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O que estudos com sapos têm a ver com o coronavírus? (1 notícias)

Publicado em 25 de abril de 2020

Por Nicolle Januzzi

Nos últimos meses o mundo parou em torno da pandemia do novo coronavírus. Mas os seres humanos não são os únicos que sofrem com situações desse tipo. Um fungo (Batrachochytrium dendrobatidis) vem dizimando populações de sapos, rãs e pererecas ao longo dos últimos 50 anos.

No Brasil, a descoberta da presença desse fungo nos animais foi realizada há 15 anos pelo professor Luís Felipe Toledo, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp. Na época, o cientista coletou sapos da Mata Atlântica e percebeu que espécies de quase toda a costa brasileira estavam infectadas.

“Ao longo dos anos eu e minha equipe chegamos à conclusão de que o fungo está nos sapos de praticamente todo o litoral brasileiro. Mais especificamente, entre o Espírito Santo e Santa Catarina são notados os maiores números de extinções de espécies e de declínios populacionais de anfíbios no Brasil”, explica o especialista.

Por conta destes estudos, em 2011, o laboratório da Unicamp recebeu uma máquina qPCR capaz de realizar o exame para detectar o fungo nos sapos. Quase 10 anos depois, a mesma máquina foi emprestada para realizar os testes diagnósticos da covid-19.

“Reorganizamos os trabalhos em andamento com anfíbios no laboratório e emprestamos nossa máquina para a força tarefa da Unicamp dedicada a estudar e ajudar no combate do novo coronavírus. Biólogos da nossa equipe também estão usando os conhecimentos de biologia molecular e trabalhando com esses outros profissionais, todos dedicados no combate à pandemia”, afirma.

Segundo Toledo, essa é a prova que o investimento na ciência nunca é em vão e as áreas se complementam e se ajudam ao longo das necessidades que surgem.

"A ciência não pode ser valorizada somente quando há uma necessidade emergencial. O apoio às pesquisas de diversas áreas precisa ser constante para que, quando haja uma situação extrema, o conhecimento adquirido ao longo dos anos possa ser aproveitado e para que os profissionais tenham os recursos ideais para trabalhar", finaliza.

A pandemia dos anfíbios

Segundo os estudos realizados até agora sobre o fungo que ameaça os anfíbios, estima-se que o Brasil seja o país mais afetado, com cerca de 200 espécies atingidas.

"Somos o país com a maior diversidade de anfíbios. Só a Mata Atlântica representa quase 10% da biodiversidade mundial, então acabamos sendo os mais afetados também pelo fungo, tendo cerca de 30 espécies de sapos desaparecidas e diversos registros de declínios populacionais"

— Luís Felipe Toledo, professor e biólogo.

Em todo o mundo a pandemia do fungo atingiu cerca de 500 espécies de anfíbios, sendo considerada a maior pandemia em vida silvestre já registrada na história. Uma importante informação obtida é que os sapos que não passam pela etapa de girino podem ser mais afetados.

Toledo, precursor dos estudos do fungo no Brasil, dedica uma boa parte da carreira a descobrir as informações do chamado triângulo da doença. Isto é, o estudo do patógeno que envolve todas as questões do próprio fungo, o hospedeiro (anfíbios) e também o ambiente, que agrupa questões climáticas e até geográficas.

A doença, que culmina na diminuição de sapos, acarreta também no desequilíbrio ecológico, que reflete na qualidade de vida humana. Essa diminuição gera, por exemplo, o aumento de insetos vetores de doenças como dengue, zika , chikungunya e febre amarela.

Além disso, sapos são presas de mamíferos, cobras e aves. Os girinos, que se alimentam de algas, fazem um controle importante nos lagos, já que a proliferação de algas não ingeridas pelos girinos pode causar a morte de peixes por falta de oxigênio na água.

O pesquisador ainda lembra da importância dos sapos como fonte de medicamentos. "Com base em seu veneno a indústria produz antidepressivos e, na Austrália, o fungo extinguiu uma espécie que era estudada para se chegar a remédios contra úlcera e gastrite”, conta o pesquisador.

Inúmeros artigos são publicados anualmente com as descobertas da equipe de Toledo sobre o fungo, inclusive em importantes revistas internacionais como a Nature e Science. As pesquisas apontam que o fungo chegou ao Brasil antes de 1900, muito antes de ser descoberto mundialmente (formalmente em 1999), mas que os maiores declínios populacionais em espécies de sapos e as maiores extinções ocorreram nas décadas de 1970 e 1980.

“Ainda não sabemos o motivo do pico da pandemia nas décadas de 70-80, mas estamos caminhando para isso. Hoje, é possível dizer que estamos em um período pós-pandemia, mas é difícil saber o quão os sapos ainda estão sendo afetados”, comenta o biólogo.

Apesar de muitos profissionais não receberem auxílio para o desenvolvimento de pesquisas, o professor conta que desde o início conseguiu financiamentos para dar continuidade aos seus estudos através das agências FAPESP, CAPES e CNPQ.

Em 15 anos de trabalho, a rotina sempre é intensa e inclui, além das análises em laboratório, as visitas de campo, uma delas acompanhada pelo Terra da Gente, para coletar amostras dos sapos.

O trabalho prevê também idas a museus do mundo todo para a descoberta de informações antigas de anfíbios, reuniões governamentais para a discussão de novos projetos para salvar espécies e até visitas a criadores de rãs para verificar as condições dos animais, já que o comércio de espécies exóticas para restaurantes e lojas de pets contribui para a disseminação da doença.

“Junto com a minha equipe já analisei mais de 19 mil amostras de sapos e as descobertas não param. Somos o país da América do Sul com mais informações sobre o fungo e isso é resultado de muito trabalho”, conta Toledo.

A equipe de biólogos segue os trabalhos para tentar conter o avanço do problema e impedir, em escala global, que o fungo chegue às áreas em que ainda não está presente, garantindo assim a sobrevivência das espécies e a manutenção do equilíbrio biológico.