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FAPESP Na Mídia

O redescobrimento pela Europa da América Latina

Publicado em 28 junho 2002

510 anos depois da façanha de Cristóvão Colombo, está em curso um novo descobrimento da América Latina pelos europeus. Foi lançado nos últimos meses pela União Européia o programa ALIS, às vezes escrito @LIS, que significa Alliance for the Information Society (Aliança para a Sociedade de Informação) (europa.eu.int/comm/europeaid/projects/alis). O termo Sociedade de Informação geralmente é usado para se referir a grandes aplicações das tecnologias de informação e telecomunicações (TIC) que têm um impacto significativo na população em geral. Tipicamente estão incluídas o uso de redes de informação nas áreas de educação, saúde e governo, além de iniciativas para diminuir a exclusão digital, que priva uma parte da população de acesso aos benefícios destas inovações. No Brasil o governo federal, através do Ministério de Ciência e Tecnologia, sustenta uma atividade chamada Sociedade de Informação, a chamada SocInfo (www.socinfo.org.br), que há vários anos vem sendo coordenado por Tadao Takahashi, que antes havia sido o primeiro coordenador da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - RNP. Um diagnóstico da situação pública de TIC no país foi apresentado pela SocInfo em 2000, com a publicação do seu Livro Verde (www.socinfo.org.br/livro_verde). Neste estudo, que contou com a colaboração de várias centenas de pessoas, foi pintado um quadro amplo do que já foi feito, e indicava caminhos futuros. O Livro Verde era apenas um retrato instantâneo, evidentemente, pois continua evoluindo o quadro com bastante vigor. O programa ALIS tenta estabelecer laços entre iniciativas de Sociedade de Informação na Europa e em 18 países da América Latina - os países continentais de México para o sul, com exceção de Belize e as Guyanas, além da ilha caribenha de Cuba. O programa prevê investimentos europeus de mais de 60 MEuros (milhões de Euros, a nova moeda européia, valendo praticamente US$1) em três anos. A parte do leão será destinada a projetos multilaterais na aplicação de TIC às áreas de governo local, educação e diversidade cultural, saúde pública e inclusão digital. Os projetos precisam envolver pelo menos 8 entidades em pelo menos 3 países europeus e um da América Latina. Informações sobre como preparar e submeter projetos estão disponíveis nos sítios do ALIS e da SocInfo. Uma outra perna desta iniciativa diz respeito às redes de computadores usadas pela comunidade de ensino e pesquisa. No Brasil, como em muitos países, a Internet chegou ao país pelas mãos da comunidade acadêmica, e as principais redes estão completando 10 anos em 2002 (v. coluna de 25 de abril). A Internet comercial, usada pela maior parte da população é mais recente, tendo iniciado sua operação entre nós entre 1994 e 1995. Apesar de ter sido criada um serviço público de acesso Internet através das redes comerciais, continua existindo uma rede dedicada à comunidade de ensino e pesquisa por duas razões principais. Primeiro, por questões de escala continua sendo mais barato organizar e operar uma rede dedicada a esta comunidade, com mais de 300 instituições servidas, do que seria se cada instituição contratasse um serviço equivalente. Mas a razão mais importante é que estão relativamente limitados os serviços prestados pelas redes comerciais, e a rede acadêmica dedicada poderá oferecer algo a mais em termos de serviços. De fato, este aspecto da tecnologia das redes acadêmicas ser mais "avançada" do que das comerciais é fundamental para justificar sua sustentação com recursos públicas - da mesma forma que a Internet comercial no país foi uma generalização da Internet acadêmica, que havia mostrado o caminho, continua sendo obrigação das redes acadêmicas manterem esta dianteira, sempre desenvolvendo e oferecendo para seus usuários um atendimento diferenciado. Isto normalmente quer dizer que as aplicações de rede que podem ser usadas são qualitativamente diferentes daquelas possíveis na rede comercial, e se distinguem pela