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O passeio público na fortaleza da belle époque

Publicado em 04 dezembro 2012

Por Vanessa Pereira Lima da Silva

INTRODUÇÃO

A cidade de Fortaleza, na segunda metade do século XIX, passou a viver um período cultural que se refletia também em outras partes do país e tinha sua origem na Europa, especialmente na França. Esse período ficou conhecido como Belle Époque.

Fortaleza era uma cidade que tem sua origem no domínio português, especialmente na tentativa de conquistar o litoral e estabelecer aqui um ponto de contato com o restante do Brasil, especialmente o Norte. (BRUNO, 2011).

A cidade, no entanto, foi conquistada pelos holandeses, que tomaram posse do forte de São Sebastião construído pelos portugueses, dali só saindo quando aconteceu a revolta dos índios que destruíram o mesmo e assassinaram todos os soldados.

Fortaleza, ainda sobre o domínio holandês, depois do capitão Matias Beck ergue o forte de Schoomenborch, às margens do riacho Pajeú de onde foram expulsos dezessete anos depois pelos portugueses, que mudam o nome da edificação para Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção. Fato que, aos poucos e, espontaneamente, deu origem ao nome da capital do Ceará.  (BRUNO, 2011).

Sofrendo as transformações econômicas e sociais de sua época, Fortaleza recebeu as luzes da cultura parisiense e englobou ao seu dia - a - dia o vocabulário e alguns costumes franceses que eram então considerados como um comportamento muito sofisticado e condizente com a nova realidade econômica da elite cearense.

O presente trabalho pretende analisar o período conhecido como Fortaleza Belle Époque, sua influência na transformação dos hábitos. Tem, portanto, como objetivo geral, uma reflexão acerca de pontos centrais da cidade na época, especificamente o Passeio Público, onde a elite desfilava as últimas tendências da moda francesa, esquecendo e, por vezes, até substituindo a cultura cearense pela francesa.

Como objetivo específico busca-se conhecer a história da cidade de Fortaleza, contexto da Belle Époque no Brasil e no mundo, bem como perceber a importância do Passeio Público para a história da época.

A pesquisa realizada é de cunho bibliográfico, uma vez que está calcada em autores contemporâneos que abordam a temática, por meio de revistas, produções acadêmicas, sites, jornais que abordaram o assunto.

Dentre os autores consultados está Oliveira, que define a Belle Époque como:

O período em que a França tornou-se referência de bom-gosto entre o final do século XIX e início do século XX. Nessa época caracterizada por manifestações de otimismo e prazer na vida cotidiana, a cultura francesa passou a ser modelo de modernidade nas artes, arquitetura, estética, costumes, nas ciências e no pensamento filosófico. Essa atmosfera era motivada, principalmente, pelas então recentes descobertas tecnológicas, como a eletricidade, o cinema, o automóvel e o telefone. Oliveira, 2008, p. 23).

Essa época entrou para a história da cidade e influenciou diretamente toda a sociedade que, mesmo no calor do verão nordestino, usava ternos e vestidos longos e comprava os mesmos em lojas com nomes estrangeiros. Os mais ricos iam mais longe e viajavam para a Europa.

Fortaleza desta época esqueceu suas expressões tipicamente cearenses e as substituiu por palavras francesas como "Bonjour" ou "Au revoir".

Esse período da história conhecido por Belle Époque teve duração relativamente curta (1880 - 1914). Porém, a influência exercida sobre os costumes foi importante e, por algum tempo, transformou a cidade em uma extensão da Europa francesa. Segundo Oliveira (2008, p. 26):

Esta época efervescente marcou o início do século XX, sob o resplendor da Revolução Industrial e do levante artístico que marcou o surgimento do Romantismo. Época da vida boêmia pelos cafés e bulevares da Paris que renascia a cada dia.

O século XX suscitou novas posições contrárias ao conformismo natural anterior a Revolução Industrial que, por sua vez, motivou o surgimento de versões contemporâneas do pensamento europeu, especificamente nas relações entre as pessoas.

Um ponto favorável a instalação dessa tendência cultural na Europa foi, sem dúvida, o período, ou conforme nos explica Ferreira (2011, p. 27):

A ausência de guerras na Europa e, conseqüentemente, a atmosfera de tranqüilidade, levaram os europeus a desfrutar, cada vez mais, da vida nos divertimentos como circos, casas de espetáculos (music-hall) e cinema. Este período de paz possibilitou um espírito de harmonia social e de grande euforia.

