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O Sul

O que faz do Chile o paraíso da astronomia? Astrônomos respondem

Publicado em 22 fevereiro 2021

Por Da Redação

O deserto mais seco do mundo, registrando uma média de 300 dias secos por ano. E um dos ambientes mais inóspitos do planeta — justamente os melhores para se fazer astronomia. A umidade dos oceanos e da Amazônia não consegue subir a cordilheira dos Andes, e essa combinação de secura e grandes altitudes torna o deserto chileno perfeito para o estudo do espaço. Quanto menor a quantidade de moléculas de água suspensas no ar e maior a altitude, menor é a interferência da atmosfera terrestre e melhor a qualidade das observações. É por isso que há décadas os astrônomos da comunidade internacional sempre estão em busca das melhores regiões para instalar observatórios no Chile. Hoje há 14 grandes sítios de observação que foram construídos a partir de acordos entre o governo chileno e diversos países e organizações, como o Observatório Europeu do Sul (ESO), a Associação de Universidades para Pesquisa em astronomia dos EUA (AURA), a Fundação Nacional de Ciências (NSF) e a Fundação Carnegie, ambas dos Estados Unidos. Andar nessa região não é de tirar o fôlego só pelo ar rarefeito, mas por estar ao lado de telescópios gigantes. Quanto maior o tamanho do espelho de um telescópio, mais luz é captada e, portanto, é possível observar objetos cada vez mais distantes (de brilho bem fraquinho). Por isso, os astrônomos investem na construção de equipamentos enormes, a exemplo do telescópio Blanco, que tem um espelho de 4 metros de diâmetro e fica no observatório americano Cerro Tololo, construído nos anos 1970. Tem também o VLT (Very Large Telescopes), que é um conjunto de quatro telescópios de 8,2 metros de diâmetro do ESO construído no final do século 20; e o Gemini-Sul, de 8,1 metros de diâmetro, gêmeo de um outro telescópio que fica no topo de um vulcão no Havaí, ambos construídos em 2000. Astrônomos de todo o mundo também aguardam com grande expectativa a finalização, ainda em 2021, da construção do observatório Vera Rubin, cujo telescópio de 8 metros fará varreduras constantes do céu e, com certeza, transformará a astronomia. Em um futuro não tão distante, em 2029, teremos também no Chile o GMT (Giant Magellan Telescope), que terá 25,4 metros de diâmetro e do qual a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) é uma das financiadoras. E não é só com grandes telescópios que se faz astronomia. E no território chileno também onde fica o conjunto de 66 antenas, sendo 54 de 12 metros de diâmetro cada e outras 12 de 7 metros cada, chamado Atacama Large Milli meter Array (ALMA). Elas observam, sincronizadamente, as moléculas do Universo.

A construção do ALMA foi um dos maiores desafios da tecnologia para os astrôCADERNO REPORTAGEM- O Sul O que faz do Chile o paraiso da astronomia? Astrônomas respondem. ESO/José Francisco Salgado pios de 8,2 metros de diâmetro. nomos: ele fica a 5 mil metros de altitude e só trabalha lá quem é bem treinado para desempenhar tarefas em locais com essa característica. E necessário estar muito bem de saúde para ir até onde ficam as antenas, além de ser comum ter que usar cilindros de oxigênio para respirar. O ALMA é também um exemplo de observatório global — podem usá-lo países membros do ESO, os EUA (através do NSF), o Japão (por meio do Instituto Nacional de Ciências Naturais, NINS) e o Chile. Todo ano, os comitês constituídos por diversos representantes da comunidade internacional decidem quais projetos poderão utilizar os telescópios. Em geral, o tempo de uso é priorizado para os países membros sócios do observatório, com exceção do Chile. Por ser o país anfitrião, os chilenos têm garantido 10% do tempo total em todos os telescópios, o que é uma boa fração considerando o tamanho da comunidade astronômica de lá (pouco mais de 250 as trô o Very Large Telescopes, no Chile, é um conjunto de quatro telesc ó nomos trabalhando em instituições nacionais). E o Brasil? A comunidade astronômica brasileira — que é pelo menos quatro vezes maior que a chilena — tem acesso a alguns telescópios graças à participação durante a construção e manutenção de alguns dos equipamentos, como o Gemini Sul, o telescópio SOAR (Southern Astro physical Research), o Blanco, o telescópio brasileiro T80-Sul e, futuramente, o GMT e o Rubin. Os astrônomos brasileiros podem utilizar outros telescópios, porém pelo fato do Brasil não ser sócio dos observatórios, os projetos entram em ampla concorrência de uma fração muito pequena na quantidade da distribuição das noites, tornando a competição muito alta e apenas projetos muito impactantes recebem o privilégio de uso a cada semestre.

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