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O que os críticos chamam de Literatura Brasileira Contemporânea?

Publicado em 22 abril 2020

Por Tálita Vicente Parreira

Ao tratarmos sobre literatura contemporânea em seu quadro caótico, tanto politicamente quanto culturalmente, nos deparamos com episódios marcados pela censura e alienação.

Após o ano de 1945 as transformações no Brasil foram enormes, essas mudanças aconteceram em todos os setores da vida, conflitos iam se sucedendo de maneiras trágicas: suicídio de Getúlio Vargas, renúncia de Jânio, Revolução de 1964, governos militares, inflação, AI-5. A censura direcionou a produção da literatura brasileira contemporânea quebrando o paradigma do modernismo brasileiro.

A renúncia do presidente Jânio Quadros e o golpe militar concebiam um clima de medo no país que além da censura, aqui enfatizada no âmbito da produção cultural brasileira, precisou usar disfarces ou retroceder. Em meio a esse caos, em 1970 com a conquista do tricampeonato mundial de futebol, uma onda de nacionalismo ufanista foi investida pelo regime militar espalhando-se por todo o país, como instrumento de alienação para as mentes entorpecendo a consciência da maioria da população por um bom intervalo de tempo. Dessa forma, a cultura marginalizou-se.

É perceptível que o que se mantém sempre é uma estreita relação com o poder, seja ele qual for onde o que está em jogo, nesse caso, é o controle da sociedade. Com isso, alguns poetas aproveitaram todo esse panorama e começaram a escrever ou compor seus trabalhos seguindo tudo aquilo que viam, ou observavam retratando de forma simples, a verdade dessa sociedade.

Portanto, surgiram movimentos que mais tarde se tornariam dignos de assumirem atitudes vanguardistas e acabariam gerando uma tradição, que com a crise de representação advinda desse período, era negada assumindo um radicalismo que resgata uma subjetividade, uma linguagem e experiências cotidianas das gerações característica da literatura contemporânea. Esse ato de negar as tradições é objeto de reflexão sobre a própria literatura.

Assim, esse ensaio buscará discutir o que os críticos chamam de literatura contemporânea, literatura essa marcada por uma multiplicidade de tendências, valores, características estéticas e representação de vozes que reúne um conjunto de aspectos de diversas escolas literárias anteriores, revelando destarte, um misto de inclinações que irão inovar a poesia e a prosa.

Como possível articulação, trabalhar literatura contemporânea é um desafio, tanto por sua matéria histórica quanto por sua complexidade. Pensar o termo contemporaneidade já traz indagações suficientes para problematizar um conceito, uma definição. A transitoriedade e efemeridade do contemporâneo fazem com que seja dificultoso alcançar essa definição e pensar o sentido de contemporaneidade, pois a ausência de um projeto ideológico, de um rótulo ou um manifesto que a determine faz com que essa dificuldade se acentue. Como afirma Schollhammer (201, p. 09), ”se procurarmos um conteúdo do termo que ultrapasse a sua compreensão banal, de indicador da ficção que é produzida atualmente ou nos últimos anos, poderíamos apontar para características particulares da atualidade, como, por exemplo, ser substituto do termo ‘pós-moderno’”.[1]

Por mais que o uso do termo “pós-moderno” não agrade de forma alguma os críticos, pois há pontos em comuns e divergências que não cabem na substituição. A literatura contemporânea não se acaba em um conceito único, fechado. É termo vazio a ser preenchido a posterioi pela crítica e pela historiografia literária. Independentemente de ainda não ser denominada por um rótulo, a literatura das últimas décadas não é produzida, lida por apenas um viés e sim por uma multiplicidade temática e formal que é explicada por Moriconi (2002, s/p) da seguinte forma: “o afastamento da literatura em relação a uma exigência social ou política mais articulada vai se acentuar a partir dos anos 80. “Ideologia / eu quero uma pra viver”, é o brado retardatário do roqueiro Cazuza, dando o tom da carência de seu tempo. Nessa linha, um aspecto crucial da alegada crise do final do século é o fato de que os escritores emergentes se veem perdidos, não sabendo muito bem em que valores ancorar suas obras. Cada escritor se vê diante da circunstância de ter que criar seu próprio projeto individual, o qual deve incluir uma definição ao menos implícita do tipo de destinatário, do tipo de leitor que quer, pois este também perdeu sua nitidez e homogeneidade. Se no paradigma modernista escrevia-se para construir a literatura brasileira, no final do século essa justificativa ética da literatura já não é suficiente, e não há na verdade, por enquanto, uma vontade tão grandiosa quanto aquela para ocupar o lugar meta-formativo” .[2]

A partir da década de 70 a produção literária brasileira mudou. As obras produzidas após o fim do regime militar e da censura “prévia” do Ato intitucional n° 5 que, como enfatiza Pellegrini (2008, p. 38-39), “[…] impôs seus ‘padrões de criação’, cortando, apagando, proibindo ou engavetando incontáveis peças, filmes, canções, novelas de TV, artigos de jornal, romances e contos”[3]. E que dessa forma, toda produção que viesse a luz, nesse período, já conteria em sua forma, elementos que visavam segundo a autora, burlar a percepção do censor, tais como alusões, elipses, signos e alegorias, numa espécie de código cifrado que só aos iniciados seria dado esclarecimento.

