Notícia

Nexo Jornal

O que é o Plano S. E como ele visa ampliar o acesso à ciência

Publicado em 21 março 2019

Agências de apoio à pesquisa sediadas em ao menos 14 países anunciaram que até janeiro de 2020 devem implementar o Plano S, iniciativa que incentiva que os resultados de pesquisas financiadas com dinheiro público sejam divulgados em periódicos de acesso aberto.

A iniciativa, liderada pela Comissão Europeia, mas também adotada por agências dos EUA e China, busca transformar o modelo que sustenta a maior parte das revistas científicas de boa reputação, que costumam cobrar assinaturas para liberar o acesso a seu conteúdo.

São revistas que têm prestígio porque recebem muitas leituras e há citações de seus artigos publicadas em outras peças científicas. Um índice, o fator de impacto, mede essa reputação a partir do número de citações de um periódico dentro de determinado espaço de tempo.

2,3 mi trabalhos científicos foram publicados em revistas de prestígio em todo o mundo em 2016, segundo a base de dados Scopus

Citações

Para ser considerada de prestígio ou de boa reputação, uma revista científica precisa conter artigos que sejam lidos por outros pesquisadores, podendo influenciar a pesquisa em sua área. Por isso, para periódicos como Science e Nature, é importante ter citações.

Fator de impacto

O indicador que mede as citações de uma revista científica é chamado de fator de impacto. Ele calcula a quantidade de menções ao conteúdo de uma publicação dentro de certo espaço de tempo (geralmente, dois anos) e divide o resultado pelo total de artigos publicados no período. Na prática, foi uma maneira formal de medir a influência de periódicos.

A fim de viabilizar o livre acesso aos artigos, o plano propõe a diversificação de modelos de leitura de periódicos e sugere financiar a produção de revistas, por exemplo, por meio de taxas para agências de fomento e universidades que desejem submeter suas pesquisas à publicação.

Entre as agências que aderiram ao plano estão a Fundação Bill e Melinda Gates (EUA) e a filantrópica Wellcome Trust (Reino Unido). A Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo) adota, a partir de março de 2019, medida alinhada com a proposta.

A iniciativa acontece num momento em que universidades estão “boicotando” revistas científicas. É o caso da Alemanha, em que mais de 60 instituições de pesquisa, em 2017, recusaram uma oferta de assinaturas da britânica Reed-Elsevier, como forma de pressionar a editora a oferecer preços vantajosos e mais acesso às publicações.

No total, apoiadores do Plano S financiam cerca de 3,5% da produção científica mundial. Para causar mais impacto, eles buscam parceiros.

A divulgação científica no mundo está a cargo de revistas e periódicos especializados que adotaram como modelo de negócio cobrar dos autores dos artigos uma taxa de publicação e, também, restringir o acesso a seu conteúdo a assinantes.

Assim que um artigo é submetido a revistas como Science e Nature, editores e pesquisadores que conhecem o tema do estudo o analisam, em um processo chamado revisão por pares. Nesse momento, eles propõem melhorias e recomendam (ou não) a publicação dos trabalhos. É um crivo de qualidade que garante a credibilidade entre cientistas.

37,7%

das revistas científicas no mundo em 2016 eram de acesso fechado a leitores, exigindo assinaturas, segundo a base de dados Scopus

A partir das cobranças de autores e leitores, esse modelo de negócios se tornou altamente lucrativo para editoras privadas de publicações científicas, como Reed-Elsevier, Sage, Springer Nature, Taylor & Francis e Wiley Blackwell, as cinco maiores do mundo.

Revistas produzidas por editoras como as mencionadas acima não costumam adotam estratégias de acesso aberto, como pede o Plano S, porque o modelo é associado à falta de prestígio. Ao mesmo tempo, outras publicações (prestigiosas ou não) incorporaram meios de acesso total ou parcial nas versões online de suas, a fim de atrair leitores.

A transformação empreendida por parte dos periódicos em sua estratégia de negócios, sobretudo na virada do século 20 para o 21, transformou a organização do mercado editorial científico, que hoje pode ser dividido em ao menos cinco modelos diferentes:

No Brasil, modelos de negócio baseados no acesso aberto são mais populares que no exterior, ainda que as revistas nacionais adotem os mesmos métodos de análise de artigos científicos e revisão por pares.