As transformações aconteciam muito rapidamente e traziam novos comportamentos para o dia - a - dia das pessoas, mudanças tão rápidas que obrigavam as mesmas a novas atitudes e comportamentos, como explica Ferreira (2011, p. 27):

O mundo andava mais rápido, pois avanços técnicos permitiam modernização nos meios de transporte com o desenvolvimento de trens mais velozes, com a criação do motor à combustão - que seria usado nos carros e caminhões - com a conquista do ar por meio do avião e com os suntuosos transatlânticos que aproximavam a Europa da América.

Novos modelos de expressão e vivência são criados e neles há uma preocupação com a estética e o luxo, que segundo Hobsbawm:

(...) passaram a ser inseridos no cotidiano do povo francês, pois os avanços da tecnologia e da modernidade possibilitaram a invenção de novas tradições e sua propagação no mundo por alguns anos. Hobsbawm, 2002, p. 21).

A Belle Époque francesa é responsável pela sofisticação das relações entre as pessoas e os bens de consumo, fato que persiste até hoje, quando fala-se de produto francês com um diferencial muito comum ao que se observa quando fala-se em "tecnologia japonesa" ou bacalhau da Noruega".

A Belle Époque brasileira foi conseqüência da prosperidade da economia resultante da "agricultura cafeeira, da pecuária, do ciclo da borracha e do início da industrialização". (HOBSBAWM, 2002, p. 29).

Algumas críticas são feitas a essa reprodução de estilo de vida parisiense no Brasil, dentre as quais uma especialmente preconceituosa e cruel, que afirma: a sociedade de um país de terceiro mundo quis adquirir hábitos de um país de primeiro mundo, acreditando que esta prática serviria como uma escada social.

Porém, a nação dá uma resposta, buscando a sua verdadeira identidade, a partir de 1922, com a chamada "Semana Modernista" que entre outras coisas tinha a proposta de valorizar as raízes nacionais e romper com a estética importada.

A Belle Époque começa a perder força no Brasil e a crise de 1929 ajuda a encerrar de vez esse período. Mas suas marcas permanecem impressas na história das artes, da moda e na arquitetura de cidades brasileiras como Manaus, Fortaleza, Recife, São Paulo e Rio de Janeiro. Entretanto esta última com mais intensidade, uma vez que era a capital política, administrativa, comercial, financeira e cultural do Brasil. Apesar disto, apresentava problemas que não permitiam enquadrá-la no padrão parisiense, o que irá gerar um movimento de mudança chamado "Rio Civiliza-se".

Na efervescência da Belle Époque brasileira, todos os setores da sociedade sofriam influência francesa, desde a arte, à moda. A cultura denotava caracteres estrangeiros, que no imaginário da população representavam um modo de ascensão social. Nesse sentido, esclarece Oliveira (2008, p. 29):

De 1889 a 1918, a Belle Époque brasileira foi (...) cenário de triunfo, as novidades celebravam o progresso e os avanços da civilização moderna, com forte influência da estética francesa. (...) Na pintura, os movimentos estéticos europeus do período (impressionismo, simbolismo, pontilhismo e art nouveau) retratavam as transformações vivenciadas pela sociedade no momento e exerciam influência nos artistas nacionais. Na moda feminina, por exemplo, essa influência se traduzia em roupas pomposas, nos vestidos muito enfeitados, penteados altos, chapéus vistosos, saias longas, etc. No vestuário masculino, a sobrecasaca, o fraque e os acessórios, como relógios de bolso e abotoaduras, eram símbolos de elegância e luxo.

O cenário brasileiro desta época refletia o pensamento de que ser civilizado era agir, ser e pensar como os parisienses e importavam os costumes e os hábitos da França, incluindo suas tradições culturais, vivenciando uma caricatura de modernidade que nada tinha de original e chegava as raias da excentricidade, uma vez que, nem a indumentária, nem o vocabulário condiziam com a realidade de um país de terceiro mundo, situado em uma zona tropical e ainda em formação.

Como todas as cidades brasileiras que vinham sofrendo a influência da cultura francesa, Fortaleza também experimentou esse período caracterizado por intensas mudanças nos seus costumes, segundo Ponte (2001a, p. 22):

Fortaleza evoluiu de uma acanhada capital, para o verdadeiro centro político, econômico e social de todo o Ceará.A elite fortalezense, constituída por comerciantes, bacharéis e profissionais liberais, tinha notória influência do exterior, em especial da França. O "chic era usar palavreado francês e saber a última moda parisiense. Esse período ficou conhecido como "Fortaleza Belle Époque.

