era mais desorganizada, as paredes sujas, os pais distantes. Foi a direção que ajeitou tudo e a gente passou a confiar mais", diz a dona de casa Marta da Silva, 46, mãe do estudante Mateus, 13. "Tanto que ele estudava em outra escola, e eu o trouxe para cá, quando soube que tinha melhorado", relata dona Marta, sob o olhar de confirmação de Mateus. "Aqui é muito bom. O melhor de tudo é o muay thai", opina o garoto.

Segundo a diretora Maria Aparecida de Carvalho, nenhum método repressivo é utilizado para conter os estudantes na Melo Jaborandi. "Não é uma questão de proibir, mas de bem orientar. Quando cheguei, fiz eles perceberem a escola como um espaço deles. Promovi mutirão de limpeza, chamei os pais. O segredo é cuidar, dar amor e atenção", ensina.

Ontem, o acidente com a arma envolvendo dois estudantes, na Escola Estadual Aloísio Barros leal, ratificou que a situação de violência é real e precisa ser revertida. A socióloga e coordenadora de diversos estudos sobre violência nas escolas, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Miriam Abramovay, mostra caminhos. "A escola e a família precisam fazer uma aliança. É necessário mais ênfase na formação dos professores. Adultos têm que estar mais próximos dos jovens. A escola deve se mostrar interessante e acolhedora, não repressiva", enumera.

ENTENDA A NOTÍCIA

Desde ontem, discute-se a problemática da violência na escola, mostrando depoimentos de professores, bom exemplo da escola que prima pelo cuidado com os alunos e as atitudes que partem do Poder Público.

SERVIÇO

A Polícia Militar possui programa de resistência às drogas e violência, a pedido das escolas. As palestras são gratuitas: (85) 3101 6581

SAIBA MAIS

Contra o imaginário do medo

A violência nas escolas não deve ser combatida pelo imaginário do medo, mas pela interação humana, de acordo com o pesquisador Sérgio Kodato, coordenador do Observatório de Violência Institucional de Ribeirão Preto (SP).

O centro é integrante do Observatório Ibero-americano de Violência nas Escolas e faz parte do projeto Observatório de Violência e Práticas Exemplares: vínculos e estratégias, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo Kodato, mesmo existindo o medo e o perigo, não se deve criar escolas com tecnologias para vigiar e punir, parecidas com presídios de segurança máxima. "Falta gestão competente e compromissada em escolas muito violentas. É no bom trato com o outro, no respeito, na constante interação com a família e a comunidade que estão os segredos, e não no sentimento de criminalização que se instala dentro da escola", alerta.

Kodato sustenta que uma das falhas do sistema educacional, gerador de tamanha violência, centra-se na má formação dos profissionais envolvidos e na condução do processo educativo.

Além da gestão frouxa, a violência psicológica põe o professor em um estado de apatia com o desenvolvimento da escola. "O aluno sabe, por exemplo, que não pode mais ser reprovado. Isso traz a indisciplina, o riso, a ironia, a gozação diante do trabalho do professor, que, na maioria das vezes, se sente impotente. Com o passar do tempo, apático ao processo", acrescenta.