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Jornal GGN

O que esperar de um eventual governo Biden em relação ao Oriente Médio, por Isabelle C. Somma de Castro

Publicado em 17 outubro 2020

por Isabelle C. Somma de Castro

Uma eventual vitória do candidato democrata Joe Biden parece estar cada vez mais possível de ocorrer. Por isso, especular como uma eventual Presidência do democrata se portaria em relação a um dos temas mais caros na política externa americana, o Oriente Médio, não se mostra fora do contexto. É verdade que a região não está ocupando as primeiras posições do debate, nem consta na lista das principais preocupações do eleitor americano. Mas os impactos das decisões americanas em relação à região costumam atingir proporções globais.

Para o Brasil, elas também impactam. Em dois aspectos, pelo menos. Um deles é que, quanto maior a atenção dada a outras regiões, menor é o foco na América Latina – o que pode ser bom, ou ruim, para os interesses locais, dependendo do tipo de atenção dispensada. Outro aspecto é como as relações entre os EUA e atores estatais e não estatais da região impactam questões de segurança na região, especialmente relacionadas à Tríplice Fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina. A máxima pressão imposta pelo governo de Donald Trump ao Irã e seu associado, o Hizbollah, foi fator preponderante para Paraguai e Argentina rotularem o último como grupo terrorista e também aumentarem (Brasil incluído) a colaboração no setor de vigilância com o grande irmão do norte.

Antecessores

Os presidentes democratas têm tido especial interesse no conflito palestino-israelense. Bill Clinton investiu na agenda externa durante seus dois mandatos, auxiliado por uma situação interna de calmaria. O ápice de sua política foram os Acordos de Paz de Oslo, costurados pelos noruegueses, mas patrocinados pelo então presidente americano. O sucesso das tratativas rendeu a Clinton a famosa foto entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin nos jardins da Casa Branca. Sabe-se também que a paz ficou só no nome do acordo.

O perfil escolhido pelo novo presidente para ocupar o importante cargo de secretário de Estado poderá dar algumas pistas. Obama apostou em perfis de políticos de primeira grandeza, ao contrário do antecessor, o republicano George W. Bush, que investiu em nomes “técnicos” como Colin Powell (2001-2005) e Condoleezza Rice (2005-2009). Na administração de Barack Obama, dois ex-candidatos a presidente foram os escolhidos. A opção demonstra que a ideia era dar alta prioridade às questões externas em um período que se mostrava necessário reverter a imagem americana depois dos desastres no Iraque e no Afeganistão.

A primeira chefe do Departamento de Estado do governo Obama, Hillary Clinton (2009-2013), não deixou grandes marcas – talvez por seu perfil pouco maleável. A secretária ficou mais conhecida pelo ataque ao complexo de Benghazi, onde se encontrava o embaixador dos EUA na Líbia, Christopher Stevens. O episódio, ocorrido em 11 de setembro de 2012, matou outros três oficiais americanos e rendeu várias investigações no Congresso. A intervenção na Líbia promovida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que levou à queda e ao assassinato de Muammar Ghaddaf, também entrou para a história como um dos maiores arrependimentos do presidente democrata.

O período de John Kerry (2013-2017) à frente do Departamento de Estado, por sua vez, mostrou-se mais efetivo. Obama havia prometido ao mundo muçulmano um “novo começo” durante o histórico discurso realizado no Cairo, em junho de 2009. Mas nada havia entregue até firmar o histórico Acordo Nuclear com o Irã, em 2015. O acordo, que envolveu os cinco países que compõem o Conselho de Segurança permanente da ONU mais a Alemanha, foi o primeiro engajamento entre os dois países desde o encerramento das relações após a Revolução Iraniana, em 1979.

O problema é que esse tipo de acordo tem de ser ratificado pelo Congresso americano para que possa sobreviver. Tanto Kerry como Obama sabiam disso, mas as chances de aprovar o acordo naquele fim de governo eram mínimas, considerando-se que os democratas não tinham maioria nem no Senado, nem na Câmara. E os republicanos não dariam uma vitória aos opositores um ano antes da eleição presidencial mesmo que achassem o acordo sensacional. E não achavam.

ACORDO NUCLEAR: (da esq. para dir.) A então alta representante de Relações Exteriores e Segurança da UE, Federica Mogherini; e os ministros e secretários das Relações Exteriores iraniano (Mohammad Javad Zarif), britânico (Philip Hammond) e americano (John Kerry), em jul. 2015 (Crédito: Carlos Barria/Pool via AFP – Getty Images) O que pensa Biden

Joe Biden, como vice-presidente, não se envolveu em grandes questões externas. Somente administrou, como “um policial de tráfego”, as relações com o governo de Nuri al-Maliki. Durante seu governo, o primeiro-ministro iraquiano promoveu mais cizânia com os grupos minoritários do país, especialmente perseguindo os sunitas. Foi acusado de promover mais violência sectária, o que ajudou a alimentar as fileiras do Estado Islâmico do Iraque e do Levante com voluntários em busca de vingança contra o seu governo.