Esse período refletiu o progresso com ares estrangeiros e a elite fortalezense incutiu idéias de civilização e progresso inspiradas na Europa. Surgiram propostas para a topografia da cidade e as novidades modernas, como os bondes de tração animal, linhas de navio da Europa e do Rio de Janeiro, a iluminação a gás carbônico, fábricas, mercados públicos, telefones, entidades intelectuais, os primeiros cemitérios, bibliotecas e clubes para lazer. (PONTE, 2001a).

A elite de Fortaleza, nesta época, era formada por comerciantes, bacharéis e profissionais liberais, cuja formação e influência tinham suas raízes no exterior, especialmente na França, de onde vinha a idéia de elegância no vestuário, que exigia terno e vestidos longos, mesmo inadequados ao clima.

O comércio com suas grandes lojas, repletas de produtos tinha nomes estrangeiros.

Algumas praças públicas da cidade eram destaque e recebiam as famílias em suas tardes de lazer. Dentre os quais se destaca a Praça do Ferreira, cujo nome é uma homenagem ao intendente Antonio Rodrigues Ferreira, conhecido como Boticário Ferreira, proprietário de uma farmácia no local.

A burguesia fortalezense passou a desejar espaços cada vez mais exclusivos, uma vez que não era possível a mesma freqüentar locais onde os demais membros da sociedade, considerados "pobres", também estavam. E assim, segundo Pontes (2001a, p. 168):

Então, no ano de 1867, foi fundado o Clube Cearense, freqüentado apenas pela elite fortalezense e onde havia festas suntuosas, jogos de recreação, novas danças e atividades culturais para o seleto grupo de associados, composto pelos mais notáveis homens de negócios locais e estrangeiros. A atitude seletiva do Clube fez com que um grupo de burgueses emergentes, irritados por não poderem participar dele, criasse outra sociedade, o Clube Iracema. A partir daí os dois clubes começaram a disputar para ver qual organizava os maiores eventos.

A ligação entre Fortaleza e a Europa estava especialmente voltada para a França, onde eram mandados os filhos da burguesia fortalezense para estudar, como nos esclarece Neto (1999, p. 87):

Fortaleza era uma festa. A cidade se sentia a própria Paris dos Trópicos. A febre de consumir produtos ingleses havia sido deixada de lado em troca da procura desenfreada por artigos franceses, nova matriz das novidades (...) Saias ficaram menores, menos armadas. Cavalheiros de gosto refinado trocaram o preto por ternos de cores mais claras. Pelas ruas do Centro, por todos os lados, as lojas ostentavam tabuletas escritas em francês (...) A pequena província de Fortaleza estava se transformando, a olhos vistos, em cidade de verdade. Fortaleza, a Paris dos Trópicos, descobria que sair à noite era chique. Noite feita de bailes, espetáculos teatrais, concertos vocais.

Outra necessidade da elite fortalezense da época estava diretamente ligada à questão da arquitetura, uma vez que a emergente burguesia estava deslumbrada com as novas edificações com padrões e valor europeu. A motivação também estava na necessidade de evidenciar o poder econômico das famílias e indicar que o senso estético das mesmas estava ligado as idéias do mundo moderno. Ponte (2001b, p. 28) informa:

Para demonstrar o poderio, surgiram novos prédios e casas elegantes, inclusive sobrados. "O número de casas baixas e modestas diminuía no perímetro central, dando lugar a outras com estilos e fachadas mais elaboradas, portando bandeirolas, persianas, cimalhas, cornijas, frontões ogivais, varandas e balcões de ferro.

O redirecionamento da planta topográfica de Fortaleza e subúrbios era outro exemplo da completa adesão ao plano francês de progresso, uma vez que estava baseada nas reformas realizadas em Paris, pelo Barão de Haussman, no início do século XIX, e tinha como objetivo disciplinar a expansão urbana, visando, como diziam em expressão da época, "aformosear a cidade".

Ponte (2001b, p. 25) acerca dessa disciplina urbana esclarece que:

Segundo o novo mapeamento, a cidade passava a ser traçada em xadrez, sendo as ruas alinhadas em 90º. Dessa forma, Fortaleza ganhava três boulevards (avenidas do Imperador, Dom Manuel e Duque de Caxias), por onde aconteceria o fluxo de pessoas e produtos. "A disciplinarização do espaço urbano da capital cearense a partir do final do século passado acha-se estreitamente relacionada com um leque de medidas técnicas voltadas para o reajustamento social das camadas populares, sobretudo por meio do controle da saúde, dos corpos, gestos e comportamentos.

