Notícia

Diário de Pernambuco

O potencial do própolis

Publicado em 29 dezembro 2010

Por Rebeca Ramos

Primeiro, a má notícia: a obesidade - além dos vários riscos à saúde já amplamente divulgados, como o aumento das chances de problemas cardíacos - aumenta a produção de radicais livres, substâncias ligadas ao envelhecimento das células. Agora, a boa nova: estudo feito na Universidade de São Paulo (USP) indica que um composto extraído do própolis, chamado Cape, tem potencial para combater esse efeito. A descoberta se mostra promissora por vários motivos. Como a degeneração das células é provocada pelo estresse oxidativo, a inibição do processo pode prevenir doenças como a hipertensão e o diabetes tipo 2.

A constatação faz parte da dissertação de mestrado da cientista dos alimentos Aline Camila Caetano, que participa do projeto Efeitos do Cape, composto da própolis no mecanismo molecular da resistência à insulina, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Aline explica que pesquisou o efeito antioxidante da substância no estresse oxidativo gerado pela obesidade. Segundo ela, o consumo em excesso de nutrientes leva ao aumento da glicose e dos ácidos graxos circulantes no organismo, e isso pode aumentar a produção de radicais livres (também chamados de espécies reativas de oxigênio - ERO), causando o desequilíbrio. "Esse é o chamado estresse oxidativo", explica a cientista. No processo oxidativo, é comum o aparecimento de diversas doenças, problema chamado de síndrome plurimetabólica e associado a males crônicos não transmissíveis, como resistência à insulina, diabetes tipo 2, aterosclerose, hipercolesterolemia, hipertensão, ovário policístico, entre outras. No centro de tudo, está a obesidade.

Para chegar ao resultado, Aline fez um experimento com camundongos, engordados em laboratório com uma dieta rica em banha de porco. Segundo ela, após quatro semanas, os animais obesos foram divididos em grupos e receberam doses diferenciadas de Cape (sigla em inglês para fenil éster do ácido cafeico). Depois de quatro semanas, os animais foram sacrificados, e seus tecidos hepático e adiposo foram comparados com os de animais não obesos. A pesquisadora constatou que os tecidos dos animais saudáveis e dos tratados com Cape não apresentavam muita diferença.

Aline destaca que a hipótese para tal resultado é que o Cape age inibindo a produção dos radicais livres. ´No entanto, muito trabalho ainda deve ser feito para assegurar o efeito da substância contra doenças`, acredita. Aline explica que, para surtir efeito, seria preciso administrar uma grande quantidade do composto e, para isso, há a necessidade de testes toxicológicos e epidemiológicos, além de verificar a viabilidade econômica.

O presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), Márcio Mancini, explica que, no organismo humano, os radicais livres são produzidos pelas células durante o processo de combustão do oxigênio, que converte os alimentos ingeridos em energia. ´Eles são produzidos por magros e obesos, e o organismo tem enzimas que os degradam`, salienta. Márcio diz que, como os obesos consomem mais oxigênio, eles têm maior formação de radicais livres. ´Outros fatores da dieta e do ambiente podem favorecer a formação das substâncias`, ressalta.

De acordo com o endocrinologista, os radicais livres estão ligados também ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares e degenerativas, como o mal de Alzheimer. Ele afirma que as formas de prevenir a formação das substâncias são a prática de atividade física, a ingestão de alimentos pobres em gordura (frutas e hortaliças) e a redução da gordura saturada (carne vermelha, pele das aves, creme de leite). ´O álcool, a poluição e o estresse também podem aumentar a formação dos radicais livres`, conta.

Árvore certa

A pesquisadora e orientadora do trabalho, Rosângela Maria Neves Bezerra, explica que o própolis tem uma composição química muito complexa e as substâncias contidas nele podem variar de acordo com a flora de cada região visitada pelas abelhas, o período de coleta da resina, além da variabilidade genéticadas abelhas rainhas. Por isso, o Cape não é encontrado em todos os tipos de própolis, só naqueles obtidos em uma árvore chamada de poplar, encontrada no Hemisfério Norte, no Paraná, na Argentina e no Uruguai.

Segundo ela, estudos indicam que o Cape também tem propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, antivirais e imunomoduladoras, além de ter potencial de ajudar no combate ao câncer. Quanto à sua ação no combate à formação de radicais livres, a explicação para essa eficácia não está totalmente esclarecida. Rosângela acredita que a substância estabiliza os radicais livres gerados ou atua por meio da ativação das proteínas que apresentam atividade enzimáticas, capazes de reduzirem a presença das espécies reativas.

Ela ressalta que já foi demonstrado em experimentos que o Cape age inibindo proteínas que participam nas células, ativando genes que estão envolvidos no processo inflamatório. Em relação ao efeito anticâncer, ela cita pesquisas em que o produto do própolis induziu a morte celular (apoptose), mecanismo pelo qual o organismo tenta defender as células sadias. ´Além disso, em vários tipos de câncer, o tratamento com radiação aumenta a geração de espécies reativas de oxigênio, e o uso do composto preveniu os danos causados pela radiação aos tecidos normais`, destaca.

Nos casos de obesidade, principalmente as de grande porte e de longa data, Rosângela explica que, além do estresse oxidativo gerado pelo aumento de suprimento de nutrientes e energia, o que leva o organismo a acelerar o metabolismo e consequentemente a gerar mais EROs, existe também um estado subclínico de inflamação, gerado pelo aumento da adiposidade. ´Esse aumento nas células adiposas leva a alterações das proteínas envolvidas no mecanismos de ação dentro da célula`, conta.