Pesquisadores investigam por que o Brasil concentra tantos supercentenários em um cenário pouco explorado pela ciência
Estudo da USP aponta que a diversidade genética brasileira, resultado da miscigenação, revela mecanismos de envelhecimento únicos.
A pesquisa acompanha mais de 160 centenários brasileiros, incluindo supercentenários, para identificar fatores genéticos e biológicos da longevidade extrema.
Supercentenários brasileiros apresentam sistemas imunológicos adaptados e mecanismos de reciclagem de proteínas ativos, contribuindo para sua resiliência.
Cientistas buscam usar os achados para desenvolver estratégias de medicina de precisão mais representativas da diversidade humana, incluindo a população brasileira.
O Brasil ocupa hoje uma posição de destaque no mapa mundial da longevidade extrema. Três dos dez homens mais longevos já registrados são brasileiros, incluindo o mais velho ainda vivo. Entre as mulheres, o número de brasileiras entre as pessoas mais velhas do planeta supera o de países mais ricos e populosos. Esse dado, por si só, já chama a atenção de pesquisadores. Agora, estudos científicos começam a explicar por quê.
Um artigo publicado em janeiro na revista Genomic Psychiatry aponta que o Brasil pode ser um dos cenários mais importantes e menos explorados para compreender por que algumas pessoas ultrapassam os 110 anos. A pesquisa é conduzida pelo Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo, sob coordenação da geneticista Mayana Zatz. A conclusão é clara: a diversidade genética brasileira revela mecanismos de envelhecimento que permanecem invisíveis em outras populações.
Diversidade genética fora do radar global
Grande parte dos bancos genômicos usados em pesquisas internacionais é formada por populações homogêneas, principalmente europeias. Isso limita o alcance das conclusões sobre envelhecimento e longevidade. O Brasil segue na direção oposta.
A miscigenação entre povos indígenas, africanos escravizados, europeus e asiáticos produziu uma diversidade genética rara. Estudos com brasileiros acima de 60 anos identificaram milhões de variantes genéticas ausentes em bases internacionais. Muitas delas estão ligadas ao sistema imunológico, à estabilidade celular e à manutenção de proteínas, funções centrais para a sobrevivência em idades extremas.
Para os autores, essa lacuna ajuda a explicar por que a ciência ainda não conseguiu responder de forma consistente por que apenas uma parcela muito pequena da população mundial ultrapassa os 100 anos.
Um grupo que envelheceu longe da medicina moderna
O estudo acompanha mais de 160 centenários de diferentes regiões do país, incluindo 20 supercentenários validados. Muitos viveram grande parte da vida com acesso limitado a serviços de saúde e chegaram à velhice extrema mantendo lucidez e autonomia funcional.
Entre os participantes esteve a freira Irmã Inah, que morreu em 2025 aos 116 anos. O grupo também inclui alguns dos homens mais velhos já documentados, um dado relevante porque a longevidade extrema é menos comum entre homens, que costumam apresentar maior risco cardiovascular e padrões distintos de envelhecimento.
Esse perfil permite aos pesquisadores observar a resiliência biológica com menor interferência de tratamentos médicos contínuos.
Famílias onde viver muito é recorrente
A longevidade extrema também aparece concentrada em determinadas famílias. Uma mulher de 110 anos acompanhada pela pesquisa tem sobrinhas que chegaram aos 100, 104 e 106 anos. A mais velha seguia competindo em provas de natação aos 100.
Estudos anteriores indicam que irmãos de centenários têm probabilidade muito maior de também atingir idades avançadas. No Brasil, esse padrão surge em um contexto genético altamente diverso, o que amplia o valor científico dos dados e ajuda a separar fatores genéticos, ambientais e epigenéticos.
Um sistema imunológico que resiste ao tempo
No nível celular, os supercentenários apresentam características incomuns. Seus mecanismos de reciclagem de proteínas permanecem ativos, reduzindo o acúmulo de danos associado ao envelhecimento. O sistema imunológico também foge do padrão observado na população geral.
Análises mostram a presença de células de defesa com comportamento adaptado, capazes de responder a infecções de forma eficiente mesmo em idade extrema. Durante a pandemia de Covid-19, três supercentenários brasileiros contraíram o vírus em 2020, antes das vacinas, e sobreviveram. Exames apontaram respostas robustas de anticorpos.
O que vem pela frente
A pesquisa avança agora para além do sequenciamento genético. Os cientistas desenvolvem modelos celulares e análises integradas para identificar mecanismos biológicos específicos da população brasileira. A expectativa é que esses achados ajudem a orientar estratégias de medicina de precisão mais representativas da diversidade humana.
A principal mensagem do estudo é direta. Sem incluir populações miscigenadas como a brasileira, a ciência seguirá com uma visão incompleta do envelhecimento. Os supercentenários do país indicam que viver mais de um século não é apenas uma exceção estatística, mas um fenômeno biológico que começa a ser compreendido.
Cinthya Dávila