A Fortaleza da Belle Époque teve também a sua face escura de segregação e preconceito ao criar zonas de acessos restritos do espaço público. Dentre as quais o caso mais famoso é o do Passeio Público, onde claramente podia ser observada a diferença entre as classes sociais na ocupação do lugar.

A Fortaleza da Belle Époque mostrou-se excludente e tentou maquiar a realidade dos habitantes das classes menos favorecidas, fato que ficou marcado especialmente no ano de 1877, segundo Neto (1999, p. 87):

Em meio à ordem e à modernização desejadas, a Fortaleza civilizada, luxuosa e disciplinada teria que lidar com uma situação inesperada, sobretudo para aquele momento de reajuste social. Em 1877, no dia São José (19 de março), não choveu no Ceará. O inverno não chegou e, como conseqüência, a seca assolou diversos estados nordestinos. Com esse revés, a Paris cabocla não contava. Em função da perda das plantações, da morte de animais e pessoas, da falta de comida, água e condições mínimas de permanência no Sertão, centenas de retirantes, os quais também podem ser apelidados de "Marias e "Josés, se deslocaram em direção à capital cearense.

Essa situação deixou a cidade repleta de "indesejáveis" figuras, que em nada contribuíam para a elevação da capital aos moldes franceses. Era um período de insuportável movimentação de retirantes, fato que desagradava os olhos da elite, porém, era uma realidade contra a qual nada podiam fazer, uma vez que, cerca de 500 flagelados entravam diariamente na cidade, que passou a contabilizar entre os seus 130 mil habitantes, pelo menos 110 mil como retirantes. Ainda pontuando essa questão, afirma Neto (1999, p. 88):

A cidade inchou (...). Estavam por toda parte. Os abarracamentos na periferia já não eram mais capazes de abrigar todo mundo. Os flagelados ocupavam agora o centro de Fortaleza, arranchando-se debaixo dos cajueiros, no meio das praças, nos galpões.

A população local parecia ignorar o problema, seguindo cegos, preocupados apenas em exaltar os costumes franceses, dando especial atenção a questão do positivismo de Augusto Comte, defensor do cientificismo, já presente na formação do traçado das ruas da cidade.

Essa realidade era então observada na preservação de locais exclusivamente dedicados a aristocracia da época e que não podia ser freqüentado ao menos em sua totalidade por indivíduos desqualificado sociamente ou flagelados de secas. Talvez o mais famoso local para o ponto de encontro da elite fortalezense tenha sido o Passeio Público, cuja inauguração se deu no ano de 1880. E segundo Ponte (2001a, p. 160):

O Passeio Público foi inaugurado em frente à sede do Clube Cearense, onde se localizava a antiga Praça dos Mártires, que foi remodelada com bancos, canteiros, jardins, réplicas de esculturas clássicas e três avenidas onde se dividiam os grupos sociais. Na primeira, a formosa Avenida Caio Prado, onde, com o contraste da bela vista ao mar, desfilavam os homens e mulheres da elite, com seus ternos bem cuidados e seus grandes vestidos; já a segunda e terceira avenidas, Carapinima e Mororó, eram por onde passeavam as pessoas da classe média e baixa da cidade.Parece que essa divisão era "espontânea, pois não havia regulamentação oficial nesse sentido. No entanto, é preciso considerar que tal separação ocorreu por conta de uma espécie de segregacionismo social. Em outras palavras, o Passeio Público era um local para todos... mas separadamente.

O comportamento da elite da época parece que foi ditado para os outros segmentos sociais, sem mesmo precisarem estabelecer nenhuma norma escrita. Dessa forma ainda," segundo Ponte (2004, p.28): "a primeira Avenida, a Caio Prado, de onde podia ser apreciado o mar, desfilavam os homens e as mulheres da aristocracia com seus ternos bem cuidados e grandes vestidos, ficando a segunda Avenida, a Carapinima, e a terceira, a Mororó, destinadas respectivamente as classes média e baixa da população.

