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Jornal da USP online

O saber mais perto da sociedade

Publicado em 10 novembro 2014

Para uma pessoa, comemorar 80 anos é um momento de fazer um balanço da vida e, inevitavelmente, projetar um futuro não muito longo. “Eu passei por isso”, brincou o ex-reitor da USP José Goldemberg no primeiro seminário do ciclo A USP e a Sociedade, realizado na manhã do dia 4 de novembro na sala do Conselho Universitário. “Para as instituições é diferente. É uma oportunidade magnífica para fazer a autoanálise do que é a Universidade hoje e do que ela vai ser daqui a 20 ou 30 anos. Podemos identificar os pontos altos e menos altos dessa trajetória e ver que motivos temos para nos orgulhar, mas também enfrentar a dura realidade de que há coisas a melhorar”, completou. Goldemberg preside a Comissão Organizadora das comemorações dos 80 anos da USP, das quais o ciclo de debates faz parte. Mais três seminários ocorrerão ao longo deste mês (leia o texto abaixo).

A mesa que abriu a programação, “Difusão do conhecimento gerado na USP”, foi composta pelos quatro pró-reitores. Antes de passar a palavra aos debatedores, o reitor Marco Antonio Zago salientou que a USP tem pela frente desafios como discutir seu papel no contexto mais amplo do futuro do ensino superior em São Paulo, pois as três universidades estaduais atendem a um porcentual muito pequeno dos eventuais candidatos. “Quais os caminhos? Abrir mais vagas ou trabalhar para melhorar o ensino de graduação que já temos?”, perguntou Zago. Essas questões precisam ser debatidas na Universidade, defendeu.

O reitor apontou ainda como desafios a necessidade de modernizar os cursos de graduação e de avaliar a qualidade dos doutores formados na USP – a segunda instituição no mundo em titulação de doutorados. Para Zago, outro tema fundamental é a racionalização das atividades administrativas, uma vez que o crescimento do número de cursos e de alunos ao longo dos últimos anos não foi acompanhado pela modernização da estrutura. O reitor afirmou que, embora praticamente todas as unidades relatem falta de funcionários, no quadro geral a Universidade possui “uma máquina inchada” e “um excesso muito grande de servidores”, o que atesta a necessidade da racionalilzação.

Escola pública – O pró-reitor de Graduação, Antonio Carlos Hernandes, citou a produção de artigos científicos, especialmente os de alto impacto, e o acesso do público a livros, partituras e outros materiais como formas de difundir o conhecimento da USP.

Hernandes também salientou a necessidade de debates sobre novas formas de ingresso na Universidade além do vestibular da Fuvest. Aliadas à possibilidade de realização das provas em outros Estados, essas novas modalidades aumentariam as chances da USP de atrair os melhores alunos de todo o Brasil, considera o pró-reitor. A experiência das visitas às escolas públicas tem mostrado que muitos estudantes da rede não sabem que a USP é gratuita e, portanto, não a colocam em seu horizonte de opções quando pensam no ensino superior.

Atividades como as desenvolvidas pelo Centro de Divulgação Científica e Cultural (CDCC) de São Carlos aproximam os alunos do ensino médio da Universidade e permitem que eles conheçam melhor os cursos e carreiras que a USP oferece. É preciso, defendeu Hernandes, implantar novas ações de divulgação e informação para que cada vez mais alunos de escolas públicas tenham a USP como foco possível.

A professora Bernadette de Melo Franco, pró-reitora de Pós-Graduação, apresentou dados que demonstram que a USP vem cumprindo sua missão na área: responsável por 5% dos cursos, a Universidade forma 10% dos mestres e 20% dos doutores no País. São titulados, em média, 4 mil mestres e 2,5 mil doutores por ano na USP. Quarenta por cento dos programas têm os conceitos mais altos (6 e 7) na avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O número de alunos e de programas – atualmente 25 mil e 257, respectivamente – mantém pequena ascensão nos últimos anos, mas a principal tendência é de crescimento nos mestrados profissionais, o que a pró-reitora considera positivo.

Entre as ações de difusão do conhecimento, Bernadette citou a Biblioteca Digital de Teses e Dissertações, na qual estão disponíveis, na íntegra, mais de 43 mil trabalhos defendidos na USP. Também há outras iniciativas, como a possibilidade de assistir a eventos pela IPTV e a parceria com a TV Cultura para produção de programas na TV Univesp. Um projeto mais recente é o DataUSP-PosGrad, sistema que agrega vários serviços e proporciona análise em larga escala dos dados da Pró-Reitoria.

Mesmo avaliando que a USP cumpre o seu papel em relação à pós-graduação brasileira, a professora disse que “precisamos fazer melhor”. Entre as metas estão: aumentar o impacto dos resultados e a internacionalização, promover maior inserção no setor “não acadêmico” (ou seja, rastrear os egressos que atuam fora da academia) e realizar avaliação institucional com padrão internacional.

