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Nexo Jornal

O que é bioeconomia, e qual o lugar do Brasil nesse campo

Publicado em 22 julho 2020

Artigo afirma que, apesar da abundante diversidade de espécies, Brasil investe pouco na produção de itens que derivam de substâncias naturais e têm alto valor agregado, como remédios. Pesquisadora do BIOTA/FAPESP comenta o cenário ao ‘Nexo Políticas Públicas’

A biodiversidade brasileira é uma fonte rica de recursos químicos e biológicos que podem ser usados para criar produtos naturais sofisticados, mas, por não investir o suficiente em tecnologia, o país desenvolveu poucos itens a partir de substâncias encontradas na fauna e na flora.

Um artigo publicado na revista Anais da Academia Brasileira de Ciências analisa o cenário e aponta caminhos para o Brasil estimular o desenvolvimento de produtos naturais de alta tecnologia, ramo que pode contribuir para o crescimento econômico e estimular novos modelos de produção sustentável.

A publicação, escrita pelas pesquisadoras Vanderlan Bolzani e Marilia Valli, integrantes do BIOTA/FAPESP, um dos parceiros do Nexo Políticas Públicas, destaca o potencial da bioeconomia, segmento que se baseia no uso racional da biodiversidade para criar produtos nas áreas de alimentos, saúde e bioenergia, entre outras.

“As plantas são uma explosão dessas moléculas, dessas substâncias que a gente chama de produtos naturais. E nós os imitamos [na indústria]. Não existe um ser humano que produziu modelos moleculares tão fascinantes quanto a natureza”

Vanderlan Bolzani

professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista), integrante do BIOTA/FAPESP e presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, em entrevista ao Nexo Políticas Públicas

A produção de novos itens acontece quando pesquisadores isolam determinadas substâncias da fauna e da flora e descobrem que elas podem ter novos usos (aliviar uma dor, por exemplo). A partir de então, eles replicam essas moléculas e podem usar a descoberta para novos produtos, como um novo remédio.

“A morfina é o exemplo mais emblemático de uma molécula fascinante produzida pela biodiversidade que aplicamos na medicina”, afirmou Vanderlan Bolzani ao Nexo Políticas Públicas. “Até hoje, apesar de todo o desenvolvimento de analgésicos, ainda usamos a substância ou derivados dela.”

A baixa quantidade de produtos nacionais desenvolvidos a partir de substâncias descobertas no país é incompatível com a pesquisa acadêmica a respeito do tema, segundo o artigo de Bolzani e Valli. Inúmeras substâncias foram isoladas da biodiversidade do país, mas o conhecimento acadêmico ainda não chega à indústria brasileira.

Entre os produtos descobertos no Brasil está a bradicinina, substância do veneno da Jararaca-da-mata. Por inibir agentes que elevam a pressão arterial, ela deu origem a uma classe de remédios que tratam hipertensão, como o Capoten. Outro produto é o óleo essencial da erva-baleeira, base do anti-inflamatório Acheflan.

O que é bioeconomia

A bioeconomia é o conjunto de atividades que visam à produção e à distribuição de bioprodutos, ou seja, produtos que têm origem nos recursos biológicos, como biofármacos, insumos para a bioenergia, alimentos funcionais, produtos biodegradáveis e outros itens derivados de matéria natural.

O segmento se distingue de outros setores que usam os recursos naturais por dois motivos: pelo uso da biotecnologia (entre outros conhecimentos científicos de ponta) e pelo objetivo de construir um modelo de produção sustentável a longo prazo, baseado no uso de recursos renováveis e limpos.

2 trilhões de euros é quanto a bioeconomia movimenta no mercado mundial, segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico)

Um exemplo de iniciativa que pode ser classificada dentro da bioeconomia é o Proálcool (Programa Nacional do Álcool), que surgiu no Brasil nos anos 1970, durante a crise mundial do petróleo. Com o programa, o país passou a produzir etanol para gerar energia a partir da cana-de-açúcar.

A bioeconomia faz parte das estratégias de mais de 40 países para o futuro, segundo o artigo de Bolzani. Por usar produtos naturais no lugar de recursos não renováveis, o setor tem potencial de fazer frente à mudança do clima e a outros desafios relacionados ao ambiente, à economia, à transição energética, à segurança alimentar e à saúde.

Ao Nexo Políticas Públicas, Bolzani disse que a definição de bioeconomia (como produção baseada na natureza) pode ser vaga, e que sua pesquisa tem como foco produtos que “vão além das monoculturas” como soja e açúcar. Entre eles estão medicamentos, produtos de higiene e fragrâncias criadas a partir de ativos identificados na natureza.

“[Apostar na bioeconomia] seria muito interessante para o país”, afirmou a pesquisadora. Ela diz, contudo, que o setor exige investimento. “[Investir] não é uma tarefa simples. É custosa, dispendiosa e, muitas vezes, frustrante, porque as pessoas querem resultados muito rápido.”

Qual o potencial do Brasil

A biodiversidade do Brasil é a maior do mundo. A variedade de espécies que se encontram no país inclui cerca de 103 mil animais e 43 mil tipos de vegetais, distribuídos em seis biomas terrestres e três ecossistemas marinhos, segundo o Ministério do Meio Ambiente.

A quantidade de formas de vida originárias do país abriga plantas de importância econômica mundial, mas também uma diversidade química e biológica que, de acordo com o artigo de Vanderlan Bolzani, traz oportunidades para a inovação baseada em produtos naturais.

20% do número total de espécies no mundo podem ser encontradas no Brasil, segundo informações do Ministério do Meio Ambiente

A fraca atuação do Brasil nesse campo se explica por opções que fez no passado. O país apoiou o desenvolvimento econômico na exportação de commodities (produtos básicos, como soja e açúcar) e não investiu em tecnologia para transformá-las em produtos de valor agregado, disse Bolzani ao Nexo Políticas Públicas.

A soja, por exemplo, é uma commodity. A isoflavona de soja (substância extraída do grão e usada para aliviar sintomas da menopausa) tem valor agregado e é um produto que demanda maior tecnologia para ser produzido, assim como outros do ramo da bioeconomia.

“Acho que, nos últimos 15 ou 20 anos, o país fez uma opção suicida de deixar de investir em alta tecnologia e começar a importar tudo, porque na época era conveniente, barato”, afirmou Bolzani. “Muitos setores nacionais deixaram de produzir. Mas hoje já não é tão fácil importar, por agora temos a alta do dólar.”

Além da falta de tecnologia, Bolzani criticou o desmatamento em biomas como a Amazônia. Segundo a pesquisadora, ele traz prejuízos para o conhecimento da biodiversidade. “Não são todos os lugares que têm florestas como a nossa. Quando você perde essa informação biológica [com o desmate], ela não tem volta.”

O artigo que Bolzani escreveu com Marilia Valli defende que o Brasil invista em educação, ciência e infraestrutura para mudar esse cenário. As pesquisadoras afirmaram que o país tem condições de se tornar o líder em uma transição para uma economia sustentável, baseada no uso racional de produtos naturais fabricados com alta tecnologia.

Para tentar resolver um problema que pode ser de acesso à informação, o artigo apresenta o NuBBE, banco de dados de produtos naturais da biodiversidade brasileira. A base disponibiliza 2.223 estruturas de produtos naturais on-line e fornece informações sobre as substâncias. A criação é de Marilia Valli com orientação de Bolzani.

 

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JC Notícias (São Paulo, SP)