O Passeio Público teve início no Largo da Fortaleza ou Campo da Pólvora, que já a primeira praça da cidade na época do o presidente da Província Dr. Fausto Augusto de Aguiar. "Porém, dentre os nomes com que ficou conhecido podem se destacar ainda "Largo do Paiol, "Largo do Hospital de Caridade, "Praça da Misericórdia e "Praça dos Mártires. (PONTE 2004a, p. 160):

O nome de Praça dos Mártires é uma homenagem aos heróis tombados ali, pertencentes ao movimento República do Equador, que foram bacamarteados: João Andrade Pessoa Anta, tenente-coronel Francisco Miguel Pereira Ibiapina, padre Gonçalo Inácio de Loiola Albuquerque e Melo Mororó, tenente de milícias Luís Inácio de Azevedo e o tenente-coronel Feliciano José da Silva Carapinima. (PONTE 2004a, p. 160):

O Passeio Público era na realidade uma amostra da expressão da ignorância e da completa falta de amor patriótico pelos valores culturais inerentes a uma sociedade que em nada tinha de comum com a Europa, exceto a dessarazoada intenção de ser, mesmo que inconsciente, uma caricatura de um povo que se diferenciava deles da aparência física a espontaneidade dos gestos e palavras.

A necessidade de se sentir afinado com o que se conhecia como exemplo de "modernidade", "cultura", "educação" e "fineza" colaborou para que na cidade de Fortaleza, em logradouros públicos, olhos atentos pudessem perceber a segregação social imposta às pessoas, cujo destino trouxe para a cidade grande.

A Belle Époque alencarina desfilou no Passeio Público durante anos e anos seguidos, com sua indiferença e o comportamento esnobe inerentes a uma aristocracia descaracterizada de suas raízes nordestinas, fato esse que, em nada tendo de elegante e moderno, apenas colaborou para escrever nas páginas da história um exemplo de atitude desumana e preconceituosa que segregava irmãos de uma mesma terra.

A freqüência ao Passeio Público começou a rarear e aos poucos o logradouro foi ficando esquecido. Nem mesmo as costumeiras reuniões que se realizavam as quintas - feiras e aos domingos com o intuito de apreciar a música executada pelas bandas do 5º batalhão da Polícia Militar, conseguia atrair os visitantes de outrora. Acerca disso, mais ainda sobre a beleza natural do local, nos esclarece Nogueira (1954) apud SEGAWA (1996).

No entanto, a freqüência arrefecia. As retretas que ali se realizavam, quando a população se reunia para apreciar as bandas do 5º Batalhão rareavam. (...) O tempo do Passeio Público Findara, ele parecia com a sua geração, o público que o freqüentava e tanto o apreciava já estava muito reduzido e a nova geração não o procurava. A exuberância da vida vegetal que em outros tempos caracterizava o logradouro sedia lugar a um quadro de esterilidade e desolação. (SEGAWA, 1996, p. 25).

O antigo logradouro que constrangia quem não se portava segundo os ditames e as convenções sociais postulados na cultura francesa, passou a apresentar uma visão que em nada remontava a aristocracia daquela época. O abandono comprometeu não só a memória da cidade, ma, o patrimônio histórico que se deteriorava sem despertar o interesse das sucessivas administrações municipais.

A decadência do Passeio Público passou, então, a ser um fato que tem seu início no ano de 1914, agravando-se com a seca de 1915. Segundo Lima (2010, p.34):

O Passeio Público reivindica uma postura de reverência aos sacrifícios impressos nos humanos, animais e plantas que perderam a vida naquele lugar. As promoções culturais que povoam o Passeio Público nestes idos do séc. XXI, não conseguem honrar a dor que reina dos quatro cantos daquela praça. Um campo do sagrado apresenta-se como um caminho para homenagear os mortos de 1825. Para este fim, os fatos (mesmo que profundamente dolorosos) precisam ser trazidos à consciência do organismo cidade para que as atitudes lá praticadas possam ser transformadas. As perguntas de Gustavo Barroso continuam a ser atuais: "Será possível tanto desamor às nossas mais veneráveis tradições? Será possível que a mecanização materialista da época assassine a alma das cidades?

A revitalização do Passeio Público realizada na administração da Prefeitura Luiziane Lins com certeza não traria de volta a emblemática reverência aos costumes da Belle Époque, mas certamente manteve a cidade a preservação da memória imaterial e material do povo, uma vez que esse espaço não poderia ser somente cantado e descrito na poesia e na literatura sobre Fortaleza.

