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Exame

O projeto escolhido

Publicado em 01 abril 2013

Por João Werner Grando

O BIÓLOGO FERNANDO REINACH PASSOU os últimos 18 meses procurando um negócio revolucionário. Ex-diretor da Votorantim Novos Negócios, braço de investimentos do grupo Votorantim, ele é o responsável por encontrar alvos para o Pitanga, um fundo de 100 milhões de reais criado em junho de 2011 com dinheiro de gente como Luiz Seabra, Guilherme Leal e Pedro Passo, fundadores da Natura, e Pedro Moreira Salles, sócio do banco Itaú. Desde então, 580 idéias chegaram à caixa de e-mail de Reinach. Teve de tudo. Gente que pedia dinheiro para expandir sua rede de cafés; cópias autóctones do Facebook; carros que funcionariam sem combustível. Demorou para Reinach encontrar algo que o conquistasse, mas aconteceu. Em março, ele fechou o primeiro investimento do Pitanga. Tornou-se sócio da I.Systems, empresa de Campinas fundada por quatro engenheiros com idade entre 30 e 32 anos.

A I.Systems cria softwares para aumentar a eficiência de linhas de produção de grandes fábricas. Reinach foi atraído pelo que considerou o apelo quase universal da empresa, fundada em 2007 pelo baiano Igor Santiago. Ele havia acabado de abandonar o mestrado em inteligência artificial na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Santiago, que antes disso achava que o único propósito da inteligência artificial fosse criar robôs, percebeu que os princípios da técnica poderiam ser aplicados em processos industriais. Ou seja, fazer com que as máquinas consigam tomar decisões sozinhas para melhorar o desempenho de uma linha de produção – o que pode trazer ganhos milionários para empresas dos mais variados setores. Chamou três amigos dos tempos de graduação para ser seus sócios. Ele e os também baianos Leandro Freitas e Danilo Halla e o paulista Ronaldo Silva foram morar juntos numa república e passaram a trabalhar dia e noite e fins de semana no projeto. A ideia inicial era ganhar um dinheirinho vendendo o software para pequenas fábricas. À medida que os resultados começaram a vir, a ambição mudou de patamar. “Vasculhamos o mundo todo e não encontramos nada parecido”, diz Reinach, do Pitanga. “Isso pode ser um negócio de bilhões de reais."

”O investimento do Pitanga será feito em partes. O valor inicial não foi revelado, mas estima-se que ao todo possa chegar a 10 milhões de reais. A favor da I.Systems contou o portfólio de trabalhos feitos pela empresa com clientes relevantes. Desde 2010, seu software é usado na fábrica da Coca-Cola de Jundiaí, no interior de São Paulo. O resultado foi uma redução de 11% nas perdas de bebida e de 31% na quantidade de garrafas descartadas por problemas no envase. Ao longo de 2012, trabalhos como esse foram feitos em uma dezena de empresas, como a fabricante de alimentos Ajimoto e usinas de etanol, como a São Martinho. “O que uma empresa tradicional leva seis meses para instalar, conseguimos aplicar em um dia”, afirma Santiago.

Nenhum processo industrial é exato. Para garantir que uma garrafa de 1 litro contenha pelo menos 1 litro, empresas como a Coca-Cola têm de ajustar suas máquinas para exagerar um pouco na quantidade de bebida que despejam em cada embalagem. Afinal, é impossível fazer urna sincronia perfeita entre todas as variáveis envolvidas. De garrafa em garrafa, o desperdício acumulado é grande. Empresas como a I.Systems prometem usar a inteligência artificial para tornar processos como esse mais eficientes. Medindo constantemente a quantidade de bebida em cada tanque, a velocidade da esteira e a temperatura do líquido, esses softwares ajustam a quantidade que sai das torneiras. O mesmo sistema é usado em câmeras fotográficas que conseguem ajustar o foco automaticamente de acordo com a distância ou a luminosidade.

