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Gazeta do Povo

O que já sabemos sobre o uso terapêutico do canabidiol

Publicado em 31 agosto 2019

Por Jéssica Maes

Os resultados de uma nova pesquisa, feita na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), se une à já extensa literatura científica que demonstra os efeitos positivos do canabidiol (CBD) - um derivado da cannabis, a maconha. O estudo pré-clínico (feito com animais de laboratório), concluiu que o canabidiol contribui para diminuir a agressividade induzida pelo isolamento social. As conclusões foram publicadas no periódico científico “Progress in Neuro-Psychopharmacology and Biological Psychiatry”. 

Existem diferentes tipos de agressividade, como a defensiva e a territorial. Os pesquisadores brasileiros investigaram esse último tipo isolando um camundongo num ambiente durante dez dias, de modo que, depois desse período, e ele se sente “dono” deste local. Em seguida, outro camundongo, um intruso, é colocado brevemente no mesmo espaço e a maior parte dos camundongos residentes atacam o intruso. 

“Quando esse camundongo residente que se torna agressivo era tratado com canabidiol, ele diminuía muito a agressão ou o ataque a esse intruso”, conta o líder do estudo, Francisco Silveira Guimarães. “Ainda não havia estudos [que comprovassem] se o canabidiol poderia modificar comportamentos agressivos”. 

A cannabis tem mais de 500 substâncias químicas, explica o professor, e cerca de uma centena delas têm estruturas semelhantes e são chamadas de fitocanabinoides (componentes que interagem com o sistema endocanabinoide do cérebro). Apesar de extraído da maconha, o CBD não produz dependência nem efeitos psicotomiméticos. 

Na cannabis, a substância responsável por isso é o tetraidrocanabinol (THC), enquanto que o canabidiol bloqueia alguns efeitos do THC. “Contudo, o próprio THC tem efeitos terapêuticos, como analgésico ou contra vômitos”, pondera o pesquisador. Em suma, ainda que o THC pareça ter mais efeitos adversos do que o CBD, usar o THC e fumar maconha não são a mesma coisa. A substância tem o potencial de abuso, mas isso não quer dizer que ela não tenha potencial médico.

Os efeitos do CBD 

Apesar de já ter sido estudado em situações diversas, ainda não se sabe, ao certo, todas as formas como o canabidiol age no organismo. Como acontece frequentemente com medicamentos, conhecemos os efeitos, mas não entendemos plenamente de que forma eles se dão. “O canabidiol é uma molécula muito complexa e tem vários mecanismos. Aparentemente, ele tem vários efeitos e a maior parte deles foi descrita em estudos pré-clínicos, mas alguns já foram demonstrados em estudos clínicos (experimentos em humanos), como anticonvulsivantes e ansiolíticos”, afirma o professor da USP. 

Ele esclarece que, atualmente, a única indicação terapêutica do CBD bem apoiada em evidências científicas é no tratamento de epilepsia severa em crianças, com as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut, que normalmente não respondem a outros anticonvulsivantes. Em 2018, a Food and Drug Administration (FDA, que regula alimentos e medicamentos nos EUA), autorizou, pela primeira vez no mundo, um medicamento composto por um ingrediente ativo derivado da maconha. O Epidiolex (canabidiol) é usado no tratamento destas síndromes. No portal Harvard Health Publishing, da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, o médico e professor Peter Grinspoon aponta que, em vários estudos, o CBD conseguiu reduzir o número de convulsões e, em alguns casos, cessou a ocorrência delas. 

Outros usos ainda carecem de resultados mais sólidos até que possam ir parar nas prateleiras das farmácias - o que vale para qualquer fármaco. “É preciso um número grande de estudos, em vários centros, para comprovar não só que [o fármaco] é eficaz, mas também a sua segurança”, diz Silveira. Rafael Guimarães dos Santos, pesquisador do departamento de Neurociências da FMRP-USP, explica o Epidiolex já está em processo de aprovação na União Europeia e que outros países, como Israel e Canadá, têm desenvolvido pesquisas com extratos ricos em canabidiol (nesse caso, o CBD não está puro) para o tratamento de autismo e dor crônica. 

“O CBD pode oferecer uma opção para o tratamento de diferentes tipos de dor crônica. Um estudo [publicado] no ‘European Journal of Pain’ mostrou, usando um modelo animal, que o CBD aplicado na pele pode ajudar a diminuir a dor e inflamação devido à artrite”, escreve Grinspoon. “Outro estudo demonstrou o mecanismo pelo qual o CBD inibe a dor inflamatória e neuropática, dois dos tipos de dor crônica mais difíceis de tratar”. Ele destaca que mais estudos em humanos são necessários nesta área para substanciar as alegações sobre o controle da dor. 

De acordo com o cientista norte-americano, o CBD também é comumente usado para tratar a ansiedade e, em pacientes que sofrem com insônia, estudos sugerem que ele pode ajudar a cair no sono e a permanecer dormindo. 