Inovação – José Eduardo Krieger, pró-reitor de Pesquisa, também apresentou números para falar da situação da USP. A Universidade responde atualmente por cerca de 25% da produção científica brasileira. Os dados demonstram que essa produção vem crescendo de forma geral no País, mas ainda não é compatível com a posição que o Brasil ocupa no cenário econômico mundial. Igualmente é preciso fazer com que a sua relevância cresça, apontou.

Outra dimensão na qual a contribuição da USP é muito grande é na formulação de políticas públicas. Krieger citou artigo dos professores José Rogério Cruz e Tucci, diretor da Faculdade de Direito (FD), e Ada Pellegrini Grinover, também da FD, publicado em especial sobre os 80 anos da Universidade no jornal O Estado de S. Paulo. No texto, os autores salientam que a faculdade contribuiu para a implementação da defesa dos direitos fundamentais e da facilitação do acesso à Justiça no País. “Considerados pela Constituição de 1988 de eficácia plena e imediata, os direitos fundamentais  necessitam de constante atenção e aperfeiçoamento. Essa preocupação esteve e está bem presente entre os juristas da faculdade”, apontam os docentes.

O pró-reitor de Pesquisa salientou que a Universidade pode ajudar a criar um ambiente inovador e atuar como plataforma para a indústria e a inovação. Não é seu papel, entretanto, ser a maior geradora de patentes, como ocorre no Brasil, ao contrário de outros países.

Krieger citou também as ações de divulgação da pesquisa realizada na USP nos veículos da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da Universidade – como o Jornal da USP –, além do estabelecimento de contrato com a Empresa de Jornalismo Júnior da Escola de Comunicações e Artes (ECA) para produção de textos de divulgação científica pelos alunos. Outras medidas preveem criar mecanismos para que os docentes possam dedicar mais tempo às atividades-fim e reduzam o esforço nas atividades-meio, favorecer o intercâmbio com os setores público e produtivo e mapear as empresas derivadas de iniciativas nascidas na USP.

A pró-reitora de Cultura e Extensão Universitária, Maria Arminda do Nascimento Arruda, ressaltou que a USP surgiu com o desafio de transformar a cultura de São Paulo, respondendo a um novo projeto de sociedade. Na atualidade, porém, o cumprimento de seu papel não vem sendo percebido da mesma forma tanto internamente – o que se reflete num “certo esgarçamento de nossa convivência” – quanto externamente.

Há ciclos positivos e negativos de reconhecimento, e no momento a USP enfrenta um ciclo negativo, avalia, marcado por questionamentos que surgem de diversos atores sociais e são explicitados, por exemplo, em manifestações dos veículos de comunicação. Para a professora, é essencial “pensar em relações amplas com a sociedade extramuros desta Universidade” e “colocar em ação nosso capital de conhecimento, que é nosso dom político específico”.

A pró-reitora citou ações na área de extensão que podem ajudar a pensar sobre as questões que devem nortear a difusão do conhecimento na sociedade com vistas a reverter o ciclo e torná-lo novamente positivo. Entre elas estão iniciativas como o Núcleo dos Direitos, as atividades de programas como Aprender com Cultura e Extensão e A USP e as Profissões e convênios com organismos e instituições internacionais. O papel da Pró-Reitoria, defendeu Maria Arminda, “está exatamente nesse enlace entre a extensão como difusão e a cultura como introversão e autorreflexão da Universidade”.

Inovação, comunicação e excelência em debate

Os seminários do ciclo A USP e a Sociedade têm início às 9h45 e encerramento previsto para as 12h, são realizados na Sala do Conselho Universitário (Rua do Anfiteatro, 513, na Cidade Universitária, em São Paulo) e têm transmissão simultânea pela IPTV. Cada etapa tem dois relatores e, ao final do ciclo, um documento reunirá a síntese das discussões.

A programação é uma promoção conjunta das quatro Pró-Reitorias, com coordenação dos professores Moacyr Novaes, Rui Curi, Agma Traina e Luciane Ortega e coordenação executiva de Michel Sitnik. Mais informações pelo e-mail usp80anos@usp.br, telefone (11) 2648-0042 e site http://sites.usp.br/80anos.

Conheça a seguir os temas dos próximos seminários:

10 de novembro: “A USP e os meios de comunicação”. Coordenação de Eugênio Bucci, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA). Convidados: jornalistas Álvaro Pereira Júnior (TV Globo); Roberto Godoy (O Estado de S. Paulo) e Marcelo Leite (Folha de S. Paulo).

17 de novembro: “Inovação científica”. Coordenação de Luiz Nunes de Oliveira, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC). Convidados: Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep); Glaucius Oliva, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Hernan Chaimovich, coordenador adjunto de programas especiais e coordenador dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

24 de novembro: “A Universidade como geradora do conhecimento em padrão de excelência”. Coordenação de Celso Lafer, presidente da Fapesp. Convidados: Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República; José Goldemberg, ex-ministro da Educação e ex-reitor da USP; Adib Jatene, ex-ministro da Saúde.