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O resgate do bom texto jornalístico

Publicado em 21 janeiro 2009

Por Wilson da Costa Bueno

Alguém já comentou, em algum lugar, que o texto jornalístico, em virtude da rotina preguiçosa de muitas redações (reféns de releases e fontes oficiais),  anda cada vez mais tedioso, linear, pouco criativo, com tendência para o resumo e  para a obediência cega às velhas perguntas do lead: quem, onde, quando, como e por que? E que, além disso, anda mal escrito, sem ritmo, sem sonoridade, uma "caca" com raras exceções.

Leitor assíduo de nossos principais jornais e revistas, sou obrigado a concordar com esta afirmação.

Mas quero dar um testemunho e saudar um texto lido na Carta Capital da semana passada (dia 14 de janeiro) de autoria de Rosane Pavam com o título Sons da solidão.

A pauta era, vamos reconhecer, saborosa e ajudava muito: o estudo do pesquisador Nelson Aprobato Filho, da USP, transformado em livro (Kaleidosfone, editado pela Edusp e FAPESP), que faz o retrospecto dos sons de São Paulo do século XIX à primeira metade do século XX. E nessa recuperação entram o arrastar dos carros de bois, o dobre dos sinos avisando sobre falecimentos ou incêndios, as conversas nas barbearias, apitos de fábricas etc.

Mas a reportagem não seria interessante, não faria qualquer sentido, se não fosse a competência da colega Rosane que produziu um texto delicioso, sonoro, portanto sintonizado com a sua pauta.

Estava estressado quando iniciei a leitura da reportagem e encontrei-me descansado ao final. A fluência do texto e a escolha adequada das palavras, sobretudo dos verbos (todos eles absolutamente sonoros) favoreceram a leitura, tornando-a prazerosa. Foi aí que me dei conta de que havia ali algo raro no jornalismo brasileiro contemporâneo e resolvi comemorar.

Enfim, é mesmo possível conciliar (está certo, mais facilmente numa revista semanal do que num jornal diário) informação e criatividade, produção jornalística e prazer. O trabalho nas redações é estressante, o pique é maluco, mas é possível sair da rotina, caprichar um pouquinho, pensar um pouco em quem vai estar do outro lado do balcão e que nada tem a ver com o nosso sufoco.

Evidentemente, estamos num outro momento da história e, depois que as novas tecnologias aceleraram dramaticamente o processo de produção jornalística, não está mais fácil convencer empresários e editores de que o "baita texto" é importante, mas pelo menos poderíamos, como leitores, ter uma colher de chá de vez em quando. Que tal convidar um (ou uma) repórter de talento para este exercício saudável de produzir um texto que possa ser digerido com prazer (há textos jornalísticos que descem quadrado, parodiando uma campanha publicitária)?

O (a) jornalista brasileiro (a) deveria ter a possibilidade, "de quando em vez", de burilar o seu texto, de  curtir a sua reportagem, refinando-a. É lógico que tudo depende da pauta, mas, ao longo de um ano ( mais de 300 dias e, portanto de centenas pautas para quem trabalha no jornalismo diário), será sempre razoável dispor de umas poucas chances que ensejam este esforço.

Comentando este fato com colegas, logo após a leitura do texto da Carta Capital, recebi várias contribuições.

Para uns, o texto no jornalismo brasileiro se empobreceu porque  as novas gerações andam saindo das faculdades sem a devida preparação, mas acho que esta tese generaliza demais e tendo a discordar dela porque, como professor de jornalismo, tenho encontrado jovens com um enorme talento para escrever (eu sei, a maioria justifica a posição destes colegas). Além disso, não é essa a função básica de um curso de jornalismo, mas do ensino básico, porque não se aprende (há reduzidíssimas exceções) escrever aos 18 anos. O buraco, para quem tem, ao entrar no jornalismo, dificuldade para dominar a língua e produzir algo cuja leitura dê prazer, começou certamente nos bancos do primeiro e segundo graus e se  alargou no ambiente familiar inadequado (falta de incentivo à leitura e emburrecimento à frente de programas "globais" ou de bispos na televisão).

