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SciELO em Perspectiva

O que a história nos conta sobre as epidemias e a proteção dos escolares

Publicado em 19 janeiro 2021

Por Cadernos Cedes

André Dalben, Professor, Universidade Federal de São Paulo, Instituto de Saúde e Sociedade, Santos, SP, Brasil.

Henrique Mendonça da Silva, Professor, Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Cadernos Cedes (vol. 40, no. 112), apresenta em seu dossiê “Educação e natureza em perspectiva histórica: vida ao ar livre, saúde e higiene”, sete artigos que “procuram flagrar os modos como um ideário de vida ao ar livre, marcado por ambiguidades, forjou-se e ganhou ampla divulgação, expressando-se em distintos registros e contribuindo para a afirmação da natureza e de seus elementos como centrais na educação, na prevenção das doenças, na preservação da saúde e nos divertimentos de populações que viviam em aglomerações urbanas nas primeiras décadas do século XX” (SOARES; ROCHA, 2020).

Um dos artigos publicado se intitula “Sol e ar fresco no combate à tuberculose: experiências de educação ao ar livre no Rio de Janeiro (1910-1920)”, cujo resultado de pesquisa reuniu amplo conjunto de fontes históricas. O estudo apresenta e analisa algumas discussões e medidas postas em prática na cidade do Rio de Janeiro para o enfrentamento da tuberculose infantil durante as décadas de 1910 e 1920, momento em que ainda não existiam medicamentos eficazes para o controle desta enfermidade.

Os autores explicam que naquele período a população da então capital federal enfrentava uma série de epidemias, sendo a prevalência da tuberculose alarmante e, para algumas autoridades médicas, em vias de se tornar endêmica. A escola, por sua vez, ao reunir crianças em um mesmo espaço, tinha potencial de agravar o alastramento das enfermidades infectocontagiosas. Nas décadas de 1910 e 1920 diversas investigações médicas realizadas nas escolas cariocas atestaram a marcha progressiva do mal dos pulmões entre a população infantil, além de uma variedade de outras doenças. A partir deste cenário, os pesquisadores se indagaram quais foram as medidas propostas para controlar o alastramento de enfermidades como a tuberculose entre os escolares? Quais foram delas implementadas na cidade do Rio de Janeiro? Como as medidas de saúde se coadunavam com as propostas pedagógicas das instituições escolares?

A pesquisa demonstrou que, na ausência de vacina ou antibiótico, foram utilizadas as ideias disponíveis nos balcões da ciência daquele tempo: a luz solar, o clima e a exposição aos ares considerados salutares. Diferentes profissionais procuraram associar saúde e educação a partir dos ideais de uma vida ao ar livre e a natureza foi frequentemente alçada como lugar de cura e prevenção de uma série de males. Um conjunto de propostas foi debatido pela comunidade de médicos e professores do Rio de Janeiro, como a criação de solários para a aplicação do tratamento da helioterapia (cura pelo sol), a inauguração de preventórios infantis para os filhos de tuberculosos, a organização de colônias de férias escolares para promover maior contato das crianças com a natureza, a remodelação das arquiteturas das escolas para garantir a circulação de ar e a entrada abundante da luz solar, a realização de aulas em espaços inteiramente abertos e até mesmo a construção de escolas ao ar livre em parques e praias da cidade.

Além de resgatar um conjunto de iniciativas muitas vezes esquecidas, o artigo possibilita refletir sobre a importância da natureza e do ar livre para a saúde e a educação das crianças, especialmente no atual momento, em que doenças infectocontagiosas voltam a nos inquietar em escala planetária. O dossiê no qual a pesquisa foi publicada apresenta ainda artigos que versam sobre o naturismo e o nudismo, a alimentação escolar, as emoções humanas frente às variações climáticas, as relações da urbanização com o meio ambiente e o corpo concebido como natureza. O seu conjunto de artigos convida-nos a refletir sobre as contradições e ambiguidades de ter sido a vida ao ar livre, muitas vezes, alçada como resolução para os males da sociedade urbano-industrial.

A seguir, ouça o podcast do professor Henrique Mendonça da Silva ampliando a discussão sobre educação e prevenção de doenças.

Referências

DALBEN, A. Escola de aplicação ao ar livre de São Paulo Open-Air School of São Paulo. Educ. rev. [online]. 2019, vol. 35, e219650. ISSN: 1982-6621 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/0102-4698219650. Available from: http://ref.scielo.org/xzng3j

DALBEN, A. Las escuelas al aire libre uruguayas: creación y circulación de saberes. Educación Física y Ciencia [online], 2019, vol. 21, e075-12. ISSN: 2314-2561 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.24215/23142561e075. Available from: https://www.efyc.fahce.unlp.edu.ar/article/view/EFyCe075

LEÃO, A. C. O ensino na capital do Brasil. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1926.

ROCHA, H.H.P. A higienização dos costumes: educação escolar e saúde no projeto do Instituto de Hygiene de São Paulo (1918-1925). Campinas: Mercado de Letras, 2003.

ROCHA, H.H.P. Regras de bem viver para todos: a Bibliotheca Popular de Hygiene do Dr. Sebastião Barroso. Campinas: Mercado de Letras/FAPESP, 2017.

SILVA, H.M. A higiene escolar além das palavras: Oscar Clark e o tratamento médico escolar. 2017. 312 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017. Available from: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/319162

SOARES, C.L. Uma educação pela natureza: a vida ao ar livre, o corpo e a ordem urbana. Campinas: Autores Associados, 2016.

SOARES, C.L. and ROCHA, H.H.P. Viver ao ar livre: entre prescrições higiênicas, alegria e aventura. Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 112, pp. 198-206. ISSN: 1678-7110 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/cc231818. Available from: http://ref.scielo.org/wr3pkh

Para ler os artigos, acesse

DALBEN, A. et al. Sol e ar fresco no combate à tuberculose: experiências de educação ao ar livre no Rio de Janeiro (1910-1920). Cad. CEDES [online]. 2020, vol. 40, no. 112, pp. 218-232. ISSN: 1678-7110 [viewed 4 December 2020]. https://doi.org/10.1590/cc232227. Available from: http://ref.scielo.org/tny8bq

Links Externos:

Cadernos CEDES – CCEDES: www.scielo.br/ccedes

André Dalben: http://lattes.cnpq.br/0743727143543352

Henrique Mendonça da Silva: http://lattes.cnpq.br/2990168367331033

Como citar este post [ISO 690/2010]:

DALBEN, A. and SILVA, H. M. O que a história nos conta sobre as epidemias e a proteção dos escolares [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2021 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2021/01/19/o-que-a-historia-nos-conta-sobre-as-epidemias-e-a-protecao-dos-escolares/