“No Brasil, ainda não temos uma autorização clara da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para [a comercialização] de uma medicação [exclusivamente] de canabidiol”, aponta Santos. “O que temos é chamado de uso compassivo: para crianças e adolescentes que têm epilepsias graves, e que não respondem às medicações disponíveis no Brasil. Essas famílias têm autorização para entrar com pedidos com a Anvisa para importar os produtos.” 

“A Anvisa autoriza a importação excepcional de produtos com canabidiol para os pacientes que receberam dos seus médicos a indicação de uso. São importações excepcionais para atender casos individuais em que o médico identificou o canabidiol como uma possibilidade de tratamento”, detalhou a agência, em nota. De acordo com a agência, estas autorizações de importação demoram entre 20 e 30 dias. 

O único medicamento registrado no país, atualmente, com derivados da cannabis é o Mevatyl - spray de THC e CBD indicado para tratar pacientes adultos que apresentam espasmos moderados a graves, por causa da esclerose múltipla. 

Santos acrescenta que, em fase experimental, há estudos do canabidiol - inclusive na própria USP, que é um pólo de pesquisa no assunto - voltados ao tratamento da psicose e da doença de Parkinson. “O efeito antipsicótico [do CBD] tem bastante evidências, mas ainda não é aprovado em nenhum lugar do mundo, até onde eu sei. No caso do Parkinson, ele é usado não apenas para tratar os sintomas motores, mas parece ajudar também na ansiedade, depressão e psicose”, pontua. Há, ainda, pesquisas avaliando os efeitos do composto para pacientes que sofrem com ansiedade e depressão. 

Como qualquer medicamento, o CBD tem efeitos adversos. “No caso do canabidiol, não estão descritos efeitos adversos severos, que possam fazer com que a droga seja retirada do mercado. São efeitos no trato digestivo, como diarreia, por exemplo, ou alterações de sono”, observa Silveira. Um fator importante é a interação do CBD com outros medicamentos, acelerando ou retardando o metabolismo de outras drogas - podendo torná-las tóxicas ou ineficientes. “Por isso é muito importante as pessoas não usarem achando que, só porque é um composto natural, não tem nenhum efeito adverso. Tem que ter uma orientação médica”, reforça Santos. 

Discussão atual 

O cultivo para fins científicos e medicinais e o registro de medicamentos à base de cannabis (e análogo sintéticos) estão entre os assuntos que devem movimentar o debate público brasileiro neste segundo semestre. No último dia 19 de agosto, encerrou- se o prazo das consultas públicas promovidas pela Anvisa sobre estes temas. Ao longo de dois meses, foram recebidas 1.154 contribuições - 93% delas de pessoas físicas. 

“Quem iniciou esse movimento [de procura pela cannabis terapêutica] não foi a indústria, foram as pessoas que precisam da cannabis para uso medicinal”, aponta o advogado Emílio Figueiredo, consultor jurídico de associações de pessoas que fazem uso da cannabis como ferramenta terapêutica. “O que as pessoas estão pedindo são regras claras sobre a cannabis.” 

A empresa HempMeds, primeira a intermediar a importação de produtos terapêuticos derivados da cannabis para o Brasil, tem em seu catálogo itens que vão de US$ 79 a US$ 259. A esse valor são acrescidos US$ 80 de frete. “A gente não pode produzir, não podemos plantar, colher, nem enfrascar aqui”, conta o diretor de assuntos médicos da HempMeds Brasil, Junior Gibelli. Para ele, a única forma de baratear esses produtos é que a empresa possa, pelo menos, plantar e fazer a extração do óleo de cânhamo em território nacional. “Acreditamos que se isso fosse feito aqui no país esse valor diminuiria em mais de 50%.” 

As informações coletadas nas consultas públicas serão analisadas por comitês técnicos e, por fim, votadas pela diretoria colegiada da agência, para que sejam estabelecidas regras a respeito do uso terapêutico de derivados da planta. Ao final de julho, em audiência na Câmara dos Deputados, o presidente da Anvisa, William Dib, disse que estas normas seriam estabelecidas ainda esse ano, até novembro. 

“A Anvisa também é um órgão suscetível a pressões políticas, então considerando as incertezas do governo atual é muito difícil prever como a agência vai conduzir esse processo depois da consulta pública. Ela pode ser muito rápida e editar duas normas ou elas podem ficar na prateleira por um bom tempo”, avalia o jurista. 
Em entrevista à rádio CBN, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, afirmou que o governo é favorável a desburocratizar a importação do canabidiol. No entanto, garantiu ser contra o plantio da cannabis para fins medicinais e científicos porque acredita que isso iria “abrir a porta para a liberação de drogas no Brasil”. 

Por serem consideradas substâncias controladas, todos os derivados da cannabis que são usados em estudos precisam de uma autorização especial para estabelecimentos de ensino e pesquisa, concedida pela Anvisa, explica Figueiredo. “A burocracia atual é muito grande para pesquisar com cannabis. [As instituições] ficam dependendo das autorizações e não têm insumos [produzidos no Brasil]”, sustenta. Silveira, que trabalha há mais de 30 anos com o canabidiol, concorda. “A dificuldade de obter drogas de abuso para pesquisa científica é um fator de inibição para a pesquisa. Acaba sendo tão difícil conseguir que não temos muitos grupos que trabalham com isso”