Notícia

Boa Informação

O pior da pesquisa no Brasil é a burocracia, diz geneticista francês

Publicado em 23 março 2017

Para o geneticista francês Hugo Aguilaniu, 41, diretor do Instituto Serrapilheira, primeira entidade privada de apoio à ciência nacional, o pior da pesquisa científica brasileira é a burocracia.

Ele conhece o sistema de perto. Além de sua mulher ser brasileira, tem boa relação de colaboração com grupos de pesquisa da USP e é fluente em português.

Aguilaniu assume a nova função com a ideia de que pode dar um empurrãozinho na ciência do país, que perde muito, diz ele, pelas funções administrativas e burocráticas que os pesquisadores têm de assumir quando recebem verba para a pesquisa.

Uma das ideias da nova agência de fomento é bancar a contratação de gerentes para cuidar da parte administrativa e burocrática, disse à Folha. “O pesquisador não pode desperdiçar energia criativa desse jeito”.

Selecionado entre 138 candidatos por um comitê de busca (que tinha representantes do meio acadêmico e do meio empresarial), ele receberá um salário bruto de R$ 35 mil.

O geneticista tem como linha de pesquisa o estudo do envelhecimento usando como modelo animal o vermezinho C. elegans. Ele quer entender questões como qual seria o prejuízo de estender a vida e o que isso acarreta para a performance (reprodutiva, por exemplo) do organismo.

Morando agora no Rio, suas atividades acadêmicas no Centro Nacional de Pesquisas científicas da França devem ser suspensas. Seu mandato será de três anos, renováveis por mais três.

*

CIÊNCIA BRASILEIRA

Faz dez anos que venho sempre ao Brasil. Costumo passar de dois a três meses por ano em São Paulo, conheço a USP. Sempre tive uma admiração muito grande pelos pesquisadores porque as condições de trabalho são muito mais difíceis do que na Europa.

Encontrei cientistas espetaculares que fazem um bom trabalho apesar dessas regras todas, dessa burocracia extremamente pesada que impôr o pesquisador a fazer tudo sozinho, como preparar prestação de contas, entre outras tarefas. Isso é uma pena porque tira muito da energia criativa do pesquisador.

NOVO EMPREGO

O impacto que posso ter à frente de um instituto como esse, na minha opinião, é muito maior do que se eu fizesse algo parecido na França ou nos EUA, que já estão em um steady state [estado estacionário] quando o assunto é financiamento científico feito por instituições privadas.

DESAFIOS GEOGRÁFICOS

Aqui tem muita coisa para construir. Geograficamente também é um desafio. Tudo bem que São Paulo produz 30% da riqueza do país, mas não tem por que não ter boa ciência em outros lugares, como o Nordeste. Para mim não faz sentido, principalmente em ciências teóricas, que não requer quase nada. O Impa, por exemplo, tem um prédio lindo, mas uma casa com duas lousas e computadores já seria o suficiente em termos de infraestrutura.

BUROCRACIA

Fiz meu doutorado na Suécia e trabalhei nos EUA como pós-doc [pós-doutorado] e tenho um laboratório na frança. Se você quer um produto, tem um grupo de pessoas já estabelecido para o qual você pode fazer o pedido, e, no dia seguinte, o produto chega.

Aqui é uma complexidade que ninguém merece. Você tem que preencher papel, justificar, resolver questão de importação etc. Cada departamento deveria ter uma equipe cuidando só disso. Sempre tive isso na minha carreira. O pesquisador tem que ensinar, lidar com toda essa burocracia e ser criativo e pesquisar. Acho extremamente difícil.

LIBERDADE ACADÊMICA

Se a gente conseguir mostrar que é possível facilitar um pouco esse processo dando recursos livres, com o pesquisador gastando o dinheiro como ele quiser e com uma prestação de contas simples, será ótimo.

Se você consegue justificar um gasto “fora do eixo”, mostrando que aquilo é importante para fazer uma ciência de qualidade, com bons resultados no final, é válido.

É uma cultura diferente das outras agências de fomento e nós vamos conseguir fazer isso porque será um número pequeno de pesquisadores. Será uma relação de confiança. Vamos apoiar pessoas com recursos intelectuais suficientes para se virar e fazer uma ciência de ponta.

RESPONSABILIDADE

Se tiver de gastar todo o dinheiro fazendo uma conferência e se isso for um meio de se realizar uma ciência excelente, perfeito. O pesquisador é que sabe. Acho ruim todas as regras. Parte-se do pressuposto que o pesquisador não é suficientemente responsável para fazer boas escolhas.

A gente vai também abrir a possibilidade de ele pedir ajuda. No começo da carreira, muitas vezes você precisa de uma ajudinha, de conselhos. Ele pode ligar e pedir para se consultar com um cientista de referência na área dele, seja do Brasil ou fora. Podemos facilitar isso.

Tem que dar liberdade. Tive a sorte de poder fazer tudo o que eu queria fazer. Consegui bolsas razoavelmente generosas e sempre me virei.

INTUIÇÃO

As pessoas veem a ciência como uma área seca, reta, mas não é bem assim.

No começo de uma ideia, há uma intuição de que ali há algo interessante. E aí você segue por esse caminho. Quando está no caminho errado, o bom cientista percebe que está em uma direção ruim e muda.

Quando você consegue chegar ao final, há algo lindo. Ele é bonito, bem articulado, traz uma clareza, uma luz.

Tem que ter essa estética, como dizem os matemáticos, o próprio Artur [Avila]. Não é só mostrar algo, é mostrar algo de uma maneira elegante. E isso é fundamental, porque a comunidade científica presta atenção nisso.

ESCOLHA

Sou francês e minha mulher é brasileira. Moramos na França muito tempo. A ideia de vir para o Brasil estava na nossa cabeça, mas a situação do país dava poucas chances de um dia virmos para cá.

Esse anúncio foi encaminhado para mim pelo meu sogro, que assina o boletim da Fapesp. Eu não conhecia a família [Moreira Salles], não conhecia nada. Conversei com minha mulher naquele dia. Perguntei: “Você conhece a família Moreira Salles”? Ela disse que era lógico que conhecia, que eram pessoas sérias.

Tinha que redigir um texto, ter um currículo razoável. Acho que o meu estava bom, mas achava que eu era muito jovem para tocar um instituto desse. Mandei a inscrição. Só fiquei sabendo após de ser selecionado que havia 138 inscrições.

Acho que é um desafio interessante. Quem gosta mesmo de ciência nunca recusaria um negócio desses. É impossível.

LICENÇA

Estou destacado [licenciado] da ENS de Lyon. Posso voltar para o mesmo posto em até cinco anos, talvez renováveis. A França te dá essa possibilidade.

Mas eu quero ter alguma atividade de pesquisa no Brasil. É algo que faz sentido para mim. Não dá para ter um laboratório como eu tinha, mas quero ter alguma atividade, mesmo que pequena. Acho importante e também me dá uma certa legitimidade, para não dizerem: “Quem é o gringo que vem e que dá recursos para brasileiros sem saber como é fazer ciência no país?”

Por Folha