Para a Fapesp, trata-se de uma medida importante para a ciência produzida em países em desenvolvimento, que deve ser estimulada. “O acesso abrangente aos resultados da pesquisa contribui decisivamente para o desenvolvimento social, econômico e cultural das nações”, diz a fundação na portaria sobre sua nova política de acesso aberto.

As formas de financiamento variam, destacando-se a contribuição de recursos de agência de fomento (como Capes, CNPq, que contam com verbas federais, e Fapesp, que usa recursos estaduais), investimento das próprias editoras, taxas de submissão e publicação de artigos e, em menor quantidade, assinatura de versões impressas.

R$ 402

foram desembolsados pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), agência do governo federal, para garantir o acesso gratuito a 45 mil títulos em seu portal de periódicos

Um destaque no Brasil é a versão brasileira da plataforma SciELO (Scientific Electronic Library Online), biblioteca digital de livre acesso abastecida colaborativamente por periódicos científicos do país. Resultado de projeto da Fapesp, ela contém mais de 300 mil artigos.

Ideia

A iniciativa propõe que cientistas cujas pesquisas foram financiadas com dinheiro público divulguem seus artigos em periódicos que permitam o acesso aberto (como dourados e verdes), sem restrições de direitos autorais, sob uma licença que permita livre compartilhamento. Os financiadores do plano devem assegurar, em conjunto, o estabelecimento de critérios que revistas de acesso aberto devem adotar para garantir que as publicações sejam de alta qualidade.

Dinheiro

Para financiar o plano, universidades e agências de fomento que aderirem à proposta devem pagar taxas às revistas — não deve haver cobrança individual para os autores dos trabalhos. Essas taxas devem ser padronizadas e ter um limite máximo, a fim de controlar gastos. Além disso, caso não existam revistas de acesso aberto de qualidade de determinada área científica, associados do Plano S devem, em conjunto, considerar a criação de um novo periódico.

Híbridos

Artigos de autores financiados por universidades ou agências que aderiram ao Plano S poderão publicar em revistas de formato híbrido, desde que as publicações apresentem um plano para se adequar ao novo modelo e permitam a publicação imediata de uma cópia dos artigos em um repositório institucional (ou seja, um sistema de informações, como este, da Unesp) aberto. A diferença entre o modelo atual é que, hoje, embora revistas híbridas permitam a publicação em repositórios, é necessário cumprir um embargo antes de publicá-los.

É consenso entre a comunidade científica que ampliar o acesso à ciência não só contribui para o avanço de novas pesquisas, como é essencial para que a sociedade se aproxime de conhecimentos relevantes que ajudou a produzir por meio do pagamento de impostos.

Plano S

em declaração no site oficial da iniciativa

O Plano S, em seu site oficial, defende que a monetização do acesso a resultados de pesquisa “está profundamente em desacordo com o ethos [ou seja, os traços, o caráter, a essência] da ciência” e que modelos de publicação baseados em assinaturas deveriam ser “encerrados”. “Nenhuma ciência deve ficar trancada por trás dos paywalls”, dizem.

A Fapesp, na portaria que definiu sua política de acesso aberto, mostra ainda que pesquisas divulgadas em formato aberto têm mais chances de provocar impacto, porque acabam sendo mais citadas em artigos que aquelas que têm acesso restrito, segundo estudos.

O Plano S se insere entre as iniciativas do Movimento Open Access (em português, “movimento do acesso aberto”), conjunto de medidas no mundo que, desde o fim dos anos 1990, tem buscado tornar gratuito o acesso à literatura científica revisada por pares por meio de periódicos e repositórios disponibilizados na internet.

Além da vantagem do acesso aberto, defensores do Plano S dizem que a iniciativa pode ajudar a melhorar os indicadores de avaliação de pesquisas científicas, passando a privilegiar seu alcance social, por exemplo. As editoras também podem ficar mais transparentes quanto aos critérios de suas taxas de publicação, o que inibe preços abusivos.

