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Gazeta Mercantil

O que os pioneiros da web diriam de Dona Isabel?

Publicado em 02 fevereiro 2009

Por Clayton Melo

Dona Isabel está toda serelepe com suas navegações virtuais. De sua página no Orkut, envia convites para que amigos a adicionem à rede social digital mais famosa do Brasil. Um desses amigos sou eu. Dona Isabel, que conheço há anos pelo fato de ter namorado sua filha, a Ana Paula, é uma maravilhosa senhora portuguesa que vive no Brasil há décadas. Amante da leitura, tem livros de poemas publicados de forma independente. Alguns de seus versos foram parar em sua página no Orkut. "Sou uma eterna sonhadora/ descortino o sol em noites de luar/ vejo o meu castelo de luz ruir e tenho a ilusão de que nunca irá cair/ Sinto na consciência a minha loucura/ Busco cegamente o sonho de ser Eu/ O Eu que se perdeu algures em noite escura".

Ao aceitar o convite virtual de Dona Isabel, tive mais um sinal de que a transformação nas relações sociais provocadas pela web se alastraram de vez e de que a web há muito não se restringe ao seleto grupo de adolescentes de classe média - sobre isso, basta observar que 50% dos usuários da rede no País pertencem às classes CDE, segundo dados do Ibope/NetRatings.

Mas o episódio também me leva a outras elucubrações. Será que os pioneiros da web tinham a ideia de aonde essa engenhoca poderia chegar? Teria passado pela cabeça deles que, no ano passado, a internet contaria com mais de 1,5 bilhão de usuários no mundo, segundo dados da União Internacional de Telecomunicações? Ou que haveria 346 milhões de leitores de blogs no planeta em março de 2008 (Technorati e comScore)?

E provável que não, principalmente se pensarmos que as pesquisas que originaram a rede surgiram no contexto da Guerra Fria. Em todo caso, a rede carrega desde o seu nascimento um componente que pode, em certa medida, explicar seu poder revolucionário: o sonho dos cientistas de que aquele projeto modificaria a sociedade. "Enraizou-se num sonho científico de transformar o mundo através da comunicação por computador, embora alguns participantes do grupo se satisfizessem em simplesmente promover a boa ciência computacional", escreve Manuel Castells em "A Galáxia da internet" (Jorge Zahar Editor).

Tudo começou quando o Departamento de Defesa dos EUA convocou cientistas para desenvolverem, a partir de 1969, um sistema de comunicação capaz de interligar pontos estratégicos, como bases das Forças Armadas. A idéia foi levada adiante por meio da Advanced Research Projects Agency (Arpa), que destinou uma verba polpuda a uma rede chamada Arpanet .A estreia dessa rede se deu em 1972, com a interligação de quatro computadores instalados em diferentes universidades dos EUA.

 Essas pesquisas culminaram, em 1990, na criação daqui no que de fato abriu a rede: a world wide web, o "www", sistema que permite interligar as informações armazenadas em milhões de computadores. O responsável pelo invento foi o físico inglês Tim Berners-Lee, considerado por isso o "pai" da web.

Nesse mesmo ano, Alexandar Mandic criou o primeiro provedor de intemet do Brasil, o Mandic. A "empresa" de Mandic funcionava no apartamento do empresário e permaneceu lá até que, em 1995, os vizinhos começassem a reclamar das 80 linhas telefônicas instaladas num edifício residencial, como relata matéria do site IDG. Outro pioneiro é Demi Getschko. Ele estava na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em janeiro de 1991, quando foi feita a conexão web inaugural do Brasil. É preciso falar também de Jack London, economista brasileiro precursor do comércio eletrônico com a livraria virtual Booknet, vendida para o GP Investimentos em 1999 e que mais tarde resultou no Submarino. Marcos de Moraes é outro a ser relembrado. Filho de Olacyr de Moraes (o ex-rei da soja), ele criou em 1996 o Zip.net responsável pelo Zipmail, o primeiro e-mail gratuito do Brasil. Passados cerca de dez anos do período em que a web se tomou de fato um negócio no País, relembrar os pioneiros — outros tantos poderiam ser citados — e histórias do surgimento da intemet é um exercício importante para compreendermos o trajeto percorrido até que tivéssemos aventuras virtuais como a de Dona Isabel Por pertencer a uma parcela da população cuja presença na web seria improvável há até pouco tempo, ela é uma das faces de um país que, aos poucos, se entrega ao universo digital.

 

Clayton Melo - Editor de ComunicaçãoE-mail: cmelo@gazetamercantil.com.br.