Notícia

Galileu

O que restou do Cerrado de São Paulo

Publicado em 01 novembro 2002

São Paulo perdeu 87% de seus cerrados no período de 1962 a 1993 e certamente já ultrapassou a barreira dos 90%. Apesar de ter a maior estrutura governamental de meio ambiente e de contar com o maior contingente de militantes ecologistas do Brasil, o Estado assistiu praticamente de braços cruzados a essa devastação. Não bastasse a perda dessas áreas naturais, restam ainda duas ameaças: a da extinção de espécies animais e vegetais que só habitam as regiões desse ecossistema e a da contaminação do Aqüífero Guarani, o imenso reservatório de águas subterrâneas, que se estende pelos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e também pelo Uruguai, Argentina e Paraguai. DEGRADAÇÃO FOI INTENSA DEVIDO À FALTA DE CONSCIENTIZAÇÃO DAS COMUNIDADES E DE LEIS ESPECÍFICAS Não é mais possível estabelecer nenhum programa de exploração racional de produtos dos cerrados de São Paulo para a indústria farmacêutica, de papel ou de alimentos. 'Não há mais áreas em quantidade suficiente para esse tipo de uso', diz Marcos Buckeridge, presidente da Sociedade Paulista de Botânica e pesquisador do Instituto de Botânica da SMA. Para ele, só resta esperar pelo sucesso dos programas de recuperação, e isso exige mais pesquisas sobre as espécies dessas áreas. Além de lobos-guarás, tamanduás e outros animais e plantas típicos do cerrado, em São Paulo esse ecossistema abriga espécies que não vivem em nenhuma outra região do país, segundo estudos de pesquisadores como João Batista Baitello e Giselda Durigan, do Instituto Florestal da SMA, e Marisa Dantas Bittencourt, do Instituto de Biociências da USP, e coordenadora do projeto Viabilidade de Conservação de Remanescentes de Cerrado no Estado de São Paulo, do programa Biota, da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Um dos fatores que levaram à quase total ocupação das áreas de cerrado do Estado pela agricultura foi a falta de leis específicas para a proteção desse ecossistema. Apesar de ser contemplado no Código Florestal, ele não é considerado Patrimônio Nacional pela Constituição, como a Mata Atlântica, o Pantanal e a Floresta Amazônica. Além disso, os agricultores e comunidades rurais locais têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o emprego das espécies do cerrado nem sobre as possibilidades de exploração econômica de algumas delas, segundo a agrônoma Maristela Simões do Carmo, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), campus de Botucatu. Os estudos coordenados por Bittencourt se concentraram numa área correspondente a 10% dos remanescentes de cerrado no Estado. Só nessa área houve perda de 39% da vegetação nos últimos dez anos, segundo a pesquisadora. Para ela, a sociedade não se sensibilizou com a necessidade de preservar o cerrado por causa de sua biodiversidade. Os pesquisadores tentam agora chamar a atenção para o risco de contaminação por agrotóxicos do Aqüífero Guarani, pois as últimas manchas de cerrado estão cercadas por áreas agrícolas. PARA NAVEGAR - Programa Viabilidade de Conservação de Remanescentes de cerrado no Estado de São Paulo - Programa Biota-Fapesp - Instituo Florestal - Instituto de Botânica EXCLUSIVO ONLINE - Viabilidade da conservação dos remanescentes de Cerrado - Estudos socioeconômicos - Produtos do Cerrado e seu uso sustentável