Uma petição com mais de 1.600 assinaturas de cientistas iniciantes e veteranos — como os vencedores do Prêmio Nobel Bernard Feringa e Arieh Warshel — chama o Plano S de “risco para a ciência”, porque a iniciativa pode inviabilizar revistas que dependem de assinaturas.

Segundo um estudo da Universities UK citado na petição, mais de 80% dos periódicos (entre híbridos e fechados) podem ficar restritos às agências que aderirem ao plano — muitos publicados por sociedades científicas, que pedem assinaturas porque têm menos recursos para produção que editoras no mercado.

A petição também critica o aumento de custo para a publicação de artigos científicos que deve ser passado para universidades e agências de fomento — as quais, no fim das contas, gastarão mais dinheiro público para pagar taxas e outros meios de garantir o acesso aberto.

Vários autores

em petição publicada em setembro de 2018 contra o Plano S

Alguns pesquisadores se preocupam, ainda, que a popularização do Plano S entre universidades e agências de fomento acabe por restringir a liberdade dos cientistas de escolher onde publicar suas produções.

Isso porque Nature e Science, entre outros títulos de grande reputação, seguem um modelo híbrido de publicação, não compatível com a proposta do plano. “Devo indicar, como sempre fiz, que meus alunos publiquem em revistas de impacto, mesmo que sejam incompatíveis com o Plan S?”, perguntou em evento a antropóloga alemã Birgit Meyer.

Às críticas dos pesquisadores, defensores do Plano S afirmam que a iniciativa pode dar impulso para que parâmetros como o impacto das plataformas sejam substituídos por outras métricas, como a agilidade de publicação. Eles também consideram que periódicos de sociedades científicas podem ficar de fora das regras estabelecidas pelo Plano S.

O Nexo conversou sobre o Plano S com Luisa de Sandres-Guimarães. Ela é doutoranda na área de administração na Universidade de São Paulo e estuda a gestão de periódicos e sua dinâmica na comunicação científica. Atua também na coordenação de revistas da faculdade.

Luisa de Sandres-Guimarães Acredito que sim. As pesquisas financiadas com recursos públicos, em minha opinião, precisam estar de alguma forma disponíveis para que todos possam acessá-las e utilizar seus resultados em pesquisas futuras. Há, de fato, uma grande indústria editorial que acaba se beneficiando do trabalho de pesquisadores (muitas vezes voluntários, como os avaliadores, ou “peer reviewers”). O Plano S é uma forma de fazer com que esse benefício se estenda a toda a comunidade científica, além de outros interessados em acessar e utilizar as pesquisas publicadas nos periódicos.

Luisa de Sandres-Guimarães Há alguns anos universidades em todo o mundo passaram, aos poucos, a cancelar suas assinaturas para acessar periódicos científicos fechados e editados por grandes editoras (ou publishers). Isso porque, nesse processo, a universidade paga duas vezes: uma para financiar a pesquisa e outra para ter acesso aos artigos resultantes das pesquisas que financiou.

Com a vigência do Plano S, esses cancelamentos poderão aumentar, já que mesmo para os periódicos que não disponibilizam a versão final do artigo em acesso aberto será necessário autorizar a publicação da versão final aprovada em um repositório institucional. Dessa forma, acredito que as grandes editoras se verão forçadas a pensar em um novo modelo para sustentabilidade de seu negócio.

Algo que conta muito para essas editoras é a reputação dos periódicos que publicam, em termos de impacto na comunidade científica a que se destina. Isso não deve ser abalado pelas mudanças propostas pelo Plano S. Periódicos que apresentam alto impacto e boa reputação na comunidade científica continuarão sendo acessados, citados e, mesmo que cobrem “article processing charge” [taxa que autores de pesquisa devem pagar para serem publicados] como forma de financiar o acesso aberto do artigo, isso não deverá diminuir o número de submissões.

Em resumo, o Plano S com certeza afeta o mercado de revistas científicas, mas acredito que precisamos estudar e pensar em formas alternativas de modelos de negócio para as revistas que permitam ao mesmo tempo sustentar esse processo editorial — que é, de fato, muito custoso em termos financeiros e em termos de dedicação de tempo da equipe editorial — e prover acesso aberto aos artigos publicados, especialmente os financiados com recursos públicos. Encontrar um meio termo nesse processo é o desafio.