CONCLUSÃO

A cidade de Fortaleza é uma metrópole que chama a atenção de turistas do mundo inteiro e contribui para que o sentimento provinciano e caloroso se instale no coração de seus habitantes.

Esse modo de ver a cidade está presente através da valorização de sua cultura, dos artistas da terra e dos diversos pontos históricos e turísticos que se espalham por seus logradouros.

Atualmente grandes festas populares reúnem em suas praças todas as classes sociais, fazendo com que o passado da cidade, excludente e preconceituoso, fique na história como algo de triste memória.

Fortaleza nasceu no início da colonização portuguesa e sofreu a interferência holandesa quando Matias Beck aqui desembarcou e passou a governar o território do alto do famoso forte de Schoonemborck. A localidade não assimilou a cultura holandesa.  Ao se desenvolver como vila e depois cidade, sua aristocracia, sem noção de cultura e com excesso de dinheiro, cultuou a realidade francesa com um mau gosto imprescindível, uma vez que na tentativa de ser "moderna" e "culta", essa Fortaleza caricata passou a imitar um modo de vida que não condizia nem ao menos com o clima da cidade e, de repente, enchia as suas praças e ruas com tecidos finos e mentes preconceituosas tendo em vista a segregação que impunha aos mais pobres, que nem coragem tinham de se aproximar de tais imponentes figuras.

Era uma época adventícia. Imensos casarões foram erguidos numa espécie de competição entre as famílias ricas, clubes e logradouros foram construídos nos moldes parisienses e em muitas dessas praças, pequenos cafés se enchiam de políticos, bacharéis e comerciantes para comentarem acerca das amenidades de uma época irreal, uma vez que fechavam os olhos aos inúmeros retirantes que enchiam as ruas, oriundos dos rincões mais distantes, tentando sobreviver a uma seca terrível que avassalava o sertão cearense em fins do século XIX e os  primeiros do XX.

Nessa época, conhecida como Belle Époque, uma marca registrada da cidade era a segregação. Embora não havendo lei que a norteasse, se impunha de modo "natural", especialmente no mais tradicional recanto da época, o Passeio Público, local em que ruas foram notadamente criadas para o lazer dos ricos e que, se por ventura, alguém de classe social inferior ousasse freqüentar, tinha que se contentar com caminhos menos expressivos, sem o luxo dos belos jardins e bancos onde homens e mulheres podiam apreciar a brisa das tardes de verão sem ter que poluir seus olhos com a presença de pessoas que não ostentassem os bons e aristocráticos costumes franceses no vestir, no falar e no modo de se comportar.

O tempo e a realidade demonstraram que a cidade estava errada no seu modo de ver o mundo e a sociedade.  O logradouro, antes exclusividade dos filhos da aristocracia fortalezense, se tornou um local de extrema pobreza, freqüentado por pessoas que antes nem se quer em sonho podiam pensar em lá colocar os pés. O abandono pela aristocracia que se afastou do centro da cidade fez com que o Passeio Público fosse realmente o que o nome sugere algo de domínio público e até bem pouco tempo, o mais degradante dos comportamentos, oriundo da miséria e da necessidade de sobrevivência. O apelo inevitável da droga e da falta de compromisso e solidariedade das autoridades deu ao Passeio Público um rosto feio e desesperado, diferente do rosto dado pela aristocracia que lá freqüentava.

Felizmente, nos últimos anos, o logradouro foi tombado como patrimônio estadual e restaurado. Nele se desenvolvem hoje atividades artísticas e culturais, com gastronomia local. Essa ação da prefeitura ampliou o público freqüentador e requalificou para melhor o seu uso.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FERREIRA. Lucas Aquino. A Fortaleza da Belle Époque. 2009. Disponível em http://www.evaldolima.com.br/2008/01/fortaleza-belle-poque-passeiopblico.html acesso em 18 de junho de 2011.

HOBSBAWM, Eric. O sentido do passado. In: Sobre história. Tradução: Cid Knipel. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

LIMA, Herman. Poeira do tempo: memórias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.

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NETO, Lira. O poder e a peste: a vida de Rodolfo Teófilo. Fortaleza: Edições Fundação Demócrito Rocha, 1999.

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________, Sebastião Rogério. Remodelação Urbana de Fortaleza na Virada do Século. Fortaleza:NUDOC/UFC, 2001b.

SEGAWA, Hugo. Ao amor público. Jardins no Brasil. São Paulo: Studio Nobel / FAPESP, 1996.

www.pitoresco.com.br.