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Observatório da Imprensa

O que os jovens fazem na web

Publicado em 10 fevereiro 2010

Um estudo da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em parceria com o Dotz, site de fidelização on-line, mostra que os jovens internautas brasileiros possuem comportamento e perfil parecido com os verificados em pesquisas similares nos EUA, Inglaterra e Espanha. Através de um questionário aplicado via web, em setembro do ano passado, o estudo levantou as características do acesso, o uso da rede para atividades de comunicação, informação e transações, seu impacto sobre o consumo de outras mídias e a posse de bens relacionados com o meio digital (telefone celular, DVD, etc) de 420 jovens brasileiros entre 16 e 24 anos, e as comparou com trabalhos similares em outros países.

"Nos últimos 15 anos aumentaram radicalmente as opções de consumo de mídia e comunicação. Nossa intenção foi verificar como estas novas opções estão se combinando com formatos de mídia tradicionais, 10 anos após o aparecimento do acesso comercial à web no Brasil", afirma Marcelo Coutinho, professor de pós-graduação da ESPM responsável pelo projeto.

Embora destacando que os respondentes apresentam uma intensidade de uso e renda acima da média nacional (em função da sua inscrição em um site de fidelização on-line), os resultados foram similares aos apresentados em estudos consagrados em outros países, como o "Children, Young People and the Changing Media Environment", da London School of Economics (Inglaterra), o "Kids, Media and The New Millenium", da Harris Interactive sob a direção da Universidade de Stanford (EUA), o "Born To Be Wired", realizado pela Carat Interactive (EUA) e o "Uso y actitud de los jóvenes hacia Internet y la telefonía móvil", de Price Waterhouse Coopers da Espanha.

Entre os principais dados do levantamento da ESPM/Dotz estão:

** O uso praticamente cotidiano da rede: 87,6% dos respondentes utilizam a rede várias vezes por dia, sendo que 80% costumam ficar online pelo menos 2 horas diariamente

** 98% afirmaram utilizar o email "sempre" ou "freqüentemente", sendo que 67% possuem 3 ou mais contas de email

** 73,1% utilizam mensagens instantâneas "sempre" ou "freqüentemente", números superiores aos verificados nos estudos dos EUA e Inglaterra

** 48% "sempre" utilizam a rede para buscar notícias em geral e 30% "sempre" utilizam a rede para buscar informações culturais, mesmo percentual verificado na busca de informações sobre emprego e mercado de trabalho. O padrão de uso da rede na busca de informações é similar ao observado nos estudos dos EUA e Europa

** 53,9% "sempre" ou "freqüentemente" realizam download de música para o micro, sendo que 26,7% possuem tocadores de MP3

** 47,1% declararam que o tempo que passam vendo televisão diminui desde que começaram a utilizar a web. Para a leitura de jornais este número foi de 41% e para a leitura de revistas foi de 30,5%. Esses dados são consistentes com dos EUA e Europa

** 94,6% dos respondentes possuem telefone celular, 60,2% possuem DVD e 39,3% possuem máquina fotográfica digital

** 65% dos entrevistados utilizam a web para buscar informações sobre preços e/ou características de telefones celulares, 60% para máquinas fotográficas digitais, 36% para automóveis, 35% para DVDs e 30% para viagens.

Nova cultura

O estudo alerta para o impacto que o hábito do consumo simultâneo de mídia já causou nos segmentos de música e rádio e pode, em breve, chegar no segmento das imagens. Segundo os estudos realizados nos EUA, 68% dos jovens escutam música e 45% ouvem rádio quando estão on-line. No Brasil, de acordo com o levantamento ESPM/Dotz, 55% dos jovens realizam download de música com freqüência, e 26% "sempre" ou "freqüentemente" escutam rádio via web, percentual superior aos 23% que afirmaram que "nunca" escutam rádio através da rede.

"A medida que caem os preços dos gravadores de DVDs e aumenta a disponibilidade de banda larga, o segmento de imagem pode passar por um processo de ´liquidificação´ do conteúdo similar ao que verificamos no áudio, no qual o consumidor determina a forma de consumo e interfere diretamente na sua produção", afirma Coutinho.

Segundo o pesquisador, não é difícil imaginar internautas trocando episódios de seriados ou novelas on-line, ou mesmo inserindo trechos de uma produção em outra. "Tenho indícios que isto já está acontecendo em uma escala artesanal, mas os avanços nos softwares de gravação e edição podem fazer o fenômeno "explodir" em poucos anos. É preciso lembrar que há apenas uma década a web começava a engatinhar no Brasil". No levantamento da ESPM/Dotz, 40% dos respondentes afirmaram realizar freqüentemente download de arquivos audiovisuais (filmes e clips).

O estudo também indicou um forte consumo individualizado de mídia digital: 62% dos jovens acessam a web através de um computador de uso exclusivo e 54% deles possuem computador no quarto. "O consumo da mídia está se tornando uma atividade cada vez mais privada e personalizada", destaca Coutinho.

Os estudos dos outros países apontam para aparecimento do que foi chamado de bedroom culture (a "cultura" do dormitório), caracterizada por um consumo intensivo de mídia em caráter privado, devido à falta de espaço ou costume para atividades ao ar livre, a preocupação dos pais com a segurança pública e a disponibilidade de um conteúdo cada vez mais atrativo através da mídia digital. O mesmo fenômeno parece estar em ação no Brasil.

"Velhos hábitos"

Coutinho lembra que entre 1840 e 1900 a mídia experimentou uma evolução notável: o aparecimento da litografia, do telégrafo, da fotografia, da impressão colorida, do telefone, do rádio e do cinema. Dada a expectativa de vida na época, poucas pessoas puderam presenciar todas aquelas alterações no curso de sua existência.

Hoje, uma criança nascida em 1991, ano da primeira conexão do Brasil com a Internet (via Fapesp, a 9.600 Kbps), está no início da sua adolescência e já presenciou o aparecimento em nosso país do telefone celular, do gravador de CD, da web (há 10 anos, em 1995), do DVD, da banda larga, dos tocadores de MP3 e da telefonia IP.

O estudo conclui que o jovem consumidor está crescendo em um "ambiente midiático" bastante diferente do encontrado pelos seus pais.

"Os brasileiros nascidos nos anos 70 incorporaram os meios digitais aos seus hábitos de consumo de mídia. Seus filhos não terão "velhos hábitos" para conviver com os novos meios. A mudança é radical", diz o professor da ESPM, acreditando que este fenômeno terá um impacto profundo sobre a produção de conteúdo, o marketing e a comunicação publicitária, na medida em que os formatos digitais de produção, distribuição e veiculação atingirem a maioria da população brasileira que vive acima da linha de subsistência.

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