Assessores que já trabalharam com Biden quando era vice de Obama afirmam que ele parece não ter grandes “esperanças” sobre mudanças no Oriente Médio. Durante esse período, ele foi contra investir mais recursos na luta contra a insurgência no Afeganistão. Também não apoiou a investida ocidental na Líbia e não se mostrou muito empolgado com o acordo nuclear com o Irã.

A manutenção do status quo parece que foi sua linha para política externa durante o governo Obama. Em outras palavras, o perfil dele indica que dificilmente mexerá com o que Trump já fez como, por exemplo, reinstalar a embaixada americana em Tel Aviv. O custo político seria maior do que o benefício: por um lado, entraria em conflito com a comunidade evangélica e judaica no país e, por outro, nada ganharia com os ditadores árabes, que praticamente abandonaram os palestinos à própria sorte. Biden já afirmou que apoia a solução de dois Estados, algo que se mostra totalmente impraticável. Além disso, também mantém o surrado discurso de que as lideranças palestinas não são confiáveis, o Hamas é um problema, etc. etc. Bocejo.

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Biden também deve apenas gastar uma ou outra palavra dura com os sauditas e voltar ao “business as usual”, apesar do envolvimento do príncipe herdeiro com o assassinato do colunista do jornal The Washington Post Jamal Khashoggi e o envolvimento do país na sangrenta guerra do Iêmen. Biden já se posicionou contra o investimento saudita no conflito, mas parece pouco provável que vá tomar medidas realmente duras para frear o aliado de tantas décadas, como impedir a venda de armamentos, tecnologia e treinamento.

Quanto ao Irã, Biden afirmou que retomaria o acordo nuclear forjado no governo de Obama. Mas não vai ser tão fácil voltar ao passado. Primeiro, porque os iranianos já estão calejados e sabem que o acordo deve ser aprovado pelo Congresso para não sofrer nova interrupção. Segundo, porque há muita pressão nos EUA e em Israel por um novo acordo que também envolva a questão dos mísseis balísticos produzidos pelo país. Terceiro, a situação mudou muito desde que Trump rasgou o acordo. Novas e sufocantes sanções foram impostas recentemente à República Islâmica, que também deixou de cumprir o acordo e comprou armas de russos e chineses. Isso significa que muita coisa precisa ser discutida, mas, antes, a confiança deve ser retomada.

Também é certo que a tendência de Biden é manter efetivos militares diminutos no exterior. Biden viu como é difícil ter um filho na guerra: Beau Biden foi veterano na guerra do Iraque – mas morreria anos depois de voltar por um câncer não relacionado com o conflito. Já estão previstas retiradas parciais de tropas americanas tanto do Iraque como do Afeganistão, algo com que Biden diz concordar. Mas ainda acha que os EUA devem manter efetivos em ambos. No Iraque, a cautela é com o fantasma do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. No Afeganistão, as conversas de paz entre o governo local e os talibãs ainda se mostram incipientes.

A própria importância do Oriente Médio para os EUA vem sendo discutida. Com o aumento exponencial da produção petrolífera do país através do chamado fracking, a dependência do principal produto de exportação da região está ficando no passado. A chamada “normalização” das relações entre países árabes, como os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, já demonstram que o antigo apelo por uma solução de paz entre palestinos e israelenses com a intermediação de uma administração americana está se perdendo.

Talvez um único ponto de real inflexão em relação a Trump a ser explorado seja a política de aceitar contingentes de refugiados sírios no país. Os Estados Unidos fecharam as portas, ao contrário de alguns países europeus, tendo a Alemanha como o exemplo mais destacado. A questão da imigração ainda pode ser difícil de discutir, enquanto a economia americana estiver patinando como reflexo da covid-19. Mas o candidato democrata conta com uma base eleitoral mais aberta à questão, principalmente considerando o ponto de vista humanitário. Em uma eventual presidência de Biden, os democratas terão a oportunidade de dar outro tom ao debate, emoldurando-o de uma forma distinta à dada por Trump, que posicionou o assunto como uma ameaça ao país. Isso seria, no entanto, um pingo num oceano em que há tanto por fazer. Ou melhor, há tanto a não interferir, ou pelo menos deixar de atrapalhar.

* Isabelle C. Somma de Castro é bolsista Fapesp de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (Nupri-USP). Faz parte do Grupo de Pesquisa Tríplice Fronteira e Relações Internacionais (GTF/Unila) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Foi Visiting Scholar 2018-2019 no Arnold A. Saltzman Institute of War and Peace Studies, Universidade de Columbia, com bolsa Fapesp.

** Recebido em 14 out. 2020. Este Informe não reflete, necessariamente, a opinião do OPEU, ou do INCT-INEU.