Notícia

Jornal da Unesp

O que a tecnologia ensina

Publicado em 01 outubro 2013

Diversos especialistas defendem mudanças na educação para tornar mais atraente o conhecimento que a escola transmite a seus alunos. Para eles, muitas dessas transformações precisam incorporar os novos aparatos tecnológicos, em especial no campo da informática.

Uma experiência em andamento na Escola Estadual Bento de Abreu (EEBA), em Araraquara, reforça os argumentos desses estudiosos. A ação se volta para a melhoria da qualidade do ensino recorrendo aos chamados objetos de aprendizagem, que envolvem recursos digitais, como vídeos, animações e experimentos virtuais.

O projeto, elaborado no Núcleo de Ensino local da Unesp, foi realizado inicialmente entre 2011 e 2012, visando transmitir conteúdos das disciplinas de Física e Matemática para oito classes de ensino médio, num total de cerca de 400 alunos. Os resultados foram significativos, na avaliação de Sílvio Henrique Fiscarelli, coordenador da iniciativa: “Nos conteúdos trabalhados com os objetos, os alunos em média tiveram um resultado 32% superior ao dos conteúdos trabalhados de maneira tradicional”, conta.

O estudo também constatou que os alunos com nota média de 5 ou menos nas atividades em sala de aula melhoraram em 51% seu desempenho, enquanto aqueles com nota superior a 5 obtiveram um ganho médio menor, de 13%. Ou seja, os estudantes com maior dificuldade de aprendizagem foram os mais beneficiados pelo uso dessa tecnologia.

Fiscarelli enfatiza que o projeto foi conduzido a partir das diretrizes curriculares vigentes no Estado de São Paulo e das demandas dos professores da escola. “Eles nos indicaram os pontos das disciplinas em que os alunos tinham maiores dificuldades de compreensão”, comenta.

APOIO DA FAPESP

Algumas vezes, segundo o pesquisador, a equipe recorreu ao aspecto lúdico, propondo jogos para estimular a compreensão dos alunos. Por exemplo, para entender melhor o conceito de arranjos em Matemática, os estudantes tiveram de montar um campeonato de futebol. Para compreender o conceito de combinação, precisaram fazer associações entre as opções de roupas que uma garota tinha para sair.

Apresentado à Fapesp, o projeto foi aprovado no fim do ano passado, para ter continuidade em 2013 e 2014. Agora, além de Matemática e Física, a proposta engloba as disciplinas de Química, Português e Filosofia. “Atualmente, a iniciativa envolve sete pesquisadores da Unesp e um da Unicamp, além de sete professores da escola estadual, que recebem bolsas da agência”, explica Fiscarelli.

Com os recursos da Fapesp, foram adquiridos este ano 35 notebooks, o que permite que os objetos educacionais sejam usados na própria sala de aula. “Antes, eles tinham que ser utilizados no laboratório de informática da escola” ressalta o pesquisador. Os notebooks foram escolhidos por permitirem o uso de CD-ROMs, onde são gravados alguns objetos educacionais, além de terem mais espaço para redações extensas. “O tablet é mais limitante para trabalhar com Português e Filosofia, que exigem textos mais longos”, argumenta.

A equipe também concluiu que há momentos no processo didático em que o professor precisa apresentar o conteúdo da matéria para seus alunos. E, com esse objetivo, adquiriu uma lousa digital, com recursos do Programa de Incentivo à Captação de Recursos, do Pró-reitoria de Pesquisa da Unesp.

COM ANIMAÇÃO

Os objetos educacionais geralmente foram selecionados nos repositórios, espécie de bancos de dados em que esses materiais estão disponíveis. Os repositórios mais utilizados foram o Banco Internacional de Objetos Educacionais (http://objetoseducacionais2.mec.gov.br/) e o Ciência à Mão, da USP (http://www.cienciamao.usp.br/index.php).

Quando não há objetos educacionais para atender à necessidade dos professores da Bento de Abreu, os pesquisadores elaboram seus próprios materiais. Na disciplina de Português, por exemplo, foi montada uma animação na qual as regras para a colocação da crase foram explicadas com associação de cores. “Esse recurso facilitou a assimilação do tema pelos alunos”, garante Fiscarelli.

O projeto obedece a um roteiro, que define os passos a serem seguidos nas atividades com os alunos. “E há uma cobrança sistemática do que foi ensinado”, acentua Fiscarelli, acrescentando que outra preocupação da equipe é enfatizar a compreensão dos conteúdos pelos estudantes, em vez de simplesmente levá-los a decorar fórmulas.

Para o pesquisador, a experiência tem demonstrado que o uso dos novos recursos para resolver as dificuldades dos estudantes obtém melhores resultados que os processos tradicionais. "Verificamos, por exemplo, que, quando precisam fazer atividades no livro ou no caderno, os alunos costumam deixar cerca de 30% das questões por responder “, declara. “Com os novos objetos educacionais, quando dispõem de tempo, eles respondem a praticamente 100% dos exercícios."