Para ela, a censura política da ditadura desempenhou dois papéis norteadores da ficção brasileira, por um lado ela foi formadora da literatura de resistência e por outro lado ela projetou um novo horizonte de produção, tendo como condutor a solidificação de uma indústria cultural, principalmente por intermédio da televisão. A censura foi usada pelo Estado para controlar a produção cultural impedindo a circulação de certos conteúdos de esquerda e incentivando a produção cultural que afirmava o status a quo, que assim deu início a um processo de modernização acelerado, mesmo ocorrendo de forma conservadora. “Na verdade, um dos aspectos mais importantes para uma visão ampliada do problema refere-se à consolidação dos esquemas mercantis de produção cultural e literária, ou seja, à consolidação de uma indústria cultural brasileira. Assim, parece claro que reduzir a produção cultural e literária dos anos 70 à influencia exclusiva da censura é deixar de lado o formidável processo de gradativa e inexorável transformação nos modos de produção cultural como determinante, em última instância, das novas tendências que se gestavam à sua sombra, e que, a partir da década de 80, revelaram-se extremamente fortes e atuantes”.

A autora ainda traz a atuação de dois tipos de censura nesse período, a censura política e a econômica. A censura política vetava qualquer tipo de arte ou manifestação cultural já a econômica impunha uma indústria cultural no país, conhecida como capitalismo selvagem com o escopo de regular o produto cultural o transformando em mercadoria e vetando qualquer deles que não se encaixasse nas expectativas. Assim, a literatura que antes era vista como criação passa a ser vista como produção. “Uma das formas de compreender a extensão e os efeitos desse processo, no Brasil, é analisar como elemento importante o funcionamento do mercado editorial, desde que, a partir de então, é ele quem definitivamente vai determinar as coordenadas da produção e consumo no interior do campo literário”.

Com essa produção e simultaneamente urbanização, a literatura passa a valorizar ambientes urbanos, industriais de produção cultural com a construção de textos literários imantados de outras linguagens e saturados de signos do universo das imagens eletrônicas, resultado do diálogo entre a literatura e a publicidade, o jornalismo e, nos últimos anos, a Internet. Dessa forma, o gosto do público consumidor e a pressa do mercado influenciam a elaboração do texto ficcional.

Devido ao cinema e a televisão, a urbanização acelerada e a influência cultural da produção norte-americana, são traços comuns em países de contextos coloniais como o Brasil e os países da América Latina, onde Candido (2003, p. 201) afirma que: “nos nossos dias aparecem outros traços para dar certa fisionomia comum, como, por exemplo, a urbanização acelerada e desumana, devida a um processo industrial com características parecidas, motivando a transformação das populações rurais em massas miseráveis e marginalizadas, despojadas de seus usos estabilizadores e submetidas à neurose do consumo, que é inviável devido à sua penúria econômica. […] No âmbito cultural, ocorre em todos os nossos países a influência avassaladora dos Estados Unidos, desde a poesia de revolta e à técnica do romance até os inculcamentos da televisão, que dissemina o espetáculo de uma violência ficcional, correspondente à violência real, não apenas na Metrópole, mas de todos nós, seus satélites”.[4]

Essa incorporação de recursos midiáticos no texto literário, juntamente com a recorrência ao tema da violência na literatura brasileira, está relacionada também, além do crescimento desumano das cidades e da influência norte-americana, a outro fator local: mais uma vez, a ditadura militar. Uma das linhas de força da literatura contemporânea é a representação da violência. Para Resende (2008, p. 27), a literatura contemporânea é marcada por uma multiplicidade de temas e formas “no momento de descrença nas utopias que remetiam ao futuro”.[5]

Tálita Vicente Parreira é letróloga português/Inglês – UEG (2019), Acadêmica de Direito – Unimb, Mestranda em Letras e Linguística – UFG, Professora da Inclusão na Rede Pública Estadual de Goiás.

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Notas:

[1] SCHØLLHAMMER, K. E. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

[2] MORICONI, I. A literatura ainda vale? (literatura e prosa ficcional brasileira: estados da arte – notas de trabalho) In: Congresso Internacional Abralic. 8, 2002. Belo Horizonte. Anais… Belo Horizonte: UFMG, 2002, s/p.

[3] PELLEGRINI, T. Despropósitos – estudos de ficção brasileira contemporânea. São Paulo: Annablume; FAPESP, 2008.

[4] CANDIDO, A. Literatura e sociedade. São Paulo: Companhia Nacional, 2000. A nova narrativa. In: A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 2003.

[5] RESENDE, B. Contemporâneos: expressões da literatura brasileira no século XXI. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2008.

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