Outros colegas acham que o "baita texto" é incompatível com a rotina das redações porque há repórteres fechando 3 a 4 matérias por dia e, por isso, não dá para fazer mais do que "pentear", "cozinhar" releases e noticias que chegam pelas agências.

Outros, a meu ver equivocados, julgam que o problema está na cabeça dos editores que acreditam que textos criativos, que fogem da camisa de força do lead, sublead, pirâmide invertida, são incompatíveis com a objetividade jornalística. Que objetividade é essa, caras pálidas? Será que ainda tem gente que acredita em isenção, imparcialidade em jornalismo? Eu sei, ainda ouço em algumas universidades (estou falando das melhores, pode crer), que existem um jornalismo informativo, um jornalismo interpretativo e um jornalismo opinião (aliás, chegam a ser nomes de disciplinas e títulos de livros na área!), como se não houvesse, em essência, filtros pessoais, políticos, comerciais e ideológicos em toda e qualquer produção jornalística.

Na prática, pode ser que cada uma dessas posições represente um pouco do fundo de verdade que existe no fato concreto, indiscutível hoje em dia: o nosso texto jornalístico é, em geral, chato, sem cor, sem sabor, sem som, uma coisa pasteurizada, tipo queijo que entra no BigMac (tem gente que acha que chuchu é assim, mas esse gosto de nada me faz lembrar de aspargos).

É importante que a gente discuta mais esta questão no meio profissional, nos cursos de jornalismo, nos grupos de leitores, enfim em todo lugar. Chega de texto chato, com cara de memorando e de ata de reunião.

Agora eu entendo outra coisa: é por isso que alguns veículos empresariais, que seguem o exemplo da mídia tradicional, são irremediavelmente intragáveis e acabam jogados no caminho entre a portaria da empresa (onde comumente são distribuídos) e o ônibus que leva os funcionários de volta para casa. Mas eu sei: aí entram também a censura e a auto-censura, o número infindável de aprovações (vai do diretor de RH ao presidente, em algumas organizações) e a cabeça de executivos que são mais realistas que o rei e podam tudo, sacaneam o texto e a comunicação de maneira geral. Haja Rádio Peão para dar conta desta comunicação interna incompetente!

O texto jornalístico (na mídia e nas empresas) precisa urgentemente de um upgrade, de uma faxina geral. Se a limpeza for para valer, vai faltar rodinho e sabão em pó. O texto jornalístico brasileiro anda mais sujinho do que o combustível da Petrobrás e mais transgênico do que a cabecinha de empresas monopolistas. Pensando nisso: você já leu O mundo segundo a Monsanto? Leia porque, além do bom texto da Marie-Monique Robin (embora a gente esteja lendo na tradução), aflora ali um jornalismo investigativo que a gente tem dificuldade para encontrar. Pudera, cada vez mais os coleguinhas andam comendo na mão das fontes.

Em tempo 1: como a Vale anda gastando dinheiro em propaganda (duas páginas coloridas nos principais jornais deste domingo!), hein? Não estava em crise, demitindo funcionários dias atrás? Não seria melhor para a Vale dialogar com os seus "stakeholders" em vez de buscar convencê-los pela verborragia da propaganda, uma comunicação pra lá de unilateral? Mas há empresas que têm uma boca enorme e orelhas pra lá de diminutas. Sua cultura foi treinada para falar e não para ouvir. Sei não, mas acho que assim não Vale.

Em tempo 2: Falando em barulho (que era a pauta da Carta Capital), foram assustadores os resultados do Relatório de Impacto Ambiental para o aeroporto de Congonhas que a Infraero andou encomendando para uma empresa, publicados pela Folha de S. Paulo no dia 16 de janeiro último. Nem hospital é poupado do ronco dos motores dos aviões. Vai fazer barulho assim na casa do chapéu, como se diz na roça (há uma versão menos light do ditado, mas deixa pra lá, sou educado).

Em tempo 3: que a marolinha não vire um tsunami. Se depender da cabeça de muitos empresários que demitem apenas pelo que andam sonhando (têm pesadelos quando o bolso reduz de volume), vai ser difícil. Que o passaralho não se agite também pelas redações, de onde nunca saiu.

 

Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.  veja mais