volume ou taxa de informação transmitida, ou pela qualidade de serviço (desempenho) prestada, possibilitando, por exemplo, o uso eficaz de aplicações multimídia interativas, como videoconferência ou realidade virtual remota. Estes serviços então permitem o desenvolvimento e uso de novas formas de cooperação remota entre pesquisadores em diferentes áreas de saber, para a realização de trabalhos cooperativos. Estes incluem grupos nas áreas de física, astronomia, meteorologia, biologia molecular e saúde, para citar apenas alguns dos mais destacados. Este "quê" de diferença está no programa Internet2 dos EUA, e seguido no país pela iniciativa RNP2 (http://www.rnp.br/rnp2). Ele deverá ser mantido em novos projetos de pesquisa em redes ópticas a serem iniciados em breve no sudeste do país, dentro dos programas TIDIA da Fapesp (http://tidia.fm.usp.br) e Giga da RNP (junto com a Fundação CPqD de Campinas). O programa ALIS está procurando criar infra-estrutura de redes acadêmicas para estreitar a cooperação entre pesquisadores na Europa e América Latina. Na Europa, um década de cooperação intensa entre as redes de ensino e pesquisa resultou em 2002 no lançamento da rede Géant, que interliga mais de 30 países, usando taxas de transmissão até 10 gigabits por segundo (Gbps) (http://www.dante.net/geant). Adicionalmente, serve para estabelecer conexões intercontinentais em alta velocidade. Só para os EUA há hoje 3 conexões da Géant, cada um com 2,5 Gbps. Os europeus também têm suas conexões diretas para o oriente, e agora procuram incluir a América Latina. Por motivos históricos, quase a totalidade das conexões Internet entre América Latina e o resto do mundo passa pelos EUA. É o caso das redes comerciais e acadêmicas brasileiras, com uma única exceção: há várias meses foi estabelecida uma conexão direta entre as redes acadêmicas do Brasil e Portugal, de pequena capacidade (2 Mbps). Uma conseqüência direta disto é a inexistência de conexões diretas entre os países da América Latina - uma comunicação entre Brasil e Argentina também passa pelos EUA. No passado isto poderia até ser justificado, pois era usada comunicação via satélite, onde o preço independia da distância. No mundo das fibras ópticas submarinas, esta equação mudou. Um estudo da malha atual de conexões físicas entre países da região demonstra uma riqueza de alternativas, incluindo cabos operados pela Global Crossing (www.globalcrossing.com/xml/network/net_map.xml) e pela E-mergia (da Telefônica da Espanha) (www.e-mergia.com/portuguese/content/about_network.htm), para citar apenas dois. A proposta de interconexão de redes acadêmicas entre Europa e América Latina foi discutida há duas semanas num encontro na Espanha, com a presença de representantes das redes dos dois lados, incluindo 12 dos 18 países latinos. A princípio, a iniciativa européia está sendo estudada seriamente, e a solução técnica apontada é o aproveitamento da nova infra-estrutura física de cabos submarinos para criar um backbone latino-americano, que seria ligado diretamente na rede européia, Géant. Esta nova rede de interconexão latina já foi batizada de CLARA (Cooperação Latino-Americana para Redes Avançadas), e estão previstos para breve outros encontros para aprimorar o seu projeto - precisam ser encontradas soluções também para países não costeiros, além de Cuba, pois estes países hoje não têm acesso a nenhum cabo óptico submarino. O prazo para encaminhar um projeto para ALIS é o final de outubro deste ano. A América Latina tem uma longa história de relações com a Europa, e o estreitamento de laços culturais e científicos através de projetos de cooperação internacional, como estes previstos dentro do escopo do programa ALIS faz uma parte importante nela - a primeira de grande impacto da era da Internet. Michael Stanton (michael@ic.uff.br), que é professor titular de redes do Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense, escreve neste espaço desde junho de 2000 sobre a interação entre as tecnologias de informação e comunicação e a sociedade. Os textos destas colunas estão disponíveis para consulta.