A BUSCA CONTINUA

A história da I.Systems é daquelas que, felizmente, começam a surgir com mais frequência no Brasil. Antes de entrar no radar do Pitanga, os fundadores da I.Systems contaram com financiamentos de órgãos de fomento, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – algo como 500 000 reais em três anos, para investir e pagar as contas. A estrutura ainda é um tanto precária. A I.Systems, com seus dez funcionários, ocupa três salas de uma galeria de lojas, ao lado de salões de beleza e consultórios de dentista, em Campinas. Mas o desenvolvimento do negócio proporcionado por esses financiamentos ajudou a chegar aos primeiros clientes e, assim, a chamar a atenção do Pitanga. Até porque o histórico empreendedor dos fundadores da I.Systems não era grande coisa. Antes de se formar no curso de engenharia da computação, Santiago e Freitas acharam que poderiam ganhar dinheiro nas farras da faculdade. Em 2005, criaram uma empresa para organizar micaretas no campus. A aventura durou pouco. Santiago comprou abadás em Salvador, contratou um trio elétrico e um grupo de axé para um Carnaval fora de época em Campinas. Deu tudo errado, e ele teve um prejuízo de 10 000 reais – algo como 60 vezes o que ganhavam de bolsa de estudos por mês.

O investimento do Pitanga pode levar a empresa a dar passos maiores. Um conselho de administração foi formado com Reinach, dois fundadores e o executivo Edson Matsubayashi, diretor da empresa de tecnologia de informação Tivit. Apesar de a participação do fundo ser minoritária, o acordo prevê que as decisões sejam compartilhadas. Inicialmente, o dinheiro será usado para encontrar parceiros para vender o software da l.Systems nos Estados Unidos e na Ásia, onde vai competir com grupos como Siemens e GE. Depois, a ideia é expandir o uso da tecnologia para áreas como análise de crédito e sistemas de reconhecimento de imagens. Enquanto tenta ajudar os quatro engenheiros da I.Systems a conquistar o mundo, Reinach segue procurando empresas com potencial revolucionários. Dois outros negócios devem ser anunciados até o fim do ano. Com 90 milhões para investir, sua caixa de e-mail não vai parar de trabalhar.

MAIS INOVACÃO A CAMINHO?

Com dois pacotes de incentivo, o governo dá passos na direção certa. O problema são os velhos vícios que vêm junto

O Brasil está longe de ser um país conhecido por sua capacidade de inovação. Aparentemente, cada vez mais longe. Segundo o ranking do Fórum Econômico Mundial, que mede a capacidade de inovação dos países, estamos na 58ª posição, de uma lista de 140. Há cinco anos, estávamos no 40º lugar. O governo federal anunciou, em março, dois pacotes que buscam fazer essa tendência se inverter. No primeiro deles, a presidente Dilma Rousseff prometeu 32,9 bilhões de reais até 2014 a empresas e instituições de pesquisa dispostas a inovar. Na sequência, o governo anunciou o Start-up Brasil, um projeto para incentivar o crescimento de empresas iniciantes na área de tecnologia da informação. Ao todo, 100 delas devem ser selecionadas para receber cerca de 200 000 reais cada uma. São passos na direção correta. A melhor notícia é que o Plano Inova deve simplificar a busca das empresas por esse tipo de financiamento. No lugar de uma dúzia de ministérios e agências em que se devia procurar pelo dinheiro disponível, agora o caminho único será a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “Um balcão unificado para buscar investimentos facilita principalmente a vida de médias e pequenas empresas, que não têm estruturas dedicadas a mexer nessa burocracia”, afirma Paulo de Oliveira, presidente da consultoria Brain Brasil.

Os problemas estão naqueles velhos vícios que costumam acompanhar pacotes desse tipo. Não ficou claro quanto de fato é dinheiro novo, que já não era previsto no orçamento dos ministérios e agências. Também não inspira muita confiança a ênfase dada à mais nova estatal brasileira, a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, ou apenas Embrapii. Anunciada como a “Embrapa da indústria”, sua função na verdade será formar parcerias entre as empresas e os institutos de pesquisa – tarefa que poderia ter ficado, por exemplo com a própria Finep, que centraliza os financiamentos. Não deixa de ser tipicamente brasileiro: o Estado tira burocracia com uma mão e adiciona com a outra. Nesse